Por um novo jornalismo de revista

Morei, até os 16 anos, em uma cidade no interior de Minas. Desde que aprendi a ler, um dos lugares que mais gostava de ir era em uma das poucas bancas de revistas da cidade. Quando criança, as melhores coisas da banca eram as revistinhas da Turma da Mônica. Até hoje costumo comprá-las (não na mesma banca). Tenho várias guardadas em uma caixa de sapato.

Quando comecei a andar sozinha pela cidade, minhas idas à banca ficaram mais frequentes. Por volta das 7h, quando ia pra aula, a banca ainda não estava aberta, mas, muitas vezes, havia uma fiorino parada deixando os jornais do dia. Bom mesmo era voltar da aula e parar por lá. Não tenho esses dados, mas tenho certeza de que foram pouquíssimas vezes que não parei, nem que por alguns segundos, na banca, durante as voltas da escola.

Desconfio seriamente que a dona não gostava muito disso. Afinal, eu ia lá todos os dias e nunca comprava nada (ganhava uma mesada de 10 reais. Impossível comprar revistas com essa quantia). Sabia os lugares exatos das revistas. As de “notícias de política” em um canto; lá no outro lado, as revistas voltadas para adolescentes; as revistinhas da Turma da Mônica ficavam em lugar um pouco mais alto (provavelmente para não deixar em um lugar acessível para crianças ficarem folheando). Os exemplares da Payboy e da G Magazine também ficavam em um lugar mais alto e um pouco escondidas, mas suficientemente visíveis para despertar a curiosidade de quem passava por lá. As revistas de novela e fofoca ficavam em um suporte de arame, colocado um pouco mais a frente da banca, no passeio da pracinha.

Conheci a piauí durante o curso de jornalismo. Paguei a assinatura com um baixíssimo salário de estagiária que eu recebia. Até hoje assino e leio a revista.

Essas de novela e fofoca, que ficavam um pouco mais a frente da banca, eram as que costumavam chamar atenção primeiro de quem passava por perto. Era lá que eu lia os spoilers das novelas (e também no caderno de TV do Estado de Minas, que continua firme e forte saindo aos domingos). Foi folheando revistas nessa banca que comecei a me encantar com os infográficos da Super; as perguntas curiosas da Mundo Estranho; os brindes colecionáveis, que eu nunca tive, da Recreio; as fotografias da National Geographic; as matérias sobre ciência na Galileu. Na Veja, gostava de ler as páginas amarelas e, depois, pulava para a parte de resenha de livros e filmes. Adorava acompanhar a lista dos mais vendidos, no final da revista. Não tinha costume de olhar a Atrevida, Capricho e Toda Teen, mas tentava ficar por dentro das capas, pra não ficar perdida nos assuntos das rodas de adolescentes. Lembro que uma amiga assinava a W.i.t.c.h. e sempre levava pra escola. Naquela época, não sabia que a revista havia surgido após a criação de uma história, mas gostava de passar o recreio lendo a revista.

Às vezes, algumas revistas tinham um pedacinho de durex colado da capa até quarta capa, para que pessoas (como eu) não ficassem uma vida paradas lá folheando revista. Era preciso bastante jeitinho e muito cuidado pra olhar o conteúdo interno da revista sem rasgá-la. Foi assim, com essa banca, que comecei minha relação com revistas.

Só mais tarde, na faculdade de jornalismo, comecei a entender melhor toda dinâmica envolvida na preparação de uma revista. Por exemplo, ao ler A arte de editar revista, da Fatima Ali, percebi como toda essa relação que eu já tinha com revistas é algo pensado e estruturado pelas pessoas que fazem revistas. Segunda a autora, a revista estabelece uma relação com o leitor:

Ninguém precisa de uma revista, mas todos precisam de amigos. A revista é como uma pessoa, um companheiro que está lá para levar-lhe informação e ajuda. Estabelece com o leitor uma relação que é renovada a cada nova edição. Uma relação de um-com-um, familiar, íntima e envolvente. A revista fala sobre o que interessa ao leitor, levando em consideração seus desejos e expectativas, expressando suas esperanças e preocupações. (Fatima Ali, A arte de editar revistas)

Durante o curso de jornalismo, conheci a Realidade. Li sobre a revista, reportagens da revista (em livros) e estudos e análises que tratavam sobre a importância da Realidade na história da imprensa brasileira. Li também o livro Realidade Revista, uma coletânea de reportagens selecionadas por José Carlos Marão e José Hamilton Ribeiro.

Embora tenha lido bastante sobre a Realidade, nunca havia pegado, folheado um exemplar da revista. Só tive contato “pessoalmente” com uma edição da Realidade em janeiro deste ano, quando estive em São Paulo e aproveitei para conhecer o sebo Desculpe a Poeira. Lá, o jornalista Ricardo Lombardi, muito gentilmente, me mostrou várias revistas. Já tinha lido sobre todas, mas era a primeira vez que pegava, via o tamanho, tipo de papel e cores de muitas delas. Acabei levando pra casa uma edição da Life, Machete, O Cruzeiro, Realidade e a edição-teste da Alfa.

Assim como amadurecia minha relação afetiva com as revistas durante a faculdade, sentia um certo desconforto toda vez que aparecia uma notícia de revistas encerradas, redações e editoras estruturadas e passaralhos aos montes. Aliás, considero vitoriosos todos colegas que formaram na mesma época que eu.

Não foi fácil passar anos estudando jornalismo, querendo fazer jornalismo e, ao mesmo tempo, lendo várias notícias de demissões, enxugamento de redações, discussões rasas sobre obrigatoriedade e/ou necessidade do diploma e previsões apocalípticas de loucos que insistiam (e ainda insistem) em dizer que o jornalismo vai acabar.

Falando em passaralhos, é sempre uma angústia quando surge uma notícia de mais algum. É triste ver tantos colegas de profissão demitidos. No início de junho, por exemplo, a Editora Abril protagonizou mais uma triste demissão em massa. O Volt Data Lab, projeto de jornalismo de dados, fez um levantamento das demissões de jornalistas brasileiros desde 2012. Os dois textos sobre o assunto podem ser lidos aqui e aqui.

Sempre que acontece alguma demissão em massa, vejo pessimistas esbravejando que é o fim do jornalismo. Lógico que bate uma insegurança. Mas essa insegurança não tem a ver com o fim do jornalismo, mas, sim, com a forma que grandes empresas de comunicação vem lidando com as mudanças no jornalismo.

Comprei duas edições da Realidade no ‘Desculpe a Poeira’. Garimpando pela internet, encontrei a edição nº1. Não resisti. Comprei também.

Continuando adorando e lendo bastante sobre revistas. De uns tempos pra cá, comecei a buscar revistas antigas. Uma das minhas queridinhas da coleção é a Realidade nº1. Não faço isso por saudosismo, mas por interesse e curiosidade em conhecer como era feito o jornalismo. Entender como o jornalismo era feito até pouco tempo atrás é fundamental para pensar em novas práticas.

Acredito que o jornalismo no papel ficará cada vez mais inviável. Mas isso não significa que seja o fim do jornalismo e a morte do que se conhece como jornalismo de revista. O que se diz há tempos sobre o jornalismo de revista é que ele é um jornalismo com mais profundidade, com mais espaço para fotojornalismo e infográficos, que leva em consideração os conceitos de especialização e segmentação. Não acho que isso tenha chegado ao fim. Na verdade, hoje em dia, é possível contar com vários recursos para se aplicar o jornalismo de revistas em plataformas digitais. A famosa reportagem Snow Fall: The Avalanche at Tunnel Creek me lembra bastante o estilo do jornalismo de revista. Assim como tenho várias revistas guardadas em armários, tenho o link dessa reportagem ‘guardado’ em uma planilha do Excel, onde ‘coleciono’ várias reportagens bacanas que vejo por aí. Assim como, vez ou outra, pego alguma revista para reler algum texto ou ver alguma fotografia, revisito vários desses links que tenho guardados na minha planilha. O estilo de jornalismo praticado em revistas não precisa acabar. O importante é saber aproveitar e aplicar novas tecnologias nesse estilo de jornalismo.

O que não dá é para negar as implicações das novas tecnologias e os benefícios que elas podem proporcionar ao jornalismo. No dia 3 de maio de 2015, por exemplo, o Estadão publicou um editorial chamado O papel resiste. O texto fala sobre o relatório State of News Media — 2015, um estudo de periodicidade anual sobre o mercado de jornalismo nos Estados Unidos. A impressão que se tem com a leitura do editorial é que o Estadão pouco se importa com o jornalismo digital. E mais: que se apresenta como uma espécie de representante da resistência do “jornalismo no papel”. As duas últimas frases do texto confirmam isso: “O papel resiste. O papel ainda faz muitos leitores felizes.”. O jornalista Leandro Beguoci fez uma boa análise sobre a repercussão da pesquisa nos Estados Unidos e abordagem feita pelo Estadão. Logo no início do texto, Leandro Beguoci diz algo que muitos jornalistas deveriam pensar:

“O jornalismo tinha um enorme valor — e continua tendo, e vai continuar tendo. Só que será bem diferente do passado. Há fartas evidências sobre isso, todos os dias, para qualquer pessoa que se disponha a acompanhar as discussões sobre o futuro da comunicação.”

O momento é de mudança. Não dá ignorar os passaralhos. É preciso avaliar os motivos que vem causando cada vez mais demissões. Mais do que nunca, jornalistas precisam pesquisar e se atentar ao que tem sido feito na área de conteúdo, tanto projetos que deram certo quanto grandes promessas que fracassaram. Com tanta mudança, os caminhos que o Jornalismo vai tomar daqui pra frente são difíceis de prever. Mas é importante não se fechar para as novidades. Diante disso, mais uma vez, fecho um texto com uma citação do livro Cibercultura, de Pierre Lévy:

“Peço apenas que permaneçamos abertos, benevolentes, receptivos em relação à novidade. Que tentemos compreendê-la, pois a verdadeira questão não é ser contra ou a favor, mas sim reconhecer as mudanças qualitativas na ecologia dos signos, o ambiente inédito que resulta da extensão das novas redes de comunicação para a vida social e cultural.”