Adônis
Ouvira ainda as três batidas na porta. Costume velho do Pai. Os raios de Sol flertavam calmamente com as pequenas partículas de poeira da roça espalhadas na atmosfera inerte do quarto fechado. Um fio alaranjado e denso serpenteava o espaço e ia invadindo obliquamente o pequeno furo na cortina. O garoto renunciou levantar. Impossível: era o mundo o convidando a bailar.
O Rapaz abriu os olhos e lá estava sua mesa e cômoda. Indícios de uma saudade por vir. Havia completado dezoito anos e o ardil dos dias o pegara. O Pai não insistiu. Nem com ele, nem com a porta. Voltou-se para a cozinha e ajeitou o mal ajambrado café que preparava. Desde que a mãe se foi eram assim os dias, divididos com aquele homem de olhar pequeno e perdido. Esperando, talvez, o dia de ir ter de novo com a Mulher.
Arrumou a cama, colocou a mala nas costas e foi sorver o café sem saboreá-lo. O cheiro da terra da Adônis ainda o fez nostálgico: era mesmo preciso ir? Olhou de soslaio o velho sem vontades, que tirava do bolso uma maçaroca de notas. Jogou-as sobre a mesa sem nem mesmo olhar nos olhos do Rapaz. Sentou-se à beira da porta para fumar e admirar a pequena fazenda. Metera tudo no bolso, a Cidade logo absorveria aqueles miúdos papeis. Projetou ainda um abraço no Pai que o observava indiferente.
- Eu escrevo — disse o garoto.
A única resposta foi um longo olhar, de quem quer uma última memória.
Rumou estrada a fora: de ônibus em ônibus achara a Cidade. Metera-se numa pousada, fez se amigo de alguns e empregado de outros. Era estada rápida. Logo retornava para a Adônis. Era seu alento, sua rocha. Repositor em um supermercado, arrumou-se num casebre de periferia. Matriculou-se na escola. Lembrava-se todos os dias da fazenda, em breve voltaria — pensava.
Juntou dinheiro o bastante. Foi Natal. Meteu-se de ônibus em ônibus e voltou para Adônis. Viu o Pai indiferente, abraçou-o. Em respeito comprou-lhe um porco. Um sorriso tímido e envergonhado se armou. Antes de voltar para a Cidade devolveu a mesa outra maçaroca de dinheiro.
- Ainda hei de devolver todo ele.
Chegou outro Natal e o velho ainda lá estava. Mais outro viera e o tempo parecia não passar. Surpreendera-se com a força do homem. Nada lhe abateria, só a memória da Mulher falecida. Apenas pôde dizer:
- Pai, como é incrível o mundo…
O olhar do velho se esvaiu… e caiu sobre a serra que existia por detrás da pequena fazenda.
- Não sei pai, mas parece que o mundo… — insistiu.
Há silêncios que são feitos, apenas, para serem ouvidos.
O Rapaz se deliciava. A Cidade tinha muito a lhe oferecer: as casas belas, os cinemas, as confeitarias, o dinheiro, as mulheres bem vestidas, as festas, os passeios de sábados e uma Moça de cabelos negros e rosto alegre com a qual sonhava. Veio mais um ano e neste um bilhete o serviu bem. O velho nada respondeu. Mais outro e a Adônis já parecia distante. Assim se sucedeu. Até vir o verdureiro vizinho vender na feira perto de casa:
- E meu Pai?
- Anda lá.
Mandara cartas e cartas sucessivas, as quais o vizinho fazia o favor de entregar. Estudou, formara-se Eletricista. A Moça, por sua vez, se persuadira: a sabedoria dos olhos calmos e a beleza dos cabelos negros haviam se tornado os únicos que ele amaria por toda a vida. Casaram-se num sábado de Maio, chovia, fazia frio: dançou e bebeu. Sentiu falta do velho. Viu a Moça tornar-se Mãe, ele tornar-se Pai. Vieram os dois filhos rechonchudos, o carro de trinta e seis prestações, a casa na travessa da grande avenida.
Passaram-se doze anos: era tempo de voltar. Foram filhos e casal. O Avô os recebera com um sorriso tímido, se orgulhava dos Netos, principalmente da Menina que tinha os olhos da Avó falecida. Houve naquele dia um novo suspiro de vida. No quarto antigo, sobre a cômoda, repousavam as cartas fechadas. Um frio de mágoa e tristeza cortou o espírito do Filho: inútil era querer o amor do velho.
Foi-se o tempo. Assim se sucedeu:
- E meu Pai?
- Anda lá.
Não mais cartas. Não mais Natais. Passaram-se dezoito anos desde que viu pela última vez o Sol se fazer surgir por cima da pequena serra atrás da Adônis. O Filho Mais Novo já aprendia a escrever o nome. A Menina já estudava Piano. O cabelo negro da Moça era agora curto, os vestidos de professora mais sóbrios. Todas as noites, antes de dormir, fitava longamente os olhos calmos da Esposa, acariciava lhe os cabelos e contava-lhe do dia: sentia se apaixonar cada vez mais por ela a cada palavra. E imaginava que era assim que as coisas deveriam ser.
Veio o dia que completavam-se vinte anos desde que partira da Adônis. Durante o trabalho pensou em tudo que tinha e teria, lembrou dos filhos e um arrepio frio o perseguiu, um aperto lento e num compasso manco começou palpitar o coração: como pôde? Abandonou o velho sem ao menos tentar. Deixou assim o homem e o passado sem saber onde iria dar. Lembrava dos filhos e arrependeu-se por abandonar o Pai.
Mais dois anos se foram. Era noite. Acariciava o cabelo da Esposa e contava-lhe do dia: um calafrio lhe assaltou a mente. A perda da Mãe chocara o Pai, sem dúvidas. O Rapaz nem mesmo teve essa sensibilidade. Sem querer descobria olhando para Esposa, que antônimo de amor, não era ódio e, sim, indiferença. Que o pior sintoma da mágoa, não era o fim e, sim, a falta. Amava ainda o velho. Sentia sua falta.
Por isso, um aperto mais agudo lhe atrapalhava o trabalho de Eletricista-Chefe. Fatigava-o. A noite já não mais dormia direito, nada mais o alegrava. Tornara-se taciturno: era necessário voltar à Adônis. Contou a Esposa. Ela se fez companheira e afirmou: Não poupariam esforços quando viessem as férias. Pensava dia após dia no dito. Já quase não se ocupava em dormir. Os meses se arrastaram.
Chegou julho.
No dia de partir, o aperto tornou-se mais forte. Não pode dormir naquela noite: o frio e tudo mais o pesava. Velou o repouso da esposa, invejou-lhe a calma. Pediria para ela dirigir amanhã. Ela não reclamaria. Entendeu, por fim, o que era uma companheira e porque amava a singularidade daquela mulher. Se fez inquieto com esse pensamento. Bateu portas, acendeu luzes, viu os filhos dormirem, checou malas, o carro.
Uns raios tímidos de claridade já forçavam passagem janela adentro, deviam ser seis horas da manhã. Não havia dormido nada. A sala vazia o fazia refletir, o pulso se entrecortava. Uma lágrima procurou espaços. Não pôde. Logo se recostou na poltrona, lembrou-se do pai e da sua indiferença: viu-se no espelho estava já parecido demais com o velho para renegá-lo daquele modo.
Chovia. Nublava-se o céu. Tentou dormir. Fechou os olhos. Assim os sentimentos se faziam, ao menos, menos intensos. Lembrou-se do tumultuado silêncio da partida. Do café adocicado demais. Da Mãe. Da maçaroca de dinheiro. Da serra. Do cheiro da terra. Da Adônis. Do Pai. Estava prestes a chorar quando os ouvidos atentos seguiram a perplexidade do olhar. Na porta da frente da casa na travessa da grande avenida ouviam-se três toques o convidando para bailar novamente.