Tudo vai dar certo, mesmo que não dê

Trilha recomendada para a leitura: https://www.youtube.com/watch?v=PLj13PC8lC0&index=9&list=PLyDoIxVrGWmYtmhCxG9WjBrYSVPG99sUs

Quem me visse refletindo tão avidamente sobre o fato de não ser um cara tão bonzinho quanto costumam acreditar por ai, não imaginaria planejando uma morte mais rápida, suave e indolor. Minha ou do mundo, qualquer coisa para escapar daquele calabouço da ansiedade sobre ter sucesso no funcionalismo público qualquer — de acordo com o que me era exigido.

Quem me visse pulando e dançando em pleno meio dia com um sorriso de orelha a orelha no rosto enquanto esperava a comida da mãe ficar pronta, não imaginaria que há alguns anos faria qualquer coisa para nunca mais precisar levantar da cama.

Quem me vê acordando cedo e saindo pra trabalhar cantando, apesar do sono, e do frio, não imaginaria que não dormir era só um mote pra não ter que enfrentar o dia seguinte. Quem me vê nas ruas, andando tão leve como quem quer voar, não imaginaria que queria ser um tatu, para poder morar em um buraco. Dos mais reclusos possíveis.

Quem me vê escrevendo, falando e conversando com a eloqüência torta, mas de certa forma, eficiente, que Deus me deu, não imaginaria que uns anos atrás, eu achei que nunca mais haveria nada mais digno de se reportar. Nada mais digno de ser notado na arte ou no cotidiano.

Quem me vê sonhando e olhando as estrelas como quem quer habitar o infinito não imaginaria que anos atrás achei que a poesia do mundo fosse algo ilusório e fictício.

Quem me vê cheio de cor, sonoro e empolgado, não imaginaria que há anos eu era um filme em preto e branco. Quem me vê fotografia, não reconheceria o fantasma translúcido que costumava se passar por mim há pouco, muito pouco tempo atrás.

Quem me vê feliz jamais imaginaria que já fui triste, mais triste que um circo sem palhaços e um pé descalço caminhando em puro gelo. Quem me vê fogueira jamais imaginaria que eu fui o iceberg, o Titanic, e os afogados… tudo ao mesmo tempo.

Mal saí desta situação e avistei um palco armado, repleto de milhares de apetrechos decorativos à espera de um artista. Bastou que eu percebesse que a platéia não se constituía de cadeiras, mas de um grande espelho, para me sentir convidado a fazer parte do cenário. E eu, que me esperei por tanto tempo, cai, rodopiei, cantei em falsete. Ninguém viu, mas foi suficiente para me fazer esquecer a tensão, o fardo de ser feliz. E foi ao desistir da benfeitoria caridosa da vida, que vinha em migalhas perdidas em saco de pão, que a gente, de uma forma torta, mesmo que não dê certo, atraísse como um imã, todos os bons sentimentos do mundo — foi quando cai em mim, e descobri que o homem só é efetivamente feliz, quando não se preocupa mais com isso.

Vivamos!