Mariana, concordo com a problematização do uso do x, mas achei pesadíssimo afirmar que palavras são…
Laura Pires
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Oi, Laura! Entendo sua crítica e vou explicar meu posicionamento mais uma vez. 
Palavras são arbitrárias sim (Saussure tem textos maravilhosos sobre isso), o que temos é uma convenção social que significa e ressignifica sua representação. Por exemplo, se eu quisesse chamar "menino" de "pêssego" eu chamaria, e daria minha significação ao objeto e a palavra, ao significado e ao significante. Essa é a arbitrariedade. Se eu dissesse, como na sua frase, "pêssegos não choram" daria no mesmo, para mim, dentro da minha ressignificação -- neste caso, ainda, repercutiria o mesmo discurso bobo sobre as emoções masculinas. Sabe, no final das contas, não importa de como se chame ou de quais palavras se usem, um discurso se vale da sua intencionalidade e de como construímos seu significado.
Claro que as palavras pesam, mas só pesam porque temos uma convenção social para elas, porque damos uma significação coletiva a fim de manter sentido e uma comunicação entre nós falantes. 
A questão da tradução nada tem a ver com discursos literários neste caso. Ela também se refere à arbitrariedade das palavras. Se um objeto só pudesse ser representado por uma palavra não teríamos outros idiomas para representá-lo. Um exemplo bobo são nossas onomatopéias: o nosso "piu" é o "tweet" do inglês, "tic tac" como "tick tock", e muitos outros casos. Entendo perfeitamente essa questão da tradução, muito se perde sim, mas também não é exatamente sobre isso que este texto trata).
Essa é a arbitrariedade: na escolha do nome que damos para as coisas. O que é completamente diferente de dizer que um discurso não é arbitrário. Meu argumento se vale exatamente dessa relação. As palavras, por si, sem discurso ou contexto, são arbitrárias, não tem valor. O que as significam ou ressignificam são o contexto e a intenção do emissor (e a interpretação do receptor). É disso que eu falo. Palavra sozinha não faz nada, nao é machista nem exclusiva. 
Essa "doutrinação" por via de discurso só acontece a partir do que nós damos como significado. Se eu disser "sou menina e não choro" na intenção de dizer que tenho que ser forte e aguentar minhas dores, você pode entender (por via cultural, histórica ou qualquer outra) que meninas nunca devem chorar? Pode sim, pode entender "qualquer coisa" porque você está dando significado ao que lê. 
"Mas, Mariana, ninguém se comunicaria então já que pode entender o que bem quiser". Seria o caso, mas volto a dizer que somos acorrentados pelas convenções sociais que, institucionalizadas, ditam um significado comum a cada coisa, assim nos comunicamos, assim nos expressamos. Mas não é de 100% entendimento, ou não existiria problemas de interpretação de texto e nem mesmo a literatura (que brinca de ressignificar tudo a nossa volta). 
Aliás, o discurso é tão mais importante que as palavras usadas que poderíamos ser racistas, homofóbicos e machistas com um discurso completamente neutro. 
A isenção do discurso realmente não existe, mas não é tão furada assim. Estamos reproduzindo discursos que excluem outros grupos sociais o tempo todo. É utópico pensar em alguém cujo discurso não vai afetar outra pessoa de alguma forma. A intenção cabe sim, ela diz quando alguém brinca com você ou está falando sério, te oprimindo, julgando, acusando, excluindo (ou também não existiria a ironia). Você aceitar essa brincadeira ou não, também são outros quinhentos. Não dá pra ser dicotômico em nenhum dos casos, nunca. 
Só quem sente o peso do discurso sabe o quanto ele dói, principalmente pela institucionalização dos mesmos, como você disse. Mas, sabendo que a pessoa realmente não teve a intenção, que tal ajudá-la a criar um discurso melhor do que simplesmente atacar ou acusar? Precisamos aprender a fazer do nosso discurso um lugar comum a todas as pessoas e isso é difícil pra cacete. Seria melhor se nos ajudássemos e fôssemos mais empáticos... nem todo mundo sabe como se expressar, como nem todo mundo sabe interpretar direito.
Há mais coisas entre intenção e discurso do que supõe nossa vã filosofia.