Milhares acreditam que um planeta secreto esteja se aproximando da Terra; Mas por quê?

Em janeiro deste ano, o astrônomo Mike Brown, da Universidade da Califórnia (Caltech), famoso por ter removido de Plutão seu status de planeta, fez um anúncio chocante: sua equipe encontrou indícios da existência de um nono planeta no Sistema Solar. E dos grandes — um gigante invisível, quatro vezes maior que a Terra, cuja órbita elíptica em torno do Sol levaria entre 10 mil e 20 mil anos. As evidências são fortes, e Brown descreve o choque no momento em que percebeu que múltiplas anomalias encontradas em objetos além de Netuno seriam explicadas pela existência do suposto Planeta Nove:

“Eu falei: ‘Se esses [objetos] estiverem onde nós previmos que eles deveriam estar, minha cabeça vai explodir.’ Testei-os. (…) Estavam exatamente como havíamos previsto [considerando a existência do Planeta Nove]. Minha cabeça não explodiu de verdade, eu acho, mas é possível que meu queixo tenha batido no chão. Ficamos em silêncio por um minuto, e Konstantin (parceiro de Brown) disse, em uma voz de semi-maravilhamento, ‘isso é mesmo real, não é?’”

O nono planeta explicaria, por exemplo, a estranha posição de Sedna, um corpo celeste que foi retirado do Cinturão de Kuiper por alguma força misteriosa. Brown passou 12 anos estudando Sedna, e chegou a teorizar que isso teria acontecido pela interação com alguma outra estrela, nos primórdios da formação do Sistema Solar. Mas, ao considerar uma suposta nova entidade planetária, todas as peças se encaixam.

Respondendo ao comentário de um leitor, Brown admite até a possibilidade de a inclinação do Sol em relação aos oito planetas ser causada pelo Planeta Nove. “Nós chegamos, infelizmente, à conclusão de que o Planeta Nove não pode ser responsabilizado pela [passagem bíblica da] divisão do Mar Vermelho ou pelo fim das eras glaciais, apesar de essas duas possibilidades nos terem sido sugeridas múltiplas vezes”, brinca o pesquisador.

A órbita de Sedna seria uma das influenciadas pelo Planeta Nove

Mas, enquanto a cabeça de Mike Brown explodia em seu escritório, uma comunidade online com milhares de pessoas, entusiastas de teorias da conspiração, receberia a notícia da provável existência do Planeta Nove sem qualquer surpresa. Ainda que desprovidas de evidências científicas concretas ou respaldo acadêmico, elas vêm discutindo há anos, em vídeos no YouTube e em comunidades no Facebook, a existência de um objeto com características semelhantes às do Planeta Nove. Elas o chamam de Planeta X, e vão além: afirmam que esse planeta esteja muito mais próximo da Terra do que Brown estaria disposto a admitir. Na verdade, dizem, ele já pode ser visto a olho nu. Mas o que há com elas?

Há um grande desprezo da comunidade científica por esse tipo de afirmação. Isso por causa de sua origem. Foi o arqueólogo e autor azerbaijano Zecharia Sitchin (1920–2010) quem propôs pela primeira vez a existência desse suposto planeta, a partir de uma controversa tradução que ele fez de registros da civilização suméria. Sitchin, pioneiro da teoria dos antigos astronautas, dizia que tábulas escavadas na região da antiga Mesopotâmia indicam que a espécie humana teria uma origem muito diferente da que conhecemos hoje: seríamos projetados por uma raça alienígena do planeta Nibiru — um objeto com órbita elíptica (assim como a do Planeta Nove) de 3,6 mil anos que traria consequências cataclísmicas aos habitantes da Terra a cada uma de suas passagens por nossa vizinhança na parte mais interior do Sistema Solar. Acadêmicos e cientistas ridicularizam Sitchin e seus seguidores, apontando incosistências nas traduções do autor e nos cálculos astronômicos dele. Mas, por algum motivo, as ideias de Sitchin continuaram a se propagar, e seus livros venderam milhões de cópias, traduzidos para mais de 25 idiomas. Até a Nasa teve que se pronunciar, negando a existência de Nibiru. Mas claro que os “despertos” (como eles se chamam) acusam a Agência Espacial Americana de esconder a existência do Planeta X propositalmente.

O arqueólogo e autor Zecharia Sitchin (1920–2010) afirmava que tábulas da civilização suméria indicavam a existência de um planeta secreto no Sistema Solar

Apesar das alegações controversas de Sitchin, a comunidade científica realmente busca por um misterioso planeta nos confins do Sistema Solar desde 1846, quando o astrônomo Percival Lowell (1855–1916) propôs sua existência como solução para irregularidades nas órbitas de Urano e Netuno, descoberto nesse mesmo ano. Quando Plutão foi encontrado em 1930 por Clyde Tombaugh, acreditou-se que ele seria a causa das perturbações, mas o tamanho do planeta-anão, comparado ao de seus vizinhos gigantes, tirou-o da lista de candidatos.

Em 1983, observações feitas pelo telescópio a bordo do Satélite Astronômico Infravermelho dos Estados Unidos (IRAS) fizeram manchete no jornal Washington Post ao detectar um objeto “possivelmente do tamanho de Júpiter” na direção da constelação de Órion. “A explicação mais fascinante para esse corpo, tão frio que não emite qualquer luz e que nunca foi visto por telescópios ópticos na Terra ou no espaço, é que trata-se de um planeta gigante”, diz o artigo assinado pelo jornalista Thomas O’Toole. “Tudo que posso dizer é que não sabemos do que se trata”, disse à reportagem na época o Dr. Gerry Neugebauer, cientista chefe do IRAS.

O texto prossegue: “Quando os cientistas viram o misterioso corpo pela primeira vez e calcularam que ele estaria tão próximo quanto a 50 bilhões de milhas, houve alguma especulação de ele poderia estar se movendo em direção à Terra.” O telescópio fez duas observações do elusivo objeto antes de ser desativado, após 11 meses de atividade, apenas. Os achados foram descartados posteriormente como frutos de interferências.

No começo dos anos 1990, a Nasa determinou que medições feitas pela Voyager 2, lançada em 1977 para estudar a região mais exterior do Sistema Solar, apontavam uma extrapolação da massa de Netuno como responsável pelas anomalias nos cálculos orbitais. Depois disso, a pesquisa hibernou e, desde então, o Planeta X foi relegado ao campo da especulação.

Isso não impediu que, ao longo das décadas, uma legião de pessoas, entusiastas das teorias de Sitchin e de outros autores, insistissem na possibilidade de um planeta gigante estar em trajetória de aproximação com a Terra, com consequências potencialmente desastrosas para a humanidade. Sua existência capturou inclusive a imaginação do diretor dinamarquês Lars Von Trier, que o retratou no drama “Melancolia”, de 2011. Os “despertos” acreditam que a aproximação desse objeto seja responsável, por exemplo, pelo número elevado de terremotos nos últimos anos. A média histórica de 16 abalos fortes anuais, com magnitude superior à de 7, foi superada em 2009 (19 abalos), 2010 (20), 2011 (18), 2013 (18) e 2015 (19). Mas claro que não há qualquer comprovação científica desse tipo de alegação.

O ponto central das atividade dos múltiplos canais no YouTube e comunidades online que se dedicam a discutir a existência (e chegada) do mitológico Planeta X é a análise de imagens e vídeos que supostamente o revelam nos céus, na maior parte das vezes como um “segundo Sol” ao amanhecer. Há registros inclusive no Brasil, como este, feito por uma câmera na praia de Itararé, em São Vicente, litoral sul de São Paulo:

Entre esses canais, o mais ativo é o do americano Steve Olson, com mais de 28 mil inscritos. Olson faz atualizações em vídeo em que ele analisa dezenas de imagens com supostos indícios e registros do “sistema”. Os “despertos” acreditam que o planeta possua luas próprias e outros fragmentos em sua órbta. Alguns afirmam até que ele possua sua própria estrela, uma anã marrom conhecida como “Nemesis”. Olson tenta discernir, em meio a uma porção de reflexos ópticos, registros de OVNIs e montagens, aquelas que ele acredita serem provas de um conjunto planetário inteiro dentro do nosso Sistema Solar. O americano também usa o canal para transmitir mensagens de união, de conexão com os ensinamentos de Jesus Cristo (amor ao próximo) e dicas de sobrevivência num possível cenário apocalíptico — “Use alvejante para purificar água em caso de escassez”, por exemplo.

Segundo os membros da controversa comunidade que acredita na existência de Nibiru, ou Planeta X, algumas das passagens anteriores do astro pela Terra foram documentadas por outros povos além do sumério: haveria referências em profecias bíblicas (a estrela Absinto do livro do Apocalipse de João e nos Evangelhos), nos registros da tribo nativa americana Hopi (sob o nome estrela azul Kachina), entre outras.

Marshall Masters — um dos profetas do Planeta X no YouTube

Mas, se os “despertos” acreditam mesmo na chegada de um sistema planetário arrasador à Terra, o que eles têm feito a respeito? O fato é que, independente da veracidade das alegações, eles têm, de fato, se preparado. Em seu canal do YouTube, o ex-engenheiro de TI Marshall Masters, outro dos profetas mais populares do Planeta X, oferece dicas para que seus espectadores possam construir abrigos subterrâneos, e explica como moradores de supostas áreas de risco podem se mudar para regiões consideradas seguras. O discurso de Masters é sempre feito com voz calma e relaxante — algo um tanto estranho para um profeta do Fim do Mundo. Mas essa é outra característica que os “despertos” compartilham. Em vez de adotar um discurso histérico e alarmista, a maior parte trata o assunto com serenidade, e muitos descrevem um estado de paz ao tomar consciência da chegada do suposto Planeta X.

Com tanta informação e ruído em torno desse tema, o mais seguro é se apoiar na pesquisa concreta e científica. Até que se prove o contrário, nada que venha desses canais, por maior que seja o número de seguidores, pode ser atestado como verdadeiro, pelo contrário. É necessário ter extrema cautela para não se deixar levar pela imaginação fértil e muitas vezes equivocada de alguns de seus autores.

O caminho mais seguro é acompanhar a pesquisa científica de astrônomos como Mike Brown, que publica regularmente atualizações sobre sua pesquisa em torno do Planeta Nove, em seu blog e página no Twitter. Ele criou até um site, “encontre o Planeta Nove”, onde compartilha achados, reflexões e os próximos passos de sua obstinada procura. Quem optar por se desviar desse caminho, inevitavelmente cairá nas águas incertas (ainda que por vezes excitantes) da especulação.