Tartamudeios: a literatura de Marcus Vinícius

Jean Albuquerque

Foto: Rhuanny Peixoto
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Tartamudeio, é o mesmo que falar com dificuldade, de modo incompreensível, gagueira. Mas também pode ser um caminho para tratar da questão, como fez o sociólogo e escritor, Marcus Vinícius, 27, em seu livro de estréia, Tartamudeios (2015), Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

A ideia de dialogar com suas angústias por meio da literatura surgiu depois que uma amiga conversando sobre o tema, perguntou por que o autor não escrevia sobre. “A provocação serviu de estímulo: poucas semanas depois eu já estava me arriscando nos primeiros textos. Parte deles tocavam nessa experiência, que foi muito mais dura de ser vivida do que de ser relatada”, conta.

A obra transita pela prosa e poesia. E ainda dialoga com o cotidiano, traz o entendimento de si e do mundo, percorrendo outros caminhos nada usuais e a sensibilidade de perceber que é possível caminhar junto mesmo questionando o tempo inteiro se iremos acabar nos tornando naquilo que tanto combatemos, além de dialogar com a sociologia.

O livro demorou quatro anos para ficar pronto, foi escrito sem pretensão de publicar. Quando o Edital para Publicações Literárias foi lançado, alguns amigos incentivaram a submeter o projeto e acabou dando certo. “Acho que a falta dessa pretensão me foi um dos aspectos mais positivos: não foi feito por encomenda, nem sob o aperto de qualquer prazo”, revela.

O autor atualmente trabalha com edição de vídeos na Coordenadoria Institucional de Educação a Distância (Ufal) e também com a revisão de textos acadêmicos e traduções para o inglês e espanhol. Parte do livro pode ser encontrado em seu blog e em algumas revistas literárias.

Conversei com o escritor e vocês conferem o bate papo abaixo.

Jean Albuquerque — Você lançou o Tartamudeios (2015), Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Como foi o processo de produção?

Marcus Vinícius — O primeiro impulso para tudo foi quando uma amiga me perguntou, numa conversa sobre minha gagueira, “por que você não escreve sobre isso?”. A provocação serviu de estímulo: poucas semanas depois eu já estava me arriscando nos primeiros textos. Parte deles tocavam nessa experiência, que foi muito mais dura de ser vivida do que de ser relatada. Com o passar do tempo, me senti instigado e com fluência pra tocar em outras dimensões minhas e do mundo. Tenho uma lembrança clara que tudo foi feito de modo bem espontâneo, o livro foi fruto de quatro anos de escritos não programados que só “se tornaram livro” no último momento, quando alguns amigos começaram a alimentar a ideia. Acho que a falta dessa pretensão me foi um dos aspectos mais positivos: não foi feito por encomenda, nem sob o aperto de qualquer prazo.

O teu livro de estréia dialoga com o cotidiano e ainda traz o entendimento de si e do mundo, percorrendo outros caminhos nada usuais e a sensibilidade de perceber que é possível caminhar junto mesmo questionando o tempo inteiro se iremos acabar nos tornando naquilo que tanto combatemos. Quais as temáticas que marcam a obra?

São temas que, se não forem universais no sentido mais convencional da palavra, o são à minha vida pessoal: o ser e seus pontos-de-vista, as mudanças que o tempo embota, afetos que nos embarcam o peito… Acho que, acima de tudo, são temáticas que me tocam. Não poderia ter feito algo muito diferente, porque penso ser o melhor caminho pra ter sinceridade no que se escreve.

Foto: Ricardo Lêdo

Tartamudeios (2015), o mesmo que falar com dificuldade, de modo incompreensível, gagueira. Ter problema na fala te fez querer tratar sobre a questão em sua literatura?

Como te falei antes, sim. Mas quando comecei a escrever sobre, não imaginava que se tornaria o título de um livro. Fiz muito mais no sentido de tentar transformar uma angústia que me acompanhava em literatura. Publicá-la impressa, de início, me causou estranhamento, por conta do nível de intimidade que aquelas páginas revelavam… Mas é um risco saudável e necessário que todos corremos quando tentamos nos expressar artisticamente, certo?

Dá para perceber o diálogo com a sociologia, mas também vivência. As experiências ainda servem como motor na hora de produzir? Como você percebe a política na tua produção?

Acredito que a sociologia foi muito mais uma das vias que me fez pensar sobre como a sociedade forma, conforma e deforma as nossas vidas do que uma ponte para escrever poesia. Não gosto de dizer que meus versos têm “teor sociológico”, ou que procuro criar “poemas-pensamentos sobre a sociedade”. Enxergaria isso como uma amarra… Esse é o problema de toda classificação, não é?

As experiências sempre serão o solo para os escritos. Penso que mesmo quando se escreve sobre algo distante no tempo, ou espaço, os medos, as indignações, as lamentações e os horizontes do autor brotam nas palavras que ele escolhe ou na forma em que estrutura a narrativa. Pra mim, a visão de mundo de quem guia o lápis, a caneta ou as teclas do teclado são a bússola do que está sendo escrito.

Nesse sentido, acho que todo livro tem a sua dimensão política, mesmo que às vezes isso apareça de forma sutil, pois acho que ela atravessa o nosso cotidiano muito mais do que costumamos imaginar. A política não está presente apenas nas instituições e demais forças sociais que influenciam as nossas vidas, mas também na maneira que traçamos nossos projetos pessoais, que enxergamos o que é uma carreira profissional bem-sucedida, ou fracassada, no papel que aprendemos a achar que as pessoas de sexos diferentes têm num relacionamento. São problemas que, literalmente, constituem o que chamamos de rotina. A todo instante estamos nos posicionando em relação a eles, seja os reproduzindo ou contestando. Meu livro não foge à regra. Mesmo se tentasse não falar sobre esses problemas eles não deixariam de existir.

Leia também: https://medium.com/@margemcultural/luzes-sombras-58f1aa903ec2#.9fs8a0yb1

O teu livro é classificado como prosa e poesia. Qual a diferença em percorrer os dois caminhos?

Não sei se consigo te responder. A minha relação com a prosa é antiga, desde pequeno lia romances e contos: sempre ficava encantado com a possibilidade de acompanhar seus enredos e criar empatia por seus personagens. Já a relação com a poesia é muito mais recente. Começou, inclusive, por volta do período que dei início aos escritos do blog, ao “me encontrar” e me apaixonar por Manoel de Barros. Ele foi a porta de entrada para os versos, me fazendo muito cedo querer escrever “sem parágrafos”, com poucas palavras. Foi uma dupla descoberta.

Não consigo diferenciar muito bem os dois caminhos, mas te diria que, pra mim, os poemas parecem nascer melhor quando feitos em momentos-vazão. Mesmo que guarde ideias de versos comigo, é preciso construí-los quando estou sob algum “surto emotivo”. Quanto à prosa, ainda me sinto muito inexperiente, pois não escrevi nada além de contos muito pequenos. Por poder ter dezenas, ou centenas, de páginas acredito que ela demanda muito mais disciplina e rotina na produção.

Foto: Rhuanny Peixoto

Por que começou a escrever? Em que momento o escritor se sente pronto para publicar o primeiro livro?

No momento em que algumas pessoas próximas passaram a acreditar no que eu vinha escrevendo. A culpa é toda delas.

Qual a sua impressão sobre a literatura produzida em Alagoas? Você lê autores alagoanos?

Olha, acho que nosso cenário esbarra com dificuldades que são comuns a outros lugares do país. A literatura, com exceção da que tem mais ressonância no mercado, não é um campo muito lucrativo, então as vias tradicionais (as editoras) atuam como um verdadeiro funil quando, por razões óbvias, não querem publicar obras que acreditam que não darão retorno econômico. Além disso, temos os índices sociais deste estado, como o de que 1 a cada 5 alagoanos não sabe ler nem escrever: nossas vidas ainda são secas. Não é um cenário muito animador… mas também não se trata de uma novidade. Não nos impediu de fazer surgir nomes que possuem relevância nacional até os dias de hoje. Acredito que é um ambiente profundamente contraditório e fecundo.

Quanto à minha experiência individual, passei a conhecer muito mais autores daqui com o processo de lançamento do meu livro, que foi selecionado junto a 10 outras obras. Foi um acidente muito feliz. A partir daí, tive contato não só com a produção desses autores, mas também de outras pessoas que os conheciam e formavam uma espécie de “rede” de escritores, que se liam e conversavam sobre literatura. Foi uma caminhada cheia de sorrisos e surpresas. Acho que tem muita coisa boa brotando e tomando espaço através de editais e de iniciativas como a revista Alagunas. Das leituras que mais me tocaram nesse percurso estão a Gabriela Hollanda, o Rafael Aquino e a Bruna Wanderley Pereira.

Como funciona o teu processo criativo? Costuma escrever diariamente?

Funciona da forma mais desordenada possível. Pelo menos assim foi até o presente. Diferente da leitura, não consegui incorporar a escrita à minha rotina, então fico totalmente sujeito aos momentos de inspiração, que costumam ser de euforia ou de tormento. A vontade de buscar outro método vem acompanhada por um receio de que isso modifique a maneira que me expresso ou que simplesmente tire o meu prazer com o escrever. É algo que, no entanto, ainda preciso tentar.

Entrando na onda das listas, indica 5 livros lidos em 2016 e comenta um pouco sobre eles.

Poemas — Wyslawa Szymborska: foi a redescoberta dessa autora polonesa, que um conhecido tinha me apresentado por um poema há anos. É o maior exemplo que encontrei na literatura de como a arte pode causar tanto impacto mesmo quando em pequena extensão.

Cinzas do Norte — Milton Hatoum: não o conhecia, apesar dos prêmios e da adaptação pra a televisão. Cheguei nele por um convite da minha amiga Lívya em iniciar um clube de leitura só de romances. O romance tem uma narrativa extremamente talentosa, com o fundo histórico da ditadura militar no Norte do país.

Poesia — Alberto Caeiro: faz parte da lista de “eternas recomendações” que ainda não havia lido. Talvez me tenha sido um modo de reconectar com a simplicidade que havia encontrado em Manoel de Barros.

Vozes de Chernobyl — Svetlana Aleskiévitch: está entre as leituras mais angustiantes que já fiz. Faz perceber como a humanidade tem caminhado, são gritos de desespero que demos no século XX impresso em palavras.

Carta a um jovem poeta — Rainer Maria Rilke: breve e profundo. Me provocou muito em pensar a relação da arte com quem a produz.

Para finalizar. Quais são os próximos projetos?

Ando me sentindo no limbo. Com exceção de poucos poemas, não escrevo há um tempo. Tenho lido mais do que nunca, buscando outras referências pra a escrita. Quero escrever em prosa. Venho regando ideias pra um romance, mas ainda não saltaram às páginas.