Nublado

O dia era de um tom feio de cinza. As ruas eram enormes poças d'água que os carros esparramavam quando passavam por cima. Havia chovido muito e o dia inteiro. 
Agora pequenas gotas caíam aleatórias no céu, ainda que parecesse que a qualquer momento a enxurrada de água despencaria lá do alto das nuvens.

Havia uma menina. 
Uma menina que era silêncio.
Uma menina de roupas completamente encharcadas, mas isso não parecia incomodá-la. Aliás, sequer dava para discernir o que ela sentia, se é que sentia algo. 
Parecia que ela estava ali, sentadinha no banco, durante a chuva inteira. Parecia que estava ali fingindo não estar. 
Sentada curva, olhando para as pernas dobradas, sem se mexer. 
A respiração parecia tranquila, mas ao olhá-la se sabia que nas profundezas daqueles pensamentos haviam muito mais do que podia ser visto.

A menina não se mexia. A cena me agoniava cada vez que sustentava o olhar para olhá-la. Me dava vergonha permanecer observando, sem saber, sem entender o que se passava diante dos meus olhos.
Queria ir embora e fingir que nunca a vira. Fingir desinteresse, como com qualquer outra coisa. Desejei ir pra casa, desejei muito, mas não consegui.

Fui me aproximando por não suportar mais. Cheguei perto, segurei sua mão e ela olhou em meus olhos. Me suplicou.

O trovão ecoou alto no céu, na terra, em mim.
Senti que a chuva viria numa porrada só.

Me dei conta.
Meu Deus!

A menina era eu!

A chuva me pegou de uma unica vez, mas por dentro, era eu quem chovia naquela tarde. A única chuva que me preocupava. Eu chovia, eu chovia o dia inteiro.

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