O que a faculdade fez comigo?

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A gente sai do Ensino Médio cheio de sonhos e esperanças, crianças que acreditam que há um bom lugar fora de um colégio chato. O futuro é promissor. A gente se mata de estudar, estuda mais de 8, talvez 10 horas por dia (talvez mais) pra entrar no curso desejado, para passar para uma Federal, Estadual, o que for. A gente não dorme direito, vive em função de estudos muitas vezes autogestionários… e aí começam a aparecer casos de gastrite, crises de ansiedade… bem aí. Bem no desgaste.

Vem uma pressão absurda sobre o lombo de um pré-vestibulando. O discurso “motivacional” é cheio de “estuda agora, depois você descansa”, “enquanto você não faz nada seu concorrente tá lá estudando pra tirar sua vaga”. Somos postos uns contra os outros, somos inimigos, estamos em guerra. A sociedade inteira parece ter uma placa em neon escrito “E OS ESTUDOS????? JÁ PASSOU PRA MEDICINA????”.

A gente supera, passa pra faculdade finalmente. Hora de sorrir e ser quem a gente quer ser. A tia chata não vai mais poder dizer nada sobre sua vida. Tudo vai bem.

SÓ QUE

Não é bem assim.

A faculdade é um lugar de eterna dúvida. A qualquer momento você pode pensar “que merda eu tô fazendo aqui?”, mesmo que você tenha certeza de estar no curso desejado. Você também pode pensar “que merda eu vou fazer depois daqui?”, também é frequente, porque nem sempre a gente sabe. Acontece que a parte boa ficou na escola, a parte fácil, a parte em que dava pra estudar na véspera e saber que tudo ficaria bem. Agora isso não existe. E isso é triste pra cacete.

A gente tem professores que acreditam que só temos as suas respectivas disciplinas — e eles não estão muito interessados se seu curso é semi-integral, ou se você mora longe e trabalha: você tem que dar conta de ler todos os livros, fazer todas as listas de exercícios, preparar os seminários, projetos, conseguir uma bolsa de pesquisa, arrumar um bom estágio, e ainda, morar perto do campus, para poder voltar pra casa se o professor cancelar a aula faltando 10 minutos para ela começar. Há professores e professores, é claro.

Mas que toda essa tensão deixa a gente doente, é verdade. Temos que ser bons, aquela pressão de pré-vestibulando volta todinha: temos que dar conta. Seja pelo pai que paga a mensalidade, seja pela disciplina de ser bom aluno, pelo CR, para manter a bolsa… Não importa, mas temos que ser bons.

Não temos tempo: pra estudar, pra ler, pra fazer nossas obrigações. Não temos tempo para nós.

Nos últimos meses do período somos tratados como máquinas: prova em cima de prova, trabalho em cima de trabalho, texto e mais texto, e xerox a fazer montanha no quarto. E a gente tem que dormir, comer (porque às vezes também não dá tempo) e fazer nossas coisas: viver fora dessa realidade.

A gente passa mal. Eu passei mal. Crise de ansiedade todos os dias só ao pisar no campus. A professora fazendo chamada me dava taquicardia, ia para o fim da sala na esperança de ninguém notar e falar comigo. Eu estava mal, passando mal. Não descansava, sonhava com a professora brigando comigo por não ter terminado de ler um livro. Acordava assustada pensando que não daria tempo de terminar tudo, que eu não daria conta. Cheguei a escrever esses momentos, quase um diário, mas ainda não tenho certeza se vou postar, se alguém vai ler e afins.

Eu entendo. Entendo que precisamos ser bons, que precisamos ser dedicados. Entendo que não estamos no colégio e que a vida agora é outra. Eu entendo de verdade. Mas a gente merece sofrer em todo período? Ter a gastrite atacando por conta de uma prova e o medo de não receber aquele décimo no trabalho que vai garantir que você, pelo menos, consiga fazer uma prova final? É isso?

Pois muitas vezes é isso sim, migos.

E a gente tem que viver, tem que lidar com isso não interessa as circunstâncias, porque ninguém liga. Se precisar tirar um dia de descanso dessa loucura toda não tem problema, mas sua falta estará computada esperando sua reprovação. Eu tenho que rir dessa loucura, porque é puta trágico. A gente tem que dar o melhor de si, prestar atenção em tudo (mesmo com nossos problemas, mesmo que estejamos doentes, mesmo que paremos no hospital). Ficamos estressados, descontamos isso e nossas frustrações nas pessoas erradas, ficamos exaustos muito rápido. Estamos vulneráveis, com medo de todo o esforço de um semestre inteiro ser desperdiçado por um cansaço brutal nas últimas semanas; a gente vive querendo desistir, mas nem sempre trancar a faculdade é uma opção. Aliás, ser universitário é ser impedido de ter opções.

É final do ano e eu estou desgastada, mas estou melhor da ansiedade pela certeza de um despertador finalmente desligado. O problema é saber que próximo período tem mais, e que vai ter uma dorzinha no peito esperando as notas chegarem. Não dá pra relaxar, não é mesmo?

Tenho pessoas que falam comigo, que acompanham o blog e os meus textos, que estão em fase de pré-vestibular e vem comentar que estão tensas, mas que sabem que vão ficar tranquilos quando entrarem para a faculdade. Era exatamente o que eu achava na época. E se eu aprendi algo com dois anos de graduação foi que essa tranquilidade não vem nunca, que a tensão, a exaustão e as preocupações sempre se renovam e a gente tem que se virar.

A gente que tá ali todo dia, enfrenta ônibus lotado e longas viagens, troca sair com os amigos para ler mais uns textos, deixa de beber a cerveja de sexta e assistir um filme na Netflix… cara, somos todos incríveis, mesmo que não tiremos 10. Somos incríveis porque estamos sempre tentando. Pra gente que sempre continua, se matando por causa de uma nota, nós todos merecemos uma salva de palmas.

Que encontremos sempre mais e mais motivos para lembrarmos que tudo isso vale a pena, ainda que muitas vezes não pareça.