Entrevista | Elton Hipolito

Marginália
Aug 24, 2018 · 8 min read

por Marcelo Cândido

Se o caminhar por Ouro Preto, em especial do Cinema Vila Rica até a Igreja do Rosário, fosse acompanhado por uma trilha sonora, provavelmente, ela não teria uma melodia linear. Ela seria sim tão contagiante quanto as músicas monocromáticas do pop que tocam no rádio. A mesma fisgada. Mas as calçadas irregulares e a diferença dos ritmos entre a rua São José (dos bancos) e a rua Getúlio Vargas (com a muretinha dos namorados e os cafés) deixariam ela mais próxima da estranheza de “Sagração da Primavera” de Igor Stravinsky.

O Guia de Ouro Prêto (1938) de Manuel Bandeira, mais comprometido com o projeto patrimonial dos modernistas, não conta isso, mas quem escutou sabe. A criação de Stravinsky é a completa linha torta, imprevisível como a caminhada na cidade. Principalmente, porque as duas são cheias de notas dissonantes, ninguém sabe o que vai aparecer em seguida. Você passa por um, dois, três restaurantes coloniais e, de repente, uma loja de celulares. Você continua. Passa por uma drogaria, um mercadinho (tudo bem até aqui) e, sem mais nem menos, para na frente de uma loja que parece as Casas Bahia. Ok. Você acha interessante, mas segue seu caminho, entra na rua Getúlio Vargas e pronto, outra mudança drástica. Rua mais larga, menos agitação comercial, casas residenciais e nenhuma fila de banco saindo de uma porta. São cafés e lojinhas um pouco mais espaçadas, não estão lado a lado como antes. Aqui a música fica mais linear, quase previsível, até que, de novo, sem nenhum anúncio prévio, dá de cara com uma galeria de arte.

Galeria de Arte Nello Nuno

Neste ponto, provavelmente, você vai parar. Não por causa da fachada do século XIX, ou pelas portas colossais pintadas de vermelho aveludado. Mas sim pela surpresa de agora estar olhando pela janela e vendo os quadros logo depois dessa caminhada. Uma perfeita sinfonia de notas opostas, sem regularidade ou monotonia, tudo junto.

Agora, se você chegou até alí, bem-vindo(a) à Galeria de Arte Nello Nuno da FAOP. Mas, se fez esse trajeto entre os dias 03 e 26 de agosto, e espiou lá dentro os quadros de ruínas e rostos de pessoas pintadas com guache e terra, então você recebeu um “bem-vindo à Lacunas da Memória, por Elton Hipólito”.

Uma primeira olhada nessa exposição do paulista de 34 anos é tudo o que basta. Agora que você entrou no salão, já consegue entender melhor. Não são fotos, mas sim pinturas tão detalhadas que quase dá para sentir as marcas de expressão nos rostos e a textura dos escombros. Elton pinta gente e arquitetura, mas as frases na parede acompanhando os quadros logo revelam que é mais do que isso. Habitamos e somos habitados pela arquitetura. Estamos conectados com os espaços de maneira orgânica, nos misturando a eles, criando memórias no corpo e no concreto como se o ato de habitar dependesse tanto de uma experiência subjetiva quanto do material inerte. Não é à toa que o artista comenta o sentimento de “estranhamento” que sente quando passa pelos restos de uma demolição e vê a lacuna que eles deixam. Quando tem tempo, desenha o lugar. Quando não, tira uma foto com o celular. “É mais fácil para trabalhar depois. Não consigo partir do nada, preciso de uma referência”, comenta.

A carreira nas artes veio a passos lentos. Antes de Lacunas da Memória, sua primeira exposição individual, dedicou a maior parte do tempo à formação nas artes plásticas e ao ofício de conservação e restauro. Isso sem contar as duas residências artísticas que participou, uma na aldeia de Cemitério Peixe, em Conceição do Mato Dentro, em 2015, e outra em Cerveira, vilarejo de Portugal, em 2016. Fez esse trajeto maturando o conceito de Lacunas da Memória por quase 10 anos porque não era simples: foi uma questão de reaprender a relação entre lembrar e esquecer, entre o visível e o invisível.

Se o cotidiano também serve para apagar as coisas, fazendo com que deixemos de perceber um casarão que é removido para dar lugar a um prédio comercial, ou a dimensão da história pessoal um desconhecido, é por meio da plenitude e da presença que isso poderá ser gravado na memória.

“Paranapiacaba”, 2015. Da série Lacunas da Memória.

Apesar de dizer lembrar das coisas meio esfumaçadas, assim como no quadro da ponte de Paranarpiacaba sumindo nas brumas de guache, Elton Hipolito não parece deixar passar nada. Seja pela continuidade ou pela descontinuidade, os contatos despertam o artista assim como as notas de Stravinsky e as calçadas de Ouro Preto a quem passa por elas com atenção.

Conversando com o artista, ele nos contou sobre seu processo artístico e outros detalhes de como a arte e a arquitetura se mesclam na sua vida quando se trata de representar a memória. As frases nas paredes são trechos dos livros do arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa, uma das várias referências que Elton diz perpassar seu trabalho e dar forma a essa poética dos espaços inexistentes de Lacunas da Memória.

Para fazer a série “Marcas”, você passou um tempo com as pessoas atingidas pela barragem em 2015?

“Eliane”, 2018. Da série Marcas.

E.H.: Sim. Foi durante um trabalho de conservação que eu fiz com uma empresa de dezembro de 2016 até dezembro de 2017. A gente tinha que ver onde a lama entrou e o que ela deixou soterrado, incluindo ossadas. A Eliane eu conheci quando nós fomos analisar Bento Rodrigues e ela entrou na nossa equipe para abrir as campas e a base da capela e ver o estrago ali. Nesse período, eu também vi que a lama tinha destruído muito mais do que se podia ver. Ela mudou completamente a vida das pessoas li e varreu toda a vida como elas costumavam ter.

Como foi sua formação artística?

E.H.: Sempre tive o hábito de desenhar, mas foi com uns quinze anos que eu comecei a estudar mais e fiz um curso livre de artes numa escola lá de São Paulo. Foram quatro anos naquela escola; coincidentemente, ela também está fazendo 50 anos em 2018. Depois eu fui fazer artes plásticas e também fiquei alguns anos sem estudar até que, em 2010, a FAOP abriu edital para o curso de conservação e restauro e eu decidi fazer a prova. Formei aqui em 2012 e a ideia era trabalhar na reforma da Igreja da Matriz em Cachoeira do Campo, mas um amigo disse que tinha vaga no Museu Afro, em São Paulo, e então eu fui lá, fiz a entrevista, e pouco tempo depois

Depois do Museu Afro você foi direto para Cerveira onde fez o mural do José Rodrigues?

E.H.: Não, antes eu voltei para Minas e fiz uma residência artística no Cemitério do Peixe. Minha história é cheia de idas e vindas, sempre transitando entre Minas e São Paulo. Fiquei também seis meses trabalhando no restauro de uma capela em Congonhas, mas a verba foi cortada e o projeto parou. Como não tinha como me sustentar, voltei para São Paulo e passei um tempo fazendo montagem de exposição e outros trabalhos temporários. Foi nesse período que eu dei mais ênfase às obras de Lacunas da Memória até que surgiu a possibilidade de ir pra Portugal. Fui para o vilarejo de Cerveira, onde morou o escultor José Rodrigues, e fiz o mural na parede do Cineteatro Vila Nova.

As pessoas em seus desenhos são enquadradas como em retratos. Você sempre teve essa preferência?

E.H.: Eu sempre gostei do retrato e tentei casar a técnica dele com o meu trabalho. Desde criança eu fazia retratos, mas fui tentando canalizar as ideias para chegar nesse resultado de hoje. Foi um trabalho de elaboração longo.

Como é seu processo de criação?

E.H.: O desenho é a base para o trabalho, tenho feito isso a anos, mas é a pintura que realmente vem protagonizando minha arte. Sempre carrego comigo um caderno onde quer que eu esteja e, quando vejo alguma coisa interessante, anoto a ideia nele. Meu processo tem muito a ver com a observação, mas, quando não dá para sentar e ficar ali desenhando, eu uso a câmera do celular. É mais fácil para trabalhar depois. Não consigo partir do nada, preciso de uma referência. Ou vai ser um desenho de algo que eu já observei, ou vai ser a partir da fotografia.

“Pompeia 1023”, 2015. Da série Lacunas da Memória.

Como você define quais lugares vão se tornar obras?

E.H.: Eu procuro lugares que mostrem essa transformação do espaço público e que cada vez vem se tornando mais rápida e geral. Não está só nas grandes cidades, mas acaba sendo mais agressivo lá. Esse apagamento de casarões e espaços históricos me chama a atenção. Lá em São Paulo, eu morava no São Bernardo. Depois de uns anos fora, quando eu voltei, já não reconhecia ele. É esse estranhamento do local que antes era familiar e, agora, deixou de existir, que serve de gatilho para o meu trabalho. Bairros simples são removidos para dar lugar a prédios comerciais enormes e, junto deles, vem também uma bolha que aos poucos vai excluindo quem estava ali antes deles.

Então você diria que seu trabalho também produz memória?

E.H.: Sim, é a partir de um momento póstumo, quando aquelas coisas já deixaram de existir, que eu crio. É a lembrança do lugar por onde eu passei que dá brecha para algo novo surgir. A memória funciona assim: a gente cria outras relações a partir dela. De forma semelhante, os locais que eu reproduzo também passam por isso. Eles estão sendo reconfigurados, mas alí o processo é mais violento, envolve muitas pessoas, um processo de gentrificação que vem acontecendo a muito tempo nesses espaços. As ocupações populares como os cortiços e casarios antigos foram apagadas para ceder lugar à ideia de modernização, cuja a velocidade de transformação é cada vez mais rápida e o passado não acompanha. Eu tenho lido as obras do Juhani Pallasmaa e ele fala dessas relações de reconstrução das memórias. Elas são uma grande influência por que fazem essa reflexão sobre a memória, a habitação e as pessoas as ali dentro. Foi um processo de pesquisa longo.

“São Bento 221”, 2018. Da série Lacunas da Memória.

Por que a escolha do preto e branco?

E.H.: O preto e branco criam um alto contraste que agrega à narrativa. Ele ajuda a dar uma dimensão dramática para cenas que, se tivessem cores, talvez perdessem sua potência porque elas seduzem a gente. A cor acaba chamando mais a atenção do que a imagem que está sendo retratada ali. Além disso, tem a ver com como a imagem rememora as cenas da nossa vida.

Você se recorda em preto e branco?

E.H.: Não exatamente, mas é como se tivesse uma névoa na frente das coisas e você tivesse tentando enxergar através dela.

Porque as frases nas paredes?

E.H.: Como esses questionamentos são meus, coisas pessoais, eu acho que as frases ajudam a guiar quem entra na narrativa de Lacunas da Memória. Tem uma função pedagógica de construir uma experiência mais completa em quem se dispõe a entrar nessa.

    Marginália

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    Espaço de idéias dos professores, funcionários e alunos da Fundação de Arte de Ouro Preto | FAOP.

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