Literatura & Periferia: a escrita de Ari Denisson

Foto: Arquivo Pessoal
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Jean Albuquerque

O professor de português-literatura e escritor, Ari Denisson, 31, lançou o livro de contos Contos Periféricos (2016), Imprensa Oficial. Nele, o autor faz um passeio por Maceió, desde os bairros mais afastados e pouco visitados, como por exemplo, o Fernão Velho, até a parte baixa da cidade.

Ainda há o uso de gírias alagoanas, como por exemplo: ‘pareia, minha nega, homi, dar uns pegas, na baixa, inji, tchá lomba da porra, garotona, vôte’. É quase estar num ponto de ônibus qualquer da periferia ouvindo a conversa com os fones de ouvido só pra disfarçar e não ser tachado de bisbilhoteiro.

A obra traz o constante diálogo com a cidade, suas mazelas e decepções. “Tainan, o Canário, diz que “Maceió machuca”; Jorge Cooper dizia que “Maceió só serve pra morrer”. E qualquer pessoa daqui que mexa com cultura, arte, jornalismo ou coisa do tipo sente o baque. Quem não é provinciano nem tem mentalidade de rebanho terá muita dificuldade de viver aqui e preservar sua saúde mental. Muitos amigos e pessoas queridas, gente que respeito, ou saíram ou cogitaram sair. Eu mesmo cogitei um tempo. Passei num concurso aqui e me aquietei, mas vez por outra me pergunto se, lá pelos meus 25, 27 anos não deveria ter tido essa experiência. Quando alguma dessas pessoas fala que não sente saudades nenhumas daqui, dói, mas eu entendo perfeitamente”, desabafa.

A sua estréia como escritor foi com a poesia, lançou o baroque.doc (2011), Edufal, fruto do prêmio LEGO. No momento, está terminando o doutorado e dando uma pausa na maioria dos projetos literários.

Conversei com o escritor e você confere o bate papo logo abaixo.

Jean Albuquerque — Você lançou o livro Contos Periféricos (2016), Imprensa Oficial. Como foi o processo de produção?

Ari Denisson — Espero não ser incômodo, mas cabe aqui uma digressão. Eu tinha um blog, que eu não divulgava direito e, daí, tinha meus cinco ou seis leitores fiéis. Eu escrevia mais poesia lá, e uma ou outra crônica. Aí chegou o emblemático ano de 2010. Era ano de eleição, eu estava no meio do mestrado, morava na Chã de Bebedouro havia já quinze anos, fazendo um concurso aqui, outro ali pra ver se me arranjava antes de minha bolsa acabar, e estava muito puto. Com a modernização do TSE, era possível acompanhar em tempo real a apuração dos votos naquela eleição, e era angustiante ver a suposta “casa do povo” ser ocupada pelos mesmos “donos de cidades”, eventualmente repaginados na figura de seus filhos, cônjuges, sobrinhos ou apaniguados. Um meio de comunicação que fora outrora o prenúncio da modernidade me anunciava que éramos mais uma vez condenados ao atraso! Olhava aquilo e me lembrava dos mercadinhos do Conjunto Bruno Ferrari, todos engradados por causa do medo de serem roubados, e entendia que, com as peças que iriam ocupar o poder naquele ano, essa situação haveria de se perpetuar. O blog, então, serviu como laboratório para que eu achasse uma maneira de expressar essa revolta artisticamente: poemas, escritos em inglês… então, tive a ideia de escrever uma série de contos cujo tema mais recorrente fossem revoltas populares inusitadas, fora do roteiro previsível da esquerda universitária, e ônibus precários atrapalhando a vida das pessoas. Naquela época, eu tinha muita vontade de ir aos protestos que tinha sempre que a passagem de ônibus aumentava, mas tinha medo do julgamento de meus pais e de apanhar da polícia, então, direcionava a revolta pra ficção.

Era pra ser uns vinte contos, mas só tinha conseguido escrever treze, a maioria entre os anos de 2010 e 2011, creio eu. Fui dar aula no interior, montei uma banda, passei no doutorado e aí foi ficando difícil retomar a regularidade na escrita. O prêmio Lego (que me possibilitou publicar o meu primeiro livro), tinha deixado de existir, e o vácuo deixado na publicação de autores locais foi ocupado pelos editais da Graciliano, os quais sempre deixava passar, por desleixo. Então, em 2015, eu pensei que seria uma boa oportunidade pra concorrer com alguma coisa, mas tinha poucos poemas escritos, e desses, poucos que eu julgasse válidos de publicar. Então, veio a possibilidade de concorrer com os contos. Sendo que, ao relê-los, tive a impressão de que os protestos de 2013 e toda a deriva política que domina o nosso cotidiano desde então tinham deixado os contos datados, e eles acabariam sendo lidos de uma forma muito distorcida. Então, enquanto “montava” o livro que submeteria ao parecer da Graciliano, resolvi criar uma narrativa um nível acima, futurista mas não espetacularizada, na qual esses contos aparecem enterrados desde uma data anterior a junho de 2013. O personagem principal dessa narrativa seria justamente o nome que eu apresentaria como pseudônimo para concorrer à publicação. Como o volume tinha ficado muito curto, acrescentei mais dois contos que, embora não tivessem o mesmo conceito dos outros treze, também eram ambientados em Maceió.

No lançamento do Livro — Foto: Arquivo Pessoal

Na obra, há o uso de gírias alagoanas, como por exemplo: ‘pareia, minha nega, homi, dar uns pegas, na baixa, inji, tchá lomba da porra, garotona, vôte’. É quase estar num ponto de ônibus qualquer da periferia ouvindo a conversa com os fones de ouvido só pra disfarçar e não ser tachado de bisbilhoteiro. O uso é intencional no sentido de solidificar melhor o mundo no qual escreve?

Na faculdade de Letras, eu acabei não indo pra Linguística, mas o fenômeno da variação sempre me fascinou. Gostava de prestar atenção aos detalhes fonéticos mesmo da nossa fala que fugiam da fala padrão, decalcada dos falares do Sudeste: nas conversas com minha mãe, das pessoas na rua mesmo, quando ouvia artistas “alternativos” oriundos do Nordeste (como, por exemplo, Karina Buhr, e Catatau, do Cidadão Instigado) que faziam questão de manter elementos de falas nordestinas em suas canções, o que não é comum… mas especialmente quando eu estava num UFAL-Ponta Verde, preso num engarrafamento no Mutange, um cara sentado atrás de mim botou pra tocar na caixa de som um rap (Língua de Lagartixa, do NSC) com uma letra bem violenta, que até me assustou, mas o sotaque era muito familiar, e prendeu minha atenção. Quando eu vi no final o rapper fazer referência a Maceió e São Miguel dos Campos, eu pensei comigo mesmo “Caramba!” e aquilo me fez prestar ainda mais atenção às peculiaridades da fala alagoana, sobretudo a da parte da periferia com a qual ainda tenho algum contato.

Nos contos, a tensão entre a intelligentsia (em especial, sua parcela “bem-intencionada”) e o povo se dá principalmente por meio da linguagem. A língua veicula modos de pensar, e o uso desses localismos foi uma maneira de demostrar que a periferia tem também ela um modo de pensar e ver o mundo que não pode ser simplesmente ignorado ou menosprezado.

Muito do que é publicado hoje por autores contemporâneos consiste numa narrativa onde os escritores são de classe média e falam do seu próprio umbigo. É importante inverter essa lógica e trazer outras narrativas? A internet veio pra dar abertura e visibilidade, nesse sentido, a produção e aos escritores oriundos da periferia?

Tem aquela pesquisa da Regina Dalcastagnè, né? Aquela que conclui que os autores brasileiros de prestígio são majoritariamente homens, brancos, de classe média, do eixo Rio-São Paulo, já trabalham com escrita, têm de 40 anos pra cima etc. Lembro de ter lido uma matéria do El País sobre essa pesquisa e o Antônio Prata comenta que a relação entre fazer literário e pertencimento à classe média no Brasil é algo quase inevitável, porque hoje só a classe média é que é instrumentalizada o suficiente pra poder manejar os códigos da escrita literária. Fui bolsista de escola privada a vida toda, então, apesar de ter vivido em meio a dificuldades financeiras, minha vivência, minha formação, foram de classe média. Minha interação com o bairro onde vivi por vinte anos se resumia a comprar pão, às vezes coca-cola, às vezes créditos de celular, e idas ao barbeiro. Minha vida social propriamente dita sempre foi vivida longe: no Centro e no Farol, onde estudei, em Bebedouro, quando ia à igreja, e na UFAL.

Claro que é importante inverter a lógica, mas é importante também ser sempre autocrítico e observar de que posição você está falando, como intelectual, como escritor(a), pra não forçar a mão: algumas narrativas “periféricas” simplesmente não vão sair da pena de pessoas periféricas porque grande parte delas, por diversos motivos, se ocupará de garantir a sua própria sobrevivência, e tomará muitas vezes como referência as coisas que lhes estão mais à mão: a tevê, os gêneros musicais “massivos”, as igrejas… aí a representação literária desses grupos periféricos acaba vindo muitas vezes “de fora”, estereotipada, romantizada…

Desde meados da década passada, quando algumas empresas finalmente aprenderam a fazer da rede mundial de computadores uma máquina de fazer dinheiro, eu tenho deixado de alimentar tantas ilusões com a internet. Os discursos e produtos de arte/entretenimento que alcançam as massas na internet não são muito diferentes dos que alcançam as massas nos meios convencionais. Ainda tem muita gente no Brasil que só sabe usar o “Zap” e olhe lá! A internet é importante pra veicular aquilo que no mercado convencional não teria espaço (quase) nenhum, mas agora entramos num contexto complicado, porque (entre tantas outras razões) nos contentávamos muitas vezes com a bênção do “público especializado”, que está mais aberto a brincadeiras (pretensamente) vanguardistas, e agora, com a perseguição inclemente à diferença que tem-se generalizado, esse mesmo público tem que provar pro conjunto da sociedade que é relevante, e nisso a gente se ferra bonito!

Foto: Arquivo Pessoal

Voltando para o livro de contos, ele faz um passeio por Maceió, desde os bairros mais afastados e pouco visitados, como por exemplo, o Fernão Velho, até a parte baixa da cidade. Como você percebe a cidade que é considerada como uma das mais violentas do mundo e como ela influencia a sua literatura?

Tainan, o Canário, diz que “Maceió machuca”; Jorge Cooper dizia que “Maceió só serve pra morrer”. E qualquer pessoa daqui que mexa com cultura, arte, jornalismo ou coisa do tipo sente o baque. Quem não é provinciano nem tem mentalidade de rebanho terá muita dificuldade de viver aqui e preservar sua saúde mental. Muitos amigos e pessoas queridas, gente que respeito, ou saíram ou cogitaram sair. Eu mesmo cogitei um tempo. Passei num concurso aqui e me aquietei, mas vez por outra me pergunto se, lá pelos meus 25, 27 anos não deveria ter tido essa experiência. Quando alguma dessas pessoas fala que não sente saudades nenhumas daqui, dói, mas eu entendo perfeitamente.

Falei até agora das violências “psicológicas”, sentidas pela galera estudada, descolada, porque as violências físicas são bastante óbvias. Já falei que um ponto de partida pros contos foram os mercadinhos engradados da Chã de Bebedouro. O discurso progressista sobre polícia, violência e direitos humanos tem uma dificuldade de penetração enorme na periferia porque esta é que sofre diretamente os efeitos do descaso do Estado. Aí as pessoas pegam pra interpretar sua realidade o que está mais à mão, como programas de mundo cão, senso comum, racismo e justiçamento: elas não têm tempo de analisar a complexa cadeia de ações e omissões que gera a violência, é uma contradição perversa e triste. E eu quis demonstrar isso, trazer uma visão não romantizada do pobre, do periférico, que sofre, que é preconceituoso, mas que consegue cutucar a pretensão que a mentalidade acadêmica ostenta às vezes.

Há muito se discute a existência de uma ‘cena literária’ em Alagoas. Percebo que estamos no momento em que vários escritores estão produzindo simultaneamente, publicando mais e não como um cenário propriamente dito. O que tem a falar sobre?

É isso que você falou: as pessoas estão simplesmente escrevendo, o que já é massa! Falta só organizar esses esforços hoje espalhados pra ter mais alcance. Não necessariamente por meio da formação de uma “cena”: os escritores e escritoras de cá vêm de meios tão diversos, de tribos tão diferentes, vêm da capital, vêm do interior, vêm daquela parte da elite que ainda vê a arte como valor, vêm da universidade, das artes plásticas, do teatro, do cinema… Eu tenho a sorte de ter amigos e gente próxima e querida que escreve, e bem pra caramba, mas querer que toda essa galera se dê as mãos e cante “Marcas do que se foi” é pedir demais, certos projetos literários (e, sejamos bem francos, pessoais) simplesmente não se batem.

O que pega agora é furar o bloqueio, ir além do “público especializado”. Acredito que o pessoal que vem publicando pela Coco de Roda, por exemplo, tem grandes chances de conseguir algo assim: as obras infanto-juvenis têm uma possibilidade performática que ajuda muito na difusão dessas obras, elas são feitas pra criança ler acompanhada, seja pela mãe/pai, seja por um(a) contador(a) de histórias. Já as demais obras se veem diante do desafio de ampliarem o público. Mas como fazê-lo sem sacrificar sua linguagem literária, sem se ater a fórmulas de assombrosa simplicidade? São perguntas que eu não sei responder, porque eu mesmo ainda as faço.

Foto: Arquivo Pessoal

O seu livro de estreia, é o de poesia, baroque.doc (2009), Edufal, fruto do prêmio Lego. Nele, nota-se a mistura de línguas, várias referências e o transe entre a poesia e a tecnologia. É importante escrever sobre a contemporaneidade?

É difícil não escrever sobre a contemporaneidade. O baroque.doc eu hoje leio como um compêndio de minha juventude: os poemas que eu escrevi compreendem o período entre meus 16 e 23 anos: aquela fase inconsequente, fanfarrona, falastrona, quase autodestrutiva pela qual passam os rapazes. E foi a fase em que a tecnologia se fez mais presente no meu cotidiano: aos 18 tive o primeiro computador em casa. Sabe aquela música do Gilberto Gil, “Pela internet”? Era uma espécie de lua de mel, a tecnologia parecia que iria unir o mundo e permitir o intercâmbio de ideias mais livre e solidário possível. Mas ao mesmo tempo, a configuração com que a tecnologia se apresentava a nós não era imune a contradições, e essas contradições aparecem aqui e ali no livro.

Qual a sua impressão sobre a literatura produzida em Alagoas? Você lê autores alagoanos?

Estão aparecendo muitos escritores e escritoras de qualidade, refletindo de forma madura, não aferrada a convenções ultrapassadas, sobre o lugar onde se vive, sobre viver num estado tão bonito, tão difícil de viver e, ao mesmo tempo, tão difícil de largar. O desafio é formar e conquistar um público que dê sustentabilidade, porque qualidade tem. Leio menos do que gostaria, depois que concluir o doutorado pretendo fazer uma pesquisa mais acurada.

Sinto, Jean, que, assim que eu apertar o botão de enviar, vai ter gente que eu vou me arrepender de não ter mencionado, mas corramos o risco: uma leitura recente que me impactou muito foi o Richard Plácido. Como é que pode uma pessoa tão dócil e afável produzir uma poesia de imagens tão adoravelmente corrosivas, tão sem cerimônia? — é uma primeira leitura (ingênua, óbvio), que me vêm. Os “parônimos” (Milton Rosendo e Nilton Resende) apareceram na minha vida quando eu era um jovem estudante de Letras, pretensioso (mais que hoje) e cheio de ideais. Vê-los nos corredores do Bloco João de Deus (onde funcionava o curso de Letras da UFAL à época) ou nos recitais promovidos pelo CA de Letras ou pelo PET me ensinou muito sobre como escrever, como ler, o que ler. Tainan foi um dos que me fizeram prestar mais atenção na questão local como um tema literário possível e necessário. Tazio Zambi é um camaleão, alguém que explora a linguagem em todos os limites possíveis e imagináveis, uma referência. E Mateus Magalhães? Acho que ele não faz ideia do privilégio que é ser tão talentoso, prolífico e reconhecido sendo tão jovem! Até a velocidade com que sua poesia amadurece, experimenta outras possibilidades de dizer, e até outras coisas que dizer, é coisa de louco!

Tem muita gente que bem poderia estar aqui (não que minhas impressões de leitor sejam a bala que matou John Kennedy), mas pretendo ler mais, ler melhor, mais acuradamente, pra poder tecer uma análise mais acurada.

Como funciona o teu processo criativo? Costuma escrever diariamente? Quais as suas influências?

Henry David Thoreau é muito conhecido pel’A Desobediência Civil, mas ele também tem um ensaio intitulado Andar a Pé. E estava coberto de razão em defendê-lo: uma coisa que me ajuda muito a reorganizar criativamente as ideias é andar. Mudei-me pra um bairro classe média, livrei-me do engarrafamento ridículo e proverbial da Chã de Bebedouro, mas, em (des)compensação, andar na rua ficou mais arriscado, e meu uso por vezes compulsivo de celular me dificulta organizar melhor meu ócio para andar e escrever. A época em que eu tinha menos juízo no quengo era, ironicamente, a época em que eu tinha mais tempo e disposição pra escrever.

Os escritores que estudei em minhas pesquisas de mestrado e doutorado — Lima Barreto e André Sant’Anna, respectivamente — acabaram sendo assimilados na minha escrita de alguma forma. O fato de explorarem literariamente as classes populares, prestando atenção em maior ou menor grau à linguagem na qual seus pensamentos suburbanos/periféricos se desenvolvem, e a reflexão sobre a identidade nacional, são meio que obsessões temáticas minhas. Na poesia, Manuel Bandeira e Augusto dos Anjos me marcaram na adolescência e me fizeram querer ser escritor. Peguei deles o humor e o gosto por imagens inusitadas, respectivamente.

Desde que montei uma banda (Ari e os Aerolitos), me concentrei mais em escrever letras de canções, então algumas influências virão da música, e permearão também a escrita de textos em prosa: neles a sonoridade cumpre um papel importante. Mencionei já Karina Buhr e o Catatau. Arnaldo Antunes, Stephen Malkmus, Nick Cave são alguns dos letristas que eu gostaria de ser, num universo paralelo.

Entrando na onda das listas, indica 5 livros lidos em 2016 e comenta um pouco sobre eles.

Li pouco, e estou morto de vergonha, pois sei que fazer essa lista vai dar trabalho de fazer, por isso vou pegar os anos de 2016 e 2017:

1. Humilhado, Jon Ronson: O autor resolveu entrevistar pessoas que passaram por algumas situações de linchamentos virtuais, alguns dos quais tiveram a vida mudada pra sempre por causa de alguma coisa dita inconsequentemente nas redes sociais. Uma preocupação útil nesses tempos.

2. Sem fins lucrativos, Martha Nussbaum: Nussbaum é professora da Universidade de Chicago e, nesse livro, entrará em defesa das ciências humanas, que são vistas como algo acessório e dispensável. Entre numa universidade e verá a hierarquia perversa que se forma entre as áreas do conhecimento que rendem lucro imediato e aquelas que refletem sobre o próprio modelo de sociedade que legitima essa hierarquizção. O subtítulo do livro é “por que a democracia precisa das Humanidades”. Bem autoexplicativo.

3. A queda do céu, Davi Kopenawa Yanomami e Bruce Albert: É um catatau, e estou lendo em doses homeopáticas. Davi Kopenawa é uma das maiores lideranças indígenas no Brasil. Trata-se de um compêndio de relatos orais gravados e traduzidos originalmente do ianomâmi para o francês. Ele demonstra bastante sagacidade ao comparar o modo de vida do seu povo com o do “povo da mercadoria” (como ele às vezes se refere aos não índios).

4. Brasil: uma biografia, Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa M. Starling: Outro que comecei a ler, parei e pretendo voltar: vida, cultura e literatura se misturam nessa história do Brasil contada de um jeito não convencional. Lilia Moritz Schwarcz estava elaborando já há algum tempo uma biografia de Lima Barreto (vai lançar na FLIP, já em julho), e é com ele que o livro começa a história, a partir de algumas considerações que ele fez sobre a Abolição, assinada no dia em que ele fazia sete anos de idade, e ainda insuficiente para libertar os negros e os — diriam Gil e Caetano — “quase brancos quase negros de tão pobres”.

5. Renato Russo: o filho da revolução, Carlos Marcelo: tenho a impressão de que não pega bem ser intelectual ou músico e ouvir Legião (se for os dois, pior ainda). Mas, paciência, nesse ponto admito meu medianismo. Lembro de ter visto a primeira edição dessa biografia na biblioteca do SESC e nunca mais a achei. Interessava menos as partes sobre o Renato em si, afinal, como santo padroeiro da “religião urbana”, Renato já virou meio que folclore, e os episódios marcantes de sua vida e carreira, partes de uma hagiografia. Gostava muito das observações sobre Brasília, cidade que calhou de nascer no mesmo ano que Renato, da utopia dos anos iniciais, de como ela virou o celeiro do militarismo, de como os filhos das superquadras e supersalários do Plano Piloto viriam a formar uma improvável e frutífera cena de rock.

Para finalizar. Quais são os próximos projetos?

Primeiro, defender minha tese e “pagar minhas contas” com a universidade, parte de minha vida já há catorze anos. Sendo bem sincero, a princípio pretendo me reorganizar com a música, reativar a banda, gravar material, essas coisas. Mas espero nos próximos dez anos botar pra frente um projeto pra HQ e escrever uma peça ou um roteiro pra algo audiovisual. Poemas, contos e letras, vou escrevendo aos poucos e, quando tiver uma quantidade boa, juntar e botar pra frente. Acima de tudo, pretendo estudar formas de escrever, expressar, experimentar. Mas já sou muito feliz com o que consegui fazer até agora, espero que os Contos reverberem mais, repercutam, porque eu gostei de escrevê-los e, principalmente, das reflexões que eles me levaram a fazer.

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