Escreve o Bruno Vieira Amaral, n’ “As Primeiras Coisas”, que «regressar à nossa terra é regressar aos nossos mortos».

Manuel casa com Francisca. Têm uma filha, Maria, que casa com Domingos e, em 1737, nasce António. António desposa Isabel vinte anos depois e têm dois filhos, António e Francisca. António, que nasceu em 1764, casa com Joana em 1787. Os filhos deles chamam-se José e Francisco.

José nasce em 1793 e casa com Leonor em 1818. Um dos seis filhos, Francisco, nasce em 1840 e casa, em 1870, com Maria Genoveva, que morreu alguns meses depois. Em 1874, desposa Maria José. Deste segundo casamento, nascem várias filhas. Uma é a minha bisavó paterna, Maria Augusta, nascida em 1882, que casa com Afonso Leitão; outra é a mãe da prima Alice, Maria Adozinda, nascida em 1890. Outra filha é Ana, minha bisavó materna, que casa com António Leitão.

Assim, duas irmãs casam com dois irmãos. Do casamento de Maria Augusta com Afonso nascem Baltazar (que deveria ter recebido o nome de António, não fosse o seu pai um brincalhão) e Ana. Do casamento de Ana com António nascem António, Ângelo, Adozinda e Maria.

Baltazar casa com Maria. Deste casamento nascem onze filhos, mas sobrevivem apenas seis: Duarte Jorge, Afonso António, Maria Teresa, Ana Maria, Maria Amélia e Amândio António. Os meus avós maternos eram primos direitos.

***

Não encontro a prima Elvira nem as suas filhas, Lurdes e Ambrosina, na árvore genealógica que o neto da prima Alice fez após consultar os registos paroquiais. Puxo pela memória, seria a mãe da minha avó prima da mãe da prima Elvira? Não sei precisar.

Tenho apenas uma fotografia da minha avó como sempre a recordo; teria, talvez, sessenta e cinco anos, mas não tenho nenhuma da prima Elvira, embora ainda me lembre dela muito bem. Tinha um grande sorriso, uma cara redonda e cheia de rugas (a prima Elvira é a referência para maioria das avós das minhas histórias), o cabelo todo branco enrolado num coque e um sotaque lisboeta que eu adorava (vivia numa rua atrás da Janelas Verdes).

Desde pequena que me lembro de uma vez por ano, no Verão, ela vir passar umas semanas à aldeia. Em ’84, regressou para sempre. Eu não sabia o quanto estava doente, embora estivesse sempre deitada, num quarto das traseiras da sua casa, que fica (ainda existe) à entrada da aldeia. O quarto tinha uma janela de guilhotina que estava sempre aberta para as macieiras e, por vezes, eu dormia na segunda cama, com a minha avó, quando a prima Elvira ficava pior e não voltávamos à nossa casa, que ficava na outra ponta da aldeia.

Não havia televisão na casa da prima Elvira, mas havia uma escada de pedra que levava ao primeiro andar e eu passava o tempo a ler, sentada no granito frio, a fazer castelos com cartas velhas, a brincar com um velho calendário com chapinhas que tinham os nomes dos meses e os números correspondentes aos dias, da marca Johnnie Walker Red Label.

Nesse Verão, a minha avó assou maçãs todos os dias.

Like what you read? Give Margarida Leitão a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.