UNE x MBL: veja como cada um pensa em diversos pontos polêmicos

Reportagem: Mariane Ussier

Movimentos políticos e seus líderes jovens: uma discussão ideológica no campo universitário. As oposições esclarecem sua militância.

Em tempos de polarização política, os movimentos políticos são procurados por aqueles que estão à procura de um rumo ideológico.

Dois dos maiores movimentos do estado de São Paulo, a União Nacional dos Estudantes (UNE), da esquerda, e o Movimento Brasil Livre (MBL), da direita, foram entrevistados, e colocados em confronto sobre temas polêmicos de cunho social e estudantil.

Foram entrevistados:

Carina Costa Vitral, 27 anos, estudante de Economia na PUC-SP e eleita presidente da UNE em junho desse ano.

Renato de Souza Battista, 20 anos, estudante de Relações Internacionais na ESPM-SP e coordenador do Movimento Brasil Livre em São Paulo desde novembro do ano passado.

Redução da maioridade penal

Carina Vitral(UNE)

A UNE tem a convicção de que mudar a maioridade penal de 18 para 16 anos não é solução para o problema da violência. Prender um jovem, em um dos piores modelos carcerários de todo o planeta, não vai resolver o problema.

E sabemos que quem sofrerá na pele com essa medida são os jovens negros, da periferia, que já são vítimas de uma política de segurança pública seletiva que extermina e mata todos os dias a juventude pobre deste país. Estudos indicam que uma saída muito mais efetiva é a prevenção. Por isso, queremos que todo esse debate em torno da redução seja concentrado para pensarmos mais e melhores políticas públicas para a juventude.

Precisamos também lembrar e exigir o cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, que, inclusive, já responsabiliza o menor pelo ato cometido contra a lei por meio de medidas socioeducativas.

Renato Battista (MBL)

O MBL é a favor da proposta de redução da maioridade penal para crimes hediondos que foi aprovada na Câmara.

Cotas étnico-sociais

Carina Vitral(UNE)

A cota é um importante instrumento de possibilidade de ingresso no ensino superior de uma parcela da população que historicamente foi e continua sendo excluída pelas elites de ter acesso ao conhecimento.

A diferença de oportunidades de um filho da elite e de um negro da periferia são enormes. Mas quando o negro entra na universidade, já está provado que a sua capacidade de acompanhamento dos estudos é até mesmo superior. A cota deve ser vista como um mecanismo que tem ajudado o Brasil a se desenvolver e reduzir o seu abismo da desigualdade social que, mesmo tendo sido aos poucos superada nos últimos anos, continua sendo um entrave para o crescimento do país.

Quando alguém que nunca teve acesso ao ensino superior consegue completar os seus estudos, isso muda a realidade de toda a sua família e do seu entrono.

Renato Battista (MBL)

Somos contra.

Thomas Sowell, um economista negro, em seu livro “Ação afirmativa ao redor do mundo, um estudo empírico” mostra que a política de cotas não faz com que se obtenha igualdade em termos econômicos, além do perigo de acirrar os conflitos étnicos.

A política de cotas não foi efetiva de americanos a malaios, não há motivos para acreditar que isso resolveria algum problema por aqui.

Direitos LGBTT

Carina Vitral(UNE)

É preciso avançar nos direitos LGBTT. O Brasil ainda precisa encarar de frente e evoluir em leis como a que criminaliza crimes de caráter homofóbico, a que garante o uso do nome social, trate com mais respeito as denúncias de ataques à população LGBTT.

É preciso, por exemplo, que as delegacias sejam mais especializadas para atender esse tipos de ocorrências. É necessário que as universidades, ambientes ainda muito machistas, se abram para a diversidade.

A UNE possui uma diretoria LGBT e participa da organização das principais paradas gays do Brasil. Defendemos as políticas afirmativas para a afirmação de minorias raciais e de gênero, queremos a unidade da juventude a partir da sua diversidade, privilegiando a organização de estudantes mulheres, gays, lésbicas, negros, índios e outros grupos que compõe o mosaico colorido da classe estudantil brasileira.

Renato Battista (MBL)

Quais direitos? Somos contra o Estado intervir nas relações voluntárias entre os indivíduos. Como também somos contra que o Estado privilegie uns em detrimento de outros.

A união civil entre pessoas do mesmo sexo já é um direito garantido, como também todo tipo de preconceito ou discriminação já tem punição prevista na Constituição.

Políticas públicas para mulheres (feminicídio)

Carina Vitral(UNE)

Os estudantes vem ganhando protagonismo no país na medida em que a abrimos à universidade para o povo. A popularização do ensino superior proporcionou a milhões de jovens o acesso ao conhecimento.

A partir desse empoderamento enfrentamos ainda o conservadorismo que resiste na sociedade e é por isso que o movimento estudantil tem que atuar incisivamente no combate ao racismo, que é mais visível a partir do ingresso de mais negros e negras nas universidades, ao machismo e à LGBTfobia.

A UNE tem sido protagonista nesse enfrentamento e a realização de encontros de estudantes negras e negros, de estudantes mulheres e de estudantes LGBT são marcos dessa luta. Algumas das bandeiras hoje defendidas pelos movimentos sociais e pela UNE saem do rico debate de espaços como estes, como são exemplos a luta pelo fim dos autos de resistência, pela desmilitarização da polícia, pelo fim do feminicídio e a oposição à proposta do Estatuto da Familia.

Acreditamos que devemos reforçar esses espaços e empoderá-los cada vez mais para que possamos dar o protagonismo necessário àqueles que sofrem com as opressões no cotidiano da universidade.

Renato Battista (MBL)

Acreditamos que não há necessidade de se tipificar este tipo de crime.

Assassinatos já são tipificados como homicídio, como também já existe a tipificação para crimes em ambiente doméstico como a lei Maria da Penha.

Como disse anteriormente, somos contra que o Estado privilegie uns em detrimento de outros, como no caso das cotas para mulheres na política.

Acreditamos que a maior participação das mulheres na política ocorrerá com o tempo, como no caso do parlamento britânico que tem sua maioria conservadora, mas foi o que mais elegeu mulheres e homossexuais (parlamento mais LGBTT do mundo) em sua história.

Programas assistenciais (principalmente em relação à Educação)

Carina Vitral(UNE)

Lutamos para que programas como o ProUni, por exemplo, fossem criados. O ProUni deu oportunidade para milhões de pessoas poderem ter o sonho de cursar uma universidade concretizado.

Hoje, nossa luta é para ampliar o programa e aperfeiçoá-lo. É preciso exigir dasuniversidades que oferecem o ProUni mais qualidade e responsabilidade com o prounista. É nossa bandeira também que o prounista tenha uma bolsa que o remunere para que ele possa comprar material didático e pegar o seu transporte público com tranquilidade para concluir os seus estudos.

A UNE também luta para que o Plano Nacional de Assistência Estudantil, o Pnaes, seja triplicado de 500 milhões para 1,5 bilhões. Dessa forma, poderemos ter mais e melhores restaurantes universitários, moradias estudantis e creches para as mães estudantes.

Nossa campanha é “Quem entrou, quer ficar!”.

Renato Battista (MBL)

Somos a favor da implementação da política de vouchers educacionais, onde o Estado entrega um voucher para o aluno que não tem como pagar sua escola/universidade para este pode ingressas na universidade. Essa política educacional é utilizada em países como a Suécia e o Chile que tem a melhor educação da América Latina.

Acreditamos que o modelo estatal de educação é falho e que o mercado pode prover tal serviço, como é o caso de países pobres na África onde as “escolas de 1 dólar por semana” estão em crescimento para prover algo que o Estado não conseguiu. Acreditamos que a livre cooperação social é fundamental para o desenvolvimento da sociedade. O Estado não sabe educar.

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