Réu

ilustração de Henrietta Harris

Eu sou o que preciso ser. E precisar ser alguma coisa diz respeito somente a quem necessita da minha metamorfose. 
Sou uma das suas frases sujas, em bocas que cospem as injúrias e só falam merda. Sou essa sua careta torta quando fala meu nome, a lágrima doente de quem chora rumores sem nexo. Sou a marca do desgosto no seu gesto obsceno, o dedo médio que levanta pra me cumprimentar. Ah, eu sou… 
Sou o timbre do seu riso agudo, a piada infame sobre meu estereótipo. Sou eu quem assiste o meu velório no pesar da sua calúnia. Sou o gosto ferroso do seu sangue bastardo, órfão filhinho de uma puta. A ferida aberta no seu pulso magoado, o olhar sensual da sua patologia. 
Eu sou o urubu à espera da sua alma putrefata, o que cata os ossos pra sua coleção. Sou o suor do seu alívio e seu prazer na cama quente; observo calado a difamação do seu corpo, a transgressão dos seus dedos. O verme que cata sua carne fria, nos restos mortais da sua consciência. 
Eu sou seu rastro no mundo. 
Sou o seu carma. 
Eu sou o pecado.