Ensaio sobre o olhar 42,5

Havia acabado de terminar um namoro e estava arrasado. Um amigo então me convidou, de dó, para acompanhar ele e alguns amigos da sua esposa para comer panquecas em um bar brasiliense.

Só faltou eu dormir de tédio. Um pessoal esquisito, que só falava de trabalho e após o quarto assunto chato falando de caminhos alternativos da volta do trabalho, quase dormi (é engraçada a mudança de assunto dos homens quando estamos entre nós do que quando acompanhados das namoradas e esposas — assuntos técnicos, comida, filmes e de caminhos em geral). Sem contar a mudança radical de personalidade de muitos, principalmente dos casados.

Foi quando notei algo estranho na mesa… Dei uma olhadinha para o lado para confirmar e enfiei a cara nas panquecas novamente, disfarçando para ele não ver que eu o observava. Pensei: — “Será que estou ficando maluco? Só eu notei ou todo mundo sabe e ninguém comenta?”

O fato é que tinha um cara do outro lado da mesa, na diagonal, que… não piscava. Primeiro achei que estivesse imaginando coisas. Depois, comecei a observar mais atentamente. Fiquei “de olho” nele. Pior que você fica olhando para um cara que não pisca e sua tendência é não piscar também… Eu segurava a piscada até os olhos lacrimejarem e me rendia à piscada. Quando me dei conta, nem sequer respirava mais, com os olhos arregalados imitando ele. Será que essa cara está me zoando? — pensei e comecei a rir sozinho.

Talvez o pessoal já estivesse pensando que estava louco, rindo das panquecas, porque eu ficava olhando para o prato, fuçando nelas e disfarçando. Também, eu não tinha um amigo para comentar e desabafar… Uma hora eu não resisti e dei mais uma olhadinha… Era hipnótico. Para meu azar, ele me encarou justamente quando o olhei. Pronto, agora o cara vai achar que eu estou paquerando ele. — pensei. Se você é homem e olha nos olhos de outro homem é porque está paquerando ou se você olha e tira olhar rapidamente é porque você está paquerando… e é tímido.

Veja a enrascada que eu me meti em menos de dez minutos de panquecas. Também, como pode existir um cara que não pisca? E como pode um pessoal conviver com um espécime desses e não comentar disso o tempo todo. Dar apelidos, por exemplo: Pisca-Pisca, Insônia, Abdutor, Olho grande, Pisca-você, Pisca-que-eu-não-pisco, Piscou-perdeu, etc…

De repente, me deu um ataque de riso. Olha só a ideia na minha cabeça: “e se esse cara pisca sim, mas exatamente ao mesmo tempo que eu?” Que lindo. Almas gêmeas que piscam ao mesmo tempo! (feche as duas mãos em forma de boca em frente uma a outra para imitar os olhos e bata os dedos ao mesmo tempo para você imaginar como é, tá-tátátá-tá-tátá). Tive de sair correndo da mesa.Às vezes parece que só você nota uma coisa e que todo mundo comeu uma geleia com uma bactéria alienígena e estão abduzidos, disfarçando para você também comer também.

Se você pertence a esse mundo, de notar pequenas coisas que ninguém a sua volta parece comentar ou se incomodar, junte-se a mim. Pode ser que um dia só sobre a gente e vamos ter que nos unir para vencermos nesse mundo esquisito e cheia de gente abduzida que não pisca.

Esse dia foi f…!

Marcus Vinicius Leite

Written by

jornalista, revisor/redator publicitário nas horas pagas. Gaitista e cartunista nas horas vagas.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade