Uma fuga necessária

A ansiedade me persegue. Sinto a necessidade de sair do conforto do lar e desbravar o mundo além da minha redoma. Resolvo, enfim, tirar as malas do armário. Ajeito cuidadosamente algumas peças de roupa, uns pares de calçados e os objetos de higiene pessoal. Pego o carro em direção à cidadezinha pequena, cerca de 25 km da minha. Vou observando cada paisagem, cada lugar, cada pessoa ou grupo. A transição é interessante: a “modernidade mágica” das áreas nobres dão lugar a dura realidade da periferia, com muitas casas simples e bairros sem o menor planejamento. Nem parece que estamos numa mesma cidade e que dividimos um mesmo gentílico. Finda a periferia, a densidade da mata denuncia que estamos na zona rural, na divisa municipal. A vegetação convive com alguns pastos e projetos de plantações. O colorido natural suplanta a artificialidade contida em muitas vitrines de lojas na cidade grande. O cheiro do ar é mais agradável e em algum momento o cheiro de comida caseira feita no fogão a lenha me faz parar num restaurante. Me lembro que há muitos anos não sei o que é comer algo cozido lentamente, sem o compromisso desesperador do tempo, que tanto nos sufoca. O gosto defumado da comida parece um triunfo diante da impessoalidade prática do fogão à gás. Depois da refeição feita com uma tranquilidade poucas vezes posta em prática, volto a dirigir. Quase perto da cidadezinha, uma barraca de queijos e doces me instiga a parar. Algumas guloseimas depois, passo por um túnel de árvores. Céus, que paisagem linda. Se pudesse, a levaria comigo por toda a vida. A cidadezinha chega. Aparentemente uma leve periferia daquela vista inicalmente com algum incremento, mas com traços ainda mais acentuados de desigualdade. O “centro”, ou área nobre, é um ovo e o resto da cidade rodeia o ovo. Claro, quem pode, trata de morar nos lotes nobres, próximos à Praça Central, o point da cidade. Para os mortais, os terrenos variam entre algumas quadras distantes a quadras totalmente distantes da praça. O tempo, que tanto me irrita na cidade grande, insiste em correr lentamente na cidadezinha. A falta de lazer aparentemente me deixa um pouco agoniado. Não, é melhor ter calma. Eu precisava justamente sair da escravidão do tempo. Precisava ver paisagens além da televisão e internet. Precisava sentir sensações únicas, apenas disponíveis para quem as viveu. A transição de cada paisagem é mágica, algo incomparável. A janela não é um acessório, e sim, uma necessidade. Procurei um hotel para tentar descansar um pouco e conhecer melhor o lugar que, em outros tempos, jamais pensei ir. Aparentemente a hospedagem não parece ser das piores, mas não me traz o mesmo conforto de casa. Não me importo. Depois de um sono revigorante, caminho em direção à praça. O carro era desnecessário e invasivo naquele momento. Precisava sentir o “bafo” do povo, o cheiro do povo. Era engraçado andar naquele lugarejo sem medo de assalto, com receio de mal olhado, cara feia e coisas do gênero. A noite já trazia seus primeiros sinais e as pessoas chegavam mais e mais naquele local. Era o ponto de encontro da cidade. O único. Naquele espaço todos o compartilhavam. Alguns cidadãos mais abonados se exibiam em caminhonetes sofisticadas para as moçoilas, enquanto outros nem tanto afortunados preferiam a arte da sedução — e quem dela aproveita costuma ter sucesso. Um rapaz me vê e me pergunta o que tanto observo. Conto um pouco de minha história. Ele sorri e me diz:

“Podemos ser até retrógrados perto de vocês, mas temos muito mais felicidade. Tenha a certeza disso”.

O convido para comer alguma coisa enquanto conversamos um pouco mais da rotina entre o cidadão da metrópole e o cidadão da cidadezinha. Uma troca de experiências engraçada. Retorno ao hotel e logo pela manhã resolvo partir Bem cedo, para poder parar o carro num local mais alto e ver de perto o nascer do sol. Não só ver, mas senti-lo penetrar lentamente em minha pele e alma. Algum tempo depois estou de volta à cidade grande. A rotina logo voltará, mas o aprendizado do vivido permanecerá em meu ser.

https://www.youtube.com/watch?v=iB73TYY9vHY
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