Escritores que são e os que não sabem que são

Ao longo dos anos eu venho colecionando histórias. Enredos de pessoas de verdade, não dos escritores, enredos-escritores, porque são contos baseadíssimos em fatos reais, porque, de fato, são reais (sem o perdão da redundância). Venho colecionando histórias, das minhas favoritas: as de escritores, de leitores, de livro, literatura, de gente.

Às vezes eu penso em quem também escreve, em quem não escreve porque tem medo ou ainda não descobriu que o sabe; penso em quem, com todas as dificuldades, escreve porque se sente salvo e seguro; penso em quem não escreve de jeito nenhum e tem pavor, e quem em sonha em escrever um dia. Penso, penso mesmo em todas essas coisas que pairam meu imaginário o quanto podem, às vezes acho que eu tinha era que alcançar toda essa gente, que se eu pudesse eu diria sempre: “ei, você consegue, vai lá, escreve sim; se for ruim, a gente melhora; se for bom, a gente continua tentando”. Soa utópico, talvez seja mesmo. Nem ligo.

Gosto de pensar que escrevo desde sempre, mas não é verdade. A realidade é a de eu escrever há 10 anos. Não que, com 10 anos de idade, que é o que eu tinha, eu escrevia sonetos italianos e romances dignos do Nobel. Não. Minha escrita era péssima, cheia de garranchos e erros grosseiros de gramática, de coesão e coerência. Era ruim, muito ruim mesmo, mas era meu, era eu, e isso ninguém nunca vai poder me tirar.

Com o tempo eu fui amadurecendo como pessoa no mundo em que me inseriram, como escritora nas aulas de português, como poeta nos meus devaneios próprios. Sempre pensei muito sobre o mundo, as coisas, as pessoas e sobre quem eu era. A imaginação corria solta, sem ponta, sem vergonha, como quem dá linha na pipa a perder de vista. Queria inventar, queria viver, queria saber… queria ser eterna.

Nunca foi como nos contos de fadas cujos livros eu lia e imagens admirava. Nunca foi fácil, nem simples, nem completamente divertido, ninguém nunca me disse. Chorei, me iludi, desiludi e fui iludida numa quantidade incontável de vezes… Quis desistir dos cadernos rascunhados, dos livros não terminados e de vários blogs inacabados. Eu desisti, por hora, por medo, por raiva, receio e desgosto — de mim, das pessoas, dos não-leitores. Mas eu sempre voltei.

Sempre foi como voltar para casa, sempre foi como me deitar na minha cama depois de um dia péssimo. Nunca fiquei muito tempo longe das minhas palavras, por mais que eu tarde . Voltei mesmo me dizendo que eu não deveria, que não podia, não sabia. Voltei sem estímulos, sem apoio, sem quem dissesse que eu tinha que voltar. Eu voltei porque absolutamente não poderia fazer outra coisas a não ser essa. Porque essa atitude era a pessoa que eu era, porque escrever sempre foi inerente a quem eu sou.

Por mais que todos os motivos fossem contras, que as pessoas não fossem a favor de mim de jeito nenhum, eu voltei. Levo comigo os versos de Bandolins: “ela teimou e enfrentou o mundo”. Teimei como tudo o que eu podia pela liberdade de ser eu. Pelo direito de escrever, que era o que eu queria e o que tinha certeza, a única certeza, de ser aquilo que eu sabia fazer. Teimei mesmo que para desistir de novo e voltar mais uma vez.

Por acreditar no que eu fazia e acreditar no que eu queria eu pude ir a diante. Nunca adiantou muito contar com o que os outros diziam, até porque, no final, eu continuaria escrevendo de qualquer jeito. Apanhei um bocado, ouvi coisas das quais me lembrarei pelo resto da vida… mas isso me ajudou a construir quem eu sou e isso também significa que ajudou a construir minhas palavras. Sou muito grata. A gente não sobrevive e se reinventa apenas com comentários — tem sua importância insistente e incisiva –, a matriz precisa vir de dentro.

Não é fácil não, dói, pesa, você chora e sente muito. Faz parte. Você não vai poder escapar, mas vai poder aprender a lidar com isso — vai aprender a viver. Sua cara vai bater no chão e você vai se perguntar como ainda consegue ir em frente… Na verdade a resposta para isso não importa, você só precisa ir. Continua. Por cima dos seus medos e do medo dos outros. Viva sua vida porque ela é só sua. Se é o que você quer: escreva. E não escreva pouco não. Escreva muito, até incomodar, até o comichão da alma se aquietar, o pulso doer e a dor de cabeça dar as caras. Escreva, escreva muito. Para quem quiser ler, para multidões, nações. Nem que seja para que você mesmo leia anos depois.

Nunca vai ser em vão se o motivo para persistir for sua própria vontade de continuar a ser quem você é.

E se você não escreve: leia.