Você está “tudo bem” mesmo?

Já pensou se fôssemos todos sinceros sobre o que sentimos e não escondêssemos nossos problemas? Já pensou se cada “tudo bem?” fosse sincero?

Parece que esse é o ideal, mas não sei se funcionaria de verdade.

Imagina que você encontrou um amigo, com o qual você não conversa tanto assim, e pergunta e se ele está bem. Você espera aquele cumprimento cordial e simpático com uma resposta “tô sim e você?”, mas recebe um “tô com uns problemas sérios, não ta tudo bem não”. Imagina se todo mundo por quem você passe e cumprimente diga, de verdade, se está bem… Nunca sairíamos da rua, né?

Existe um problema grande com a sinceridade. Por mais que aprendamos sobre e defendamos a todo custo sua permanência, não estamos preparados para ela. Não tem problema admitir, lá no fundo você sabe: ninguém quer ouvir a verdade. Abrimos zonas de conforto que são forjadas em mentirinhas que nos protegem de dizer a verdade — principalmente para evitar que nossos problemas pessoais e sentimentos sejam escancarados ao mundo.

Você não está bem, eu também não. Ninguém nunca está bem de verdade. A grande questão é que quando nos perguntam “oi, tudo bem?” não estão perguntando verdadeiramente sobre como estamos, não querem saber de verdade. O nome disso é educação e prática social, não é sobre se importar. Na realidade, também não sei se você gostaria de dizer como se sente para estas pessoas…

A gente abafa demais como se sente. Nas redes sociais existe um quê de felicidade plena que chega a ser forçada. Todo mundo está feliz demais, as fotos são lindas, as legendas inspiradoras, mas a gente sabe que não é só isso. Quando o contrário acontece, quando comentamos algo negativo ou aparece um desabafo de tristeza, qualquer coisa, somos taxados de carentes, “que rede social não é muro de lamentação”.

Às vezes, a pessoa não tem nem muro para se lamentar. Nem um tijolinho para erguer.

Mas ninguém quer pensar muito nisso, porque temos que ser autossuficientes. Eu gostaria de saber quem é autossuficiente o bastante que não precise de um ombro para chorar ou uma mão que o ajude a levantar do chão. Só pensar nos relacionamentos que buscamos: não queremos alguém do nosso lado, que nos ame, nos ampare? Isso é carência, isso é aceitar que precisamos ter um porto seguro quando o mundo desaba nas nossas costas. Não é sobre a dependência de alguém. É sobre você saber que tem que viver as próprias guerras, mas ter um lugarzinho de repouso quando acabar. É difícil manter um relacionamento consigo mesmo, requer trabalho e muito esforço pessoal, é o ideal, mas é puta difícil. O que eu falo não é sobre se manter num relacionamento abusivo e achar que sua felicidade depende de outra pessoa, é saber que está tudo bem não conseguir lidar com suas coisas sozinho. Isso pode ser muito mais sobre amizade do que sobre um namoro. Amizade também é um relacionamento sério. Ter um amigo que vai aparecer quando precisar de você e quando sentir que você também precisa dele.

Unilateralidade não é relacionamento. Unilateralidade não é nada.

As maneiras de lidar com a vida e os problemas variam sim. Tem gente orgulhosa demais para assumir que não consegue sozinha, tem gente que superdimensiona os problemas como quem sofre de ansiedade… Sabe, cada um com seu cada um? Um pouquinho de empatia ajuda demais, não seja um babaca.

A vida é muito mais sobre como você se vira sozinho do que como você se vira com alguém.Normalmente, por mais que queiramos que alguém apenas venha saber se está tudo bem (e pergunte isso na intenção de saber dos seus problemas e te ouvir), essa pergunta não vem. Por mais que tenhamos amizades de anos, amigos, que sabemos que são verdadeiros, às vezes nem eles dão conta de nós. Essa solidão é muito mais frequente do que gostaríamos, e no fim das contas é você por você mesmo. Não é tão errado assim, mas dói. Dói ter certeza de que você moveria o mundo para ajudar seu amigo, mas que é você quem está precisando e continua sozinho. Dói lembrar das vezes que você aguentou suas dores todinhas para ajudar um amigo, mas é você quem continua sozinho. Dói ter que fazer artimanhas que mais são humilhações para chamar atenção de que você precisa de um amigo, mas você continua sozinho.

Sinceramente eu não sei. A gente não pode pedir que uma pessoa sinta vontade de saber como você está… Isso e pior do que ela não perguntar nada.

Sinceramente eu não sei qual é a dos “tudo bem?”.