
Escreva!
Põe pra fora, se não te devora..
Desde pequena minha mãe mandava eu fechar a boca, pelo simples fato de que eu era "bocuda" mesmo e respondia. Respondia pra própria mãe, para o pai, pra vó, professora, diretora da escola…
Fui crescendo, amadurecendo e finalmente fechando a boca. Com isso fiquei mais "educada" e magra.
Porém fui engolindo muita coisa, fui não falando outras, fui aceitando tantas outras.
Daí começaram as dores de garanta, os dores no corpo, a rinite que nunca curava. Percebi que se minha boca não falasse, meu corpo dava um jeito de falar por mim.
_Mãe, eu preciso falar, se não eu nunca vou curar minha garganta, não dá pra ficar com 40ºC de febre só pra eu não esbravejar o que eu quero nos outros!
_Dá sim, mantém essa boca fechada e começa a escrever!
Eu tinha um caderno em branco, ele sempre estava em branco, mas eu sempre escrevia muito nele. Escrevia com toda minha força e depois rasgava todas as folhas, picava e queimava. Pronto. O caderno estava novinho de novo.
Até a próxima vontade de falar.
Um dia foi a vez da pobre da matemática, eu odiava matemática, e o verbo só está no passado por que não preciso mais estudá-la. Se não eu ia dizer EU ODEIO MATEMÁTICA.
E foi isso que eu escrevi no caderno, páginas e páginas: EU ODEIO MATEMÁTICA EU ODEIO MATEMÁTICA EU ODEIO MATEMÁTICA EU ODEIO MATEMÁTICA EU ODEIO MATEMÁTICA EU ODEIO MATEMÁTICA EU ODEIO MATEMÁTICA EU ODEIO MATEMÁTICA EU ODEIO MATEMÁTICA… até algumas páginas começarem a se rasgar.
Por causa desta técnica, puro acaso, ou sei lá, eu comecei a ficar mais simpática com a tal da matemática e até minhas notas melhoraram.
Daí passei a escrever para aquela colega que debochava da minha cara, aquela outra prova que eu fui mal, pra gordura localizada do meu corpo, um final de semana que não gostei, um ex namorado…
E hoje eu gritei…
E eu vi que gritei por que não falei, não coloquei pra fora, e muito menos escrevi.
Sabe o que eu gritei:
_ Eu não tenho problema nenhum com a morte da minha mãe, eu aceito o fato de que ela morreu, foi o maior ensinamento que ela pode ter me dado, depois disso foi a época que eu me senti mais forte, foi a época que eu perdi todos os meus medos, nada parecia que ia me atingir! Até entrar num relacionamento que cagou tudo, o fato da minha mãe ter morrido foi um fato, não foram anos que me ferraram com toda minha vida, e é disso que eu tenho raiva, é isso que eu tenho ódio, é desse tempo perdido que eu fico muito P da vida! Muito P da vida! (nome e xingamentos foram proferidos mas aqui eu preferi deixar no anonimato)
Mas eu gritei pra quem não precisava ouvir isso.
E pra quem eu queria falar, eu nunca vou dizer.
Então corri pra cá pra escrever, mas o que eu quero mesmo escrever, vai ficar dentro de um .txt só pra mim.
E a dica de hoje é: FALEM, ESCREVAM, mas não guardem muito tempo pra sí. Uma hora sai.
