A Metrópole e Os Corações de Zinco: a poesia de Lee Flôres

Foto: Mara Beatriz Flores
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Jean Albuquerque

A solidão das pessoas dessas capitais”. A frase do saudoso Belchior pode muito bem resumir o Coração de Zinco (2016), Outra Margem, livro de estréia do poeta e professor de literatura, Lee Flôres, 35.

A obra é dividida em duas partes: Ondes e Terras Tingidas de Sonhos. Com versos comprometidos com a vida humana, o cotidiano, situações comuns e a simplicidade que consegue emocionar o leitor. O título veio da poesia de Geraldo Marques.

“‘Meu coração é um órgão de zinco, onde crianças tocam Bach a noite inteira, atirando pedras como se fossem estrelas!’. Essa riqueza de possibilidades, coração, metal e instrumento musical da palavra órgão nos versos me chamou atenção e guardei na memória”, releva.

O lançamento do livro só foi possível mediante financiamento coletivo na internet. “[…] o financiamento coletivo é mais uma forma também alternativa de furar a barreira das grandes editoras, diria que é um estágio mais avançado desse processo. Porque mesmo as pequenas editoras já utilizam desta ferramenta”, defende.

O escritor já publicou em algumas coletâneas, como por exemplo, a Poesia em Alagoas (Ed. Bagaço, 2007) e Antologia dos Poetas Vermelhos (Outra Margem, 2015). Começou a divulgar sua literatura por meio dos blogs no passado e também em sua página no Facebook. Lee nasceu em Porto Alegre — RS, radicou-se em Maceió e mora em São Paulo desde 2013.

Conversei com o escritor e você confere a entrevista logo abaixo.

Jean Albuquerque — Você lançou, Coração de Zinco (2016), Outra Margem. Como foi o processo de produção?

Lee Flôres — Então, foi um processo longo, eu estava escrevendo este livro, ora de forma consciente, ora de forma inconsciente, desde 2005. Faltava coragem pra lançar, sempre achava que não era a hora, que minha escrita ainda não estava madura o suficiente. Só tomei a iniciativa de correr atrás de publicar quando me convenci de que eu estava pronto, do ponto técnico mesmo, e foi nesse momento que fiz um apanhado do que vinha produzindo (anotações e publicações na internet, publicações em antologias) e comecei a trabalhar em cima desse material durante meses, todos os dias, por horas, escrevi, reescrevi, descartei, fiz vários esboços, sempre em busca da palavra certa, mínima, rica em significação, como acreditava o Pound, e feita pra dizer, não pra enfeitar como pensava o mestre Graciliano. Até que aceitei que ele tava pronto, que tinha atingido a coerência temática e concisão estética esperada.

Da poesia de Geraldo Marques, veio o nome do livro. Qual a sua relação com o autor e a vivência na juventude em Maceió?

Olha, não sei se todo mundo lembra, mas algumas pessoas devem lembrar quando o Livro Cactos Temporários & Itinerário Maríntimo foi leitura obrigatória do vestibular da UFAL, foi assim que conheci a obra dele. No primeiro momento a leitura foi bem intrigante, não me fazia muito sentido, afinal é um livro de bastante erudição. Mas lendo o prefácio do Sidney Wanderley notei um verso destacado por ele que me tocou de cara: “Meu coração é um órgão de zinco, onde crianças tocam Bach a noite inteira, atirando pedras como se fossem estrelas!”. Essa riqueza de possibilidades, coração, metal e instrumento musical da palavra órgão nos versos me chamou atenção e guardei na memória. Só na faculdade de letras, vários anos depois, eu tive a noção da grandeza das coisas que eu tinha lido dele e voltei a lê-lo com outro olhar, e cada trecho da sua epopeia sertaneja me fazia mais sentido e me trazia emoção que me transportava para dentro dos poemas. Suas antíteses, metáforas, sintaxe eram tão novas pra mim que isso me despertou mais interesse e eu comecei a pesquisar mais sobre o livro, dividi seus poemas com amigos que também gostavam da sua poesia e aprendi muito com ele, ele me fazia querer ser poeta. Era como se ele fosse meu Guimarães Rosa particular. E agora, depois de muito tempo, quando decidir publicar meu livro, nada poderia traduzir melhor a minha poesia do que aquele primeiro verso que me emocionou.

A obra é dividida em duas partes: Ondes e Terras Tingidas de Sonhos. Com versos comprometidos com a vida humana, o cotidiano, situações comuns e a simplicidade que consegue emocionar o leitor. Quais os temas que permeiam a tua escrita?

Apesar do livro ser um apanhado de anos, em que alguns poemas foram pensados individualmente, há um fio condutor, uma temática que poderia ser sintetizada por aquele famoso verso famoso do Belchior, “a solidão das pessoas dessas capitais”.

Em um cenário duro e frio, é o cotidiano agressivo das grandes cidades e seu impacto nas emoções individuais e coletivas, o pano de fundo da obra. Dividi o livro em duas partes para expressar a evolução entre momentos distintos da relação do poemas com o pano de fundo.

Em Ondes uso metáforas de lugares concretos, físicos, para narrar um período conflituoso de términos, tristezas e emoções mais íntimas em um movimento imagético de fora para dentro.

Em Terras tingidas de sonhos o tom onírico, mais abstrato como metáfora para emoções coletivas, em um movimento de dentro para fora, é para expressar renovação, esperança de que mesmo diante do universo poético marcado por uma névoa cinza, os sonhos que se sonham juntos tragam novas cores e primavera.

Os nomes dos poemas trazem referências direta a cidade de São Paulo. Morar na cidade te fez produzir sobre?

Na verdade, minha relação com a cidade de São Paulo é anterior, antes de morar por aqui, sempre fui um visitante assíduo da cidade, e isso já influenciava minha poesia, mas com certeza morar aqui influenciou muito o livro. Como diz a canção de Humberto Gessinger, “Esta São Paulo são tantas cidades”, que nos desvela bastante poesia por trás desse turbilhão estímulos, deste movimento a mil. Andar de metrô, passear na consolação, matar o tempo na luz são um oásis poético.

O lançamento do livro só foi possível mediante financiamento colaborativo na internet. A ferramenta consegue fazer uma ligação direta entre o público e o artista, além de possibilitar que o mesmo consiga ter mais abertura para produzir/lançar como queira. Como você percebe esse novo modelo de fazer artístico?

Eu me considero um escritor da geração dos blogs, foi neles que comecei a divulgar meus poemas e ele foi fundamental “como treinamento, como um espaço gaveta de originais”, como definiu bem Charles Kiefer, que possibilitou meu desenvolvimento como escritor. Antes deles era muito difícil fazer circular literatura sem depender do crivo das editoras ou dos jornais, a circulação alternativa se resumia a fanzines universitários, quando eles surgiram, em certa medida houve uma democratização na produção e na circulação literária e possibilitou uma maior interação entre autor e leitor.

Hoje a internet tem diversas outras mídias férteis para iniciativas literárias como redes sociais, sites de compartilhamento de áudio e vídeo, etc. Foi todo esse espaço virtual que me possibilitou fazer feedbacks com leitores, experiências com linguagens, com efeitos e técnicas antes de decidir lançar o Coração de Zinco.

E o financiamento coletivo é mais uma forma também alternativa de furar a barreira das grandes editoras, diria que é um estágio mais avançado desse processo. Porque mesmo as pequenas editoras já utilizam desta ferramenta.

Falo isso pela experiência que tive de tantos anos publicando minha poesia na rede, o que me fez acumular algumas centenas de leitores e foi através destes leitores que tive sucesso na campanha financeira. Em três meses já tinha arrecadado o suficiente para pagar a publicação pelo selo Outra Margem.

Foto: Felipe Sales

O Coração de Zinco (2016) é teu livro de estréia. Existe um momento em que o escritor percebe que está pronto para ser publicado?

Eu acho que sim, no meu caso, foi quando percebi que já tinha uma necessidade de fechar um ciclo estético da minha poesia, e que a matéria bruta do livro já tava ali, bastava montar e lapidar.

Acho que a parte mais difícil pelo menos pra mim é depois, quando tem que dizer para editora OK, pode mandar rodar, foi um sofrimento, é como um dia destes li numa rede social de uma escritora que acompanho, Adriane Garcia, terminar um livro é na verdade desistir dele. Acho que é mais ou menos isso mesmo. Eu tava naquele processo de até último segundo mudando cada mínimo detalhe, até que cansei e aceitei que já era o momento de deixar ele ter vida própria.

Qual a sua impressão sobre a literatura produzida em Alagoas? Você lê autores alagoanos?

Quem já leu Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Jorge Cooper, Lêdo Ivo e Carlos Moliterno tem ao menos a obrigação de prestar atenção no que se produz em Alagoas. Eu particularmente sempre me interessei, inclusive pelos os contemporâneos, principalmente por Gonzaga Leão, Arriete Vilela, José Geraldo Marques, Sidney Wanderley, Otávio Cabral e Maurício Macedo. O Sidney, por exemplo, eu acompanho há muito tempo, tenho quase todos os seus livros, Nesta calçada foi um dos primeiros livros que me fez pensar: “poxa queria escrever assim”. O Maurício mesmo tem um poema “Seca” do livro Lume que eu acho sensacional. Há também uma turma mais jovem, que quando eu comecei a escrever eles já estavam publicando seus primeiros livros e eram referência de talento pra mim, Ewerton de Azevedo, Milton Rosendo, Nilton Resende, Brisa Paim.

Nos últimos anos tem surgido uma leva interessante de novos escritores que aproveitaram bem os editais públicos para tirar suas ideias das gavetas. Não só os mais jovens, o próprio Sidney, Fiúza, Tainan, Ari que já haviam publicado outros livros aproveitaram essa oportunidade. Acho muito bacana que se tenha a chance de publicar livros desde cedo, acho que incentiva, estimula, ajuda a desenvolver, faz mais pessoas gostarem de literatura, é uma oportunidade que muitos não tiveram e talvez por isso desistiram. Eu acompanho com certeza essa produção, e tem algumas que já me chamam atenção, é o caso da Ana Maria Vasconcelos, Bruna Wanderley, Matheus Magalhães, Richard Plácido, Bruno Ribeiro. Em especial o livro Areia em Rolimã do Rafael Aquino, este que para mim não é nenhuma novidade, nutro a admiração por sua poesia desde que começamos a aprender juntos e acho que ele não poderia ter sido mais feliz em sua estréia.

Esta é a minha impressão do que está sendo produzido hoje, acho que tem muita coisa interessante surgindo, cada um com suas características e estilo, não acho que seja uma espécie de movimento local, ou algo do tipo. Eu particularmente não sou da linha do manifesto sururu de tentar buscar uma identidade regional aos autores contemporâneos, eu acho importante o fenômeno do regionalismo nordestino de alguns autores da época do modernismo, mas acho que estamos em outro tempo, a centralidade dos espaços urbanos, mesmo nas pequenas capitais gerou um cosmopolitismo irreversível.

Foto: Felipe Sales

Como funciona o teu processo criativo? Costuma escrever diariamente?

Eu sempre procurei escrever quando na rotina do dia a dia me surge alguma cena, imagem a partir do que acontece ao meu redor, seja na mesa do almoço, no intervalo do trabalho, ou num café qualquer num fim de tarde, algo meio haicai de tentar captar a poesia que está acontecendo ali diante dos seus olhos. Mas para mim, essa parte é só o início do processo criativo, não tem glamour, nem mágica para produzir literatura, é necessário dedicar tempo, esforço, transpiração, sem romantismo, para transformar inspiração em poesia. É preciso conviver bem com a solidão e isolamento desse ofício e como se diz, sentar a bunda e escrever.

Eu costumo escrever regularmente, mas há momentos que a intensidade varia, quando estava no processo final da elaboração do livro eu escrevia todo dia, hoje estou numa fase mais de aproveitar o lançamento do livro, sua divulgação e distribuição para dedicar mais tempo para ler muita poesia, muita teoria, e iniciar aos poucos novos projetos, por isso tenho escrito com uma frequência menor, mas sigo publicando na minha página do Facebook.

Entrando na onda das listas, indica 5 livros lidos em 2016 e comenta um pouco sobre eles.

Essa coisa de lista é difícil, ainda mais lista de 5 melhores, você sempre corre o risco de ser injusto, né. E também é estranho para mim fazer uma lista onde dois dos meus poetas preferidos não estejam, Manoel de Barros e Pablo Neruda. Mas para entrar na onda vou ser bem específico aos livros que li de poesia em 2016, que é o gênero que eu mais leio e vou limitar a livros de poesia. Os 5 que mais me tocaram foram:

1 — Poesia Completa, Orides Fontela. Uma reunião maravilhosa que ainda estou assimilando toda a força da sua obra, é ainda o meu livro de cabeceira, é com certeza a autora brasileira que mais me interessa, essa capacidade de se manter moderna mesmo diante de modismos da sua época me fascina;

2 — O músculo amargo do Mundo, Vera Lúcia de Oliveira. Este é o melhor livro que li de poesia brasileira lançado nessa década. É comovente e emocionante a sua delicada, realista e dura matéria poética como voz autêntica dos invisível, dos excluídos, da miséria urbana de quem “só tem o no corpo o próprio alimento”, “dói no cerne, dói na beira” sem meias palavras, sem truques estilísticos e retóricas verborrágicas;

3 — A soleira e o século, Iacyr Anderson de Freitas. Este é na verdade uma reunião de vários livros do autor, todos eles com uma maturidade poética invejável, como ele domina a arte das metáforas me agrada muito;

4 — Escritos ao sol, Adriano Espínola. Esta é uma antologia de sua obra, eu conhecia pouco seus poemas, o que me atraiu a ler foram alguns boletins de suplementos literários na internet e o seu conhecido poema Táxi. Foi uma ótima surpresa ler este cearense. A sensibilidade de suas imagens poéticas que fazem “esticar a linha do horizonte” e “abrir a comporta do azul” é de arrepiar;

5 — Silêncio é uma figura geométrica, Francisco Carvalho. Este cearense, que nos deixou há poucos anos, já me despertava interesse a bastante tempo, tudo que eu lia dele pela internet em suplementos literários me agradava muito, seus livros são raros, e só ano passado consegui alguns livros dele. Sua poética dialética de “descer às raízes do sangue e do mito” não envelhece mesmo com o cair da tarde, mesmo que envelheçam as palavras, os homens e o amor.

Para finalizar. Quais são os próximos projetos?

Então, como disse anteriormente, estou numa fase mais de estudos e de leituras, sigo com minha página no face publicando meus escritos, algumas opiniões sobre minhas leituras. Penso em breve fazer talvez um canal no youtube sobre poesia, mas ainda são apenas idéias.

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