Clube da Escrita | Desafio #1 - Autorretrato no Passado

Um reflexo diferente

Sete horas. Aquele som tão conhecido que já se tornara um fardo tocava novamente.

Os três minutos que passavam entre desligar o aparelho e levantar da cama preenchiam a mente dela de formas diferentes para não ter que enfrentar mais um dia. Todas em vão. Três minutos, então, se passaram. Ela correu para o banheiro para sua higiene matinal, mas parou todo o processo ao olhar para seu reflexo no espelho.
Era ela. Mas não era.
Era. Mas era uma outra versão. Alguém que ela já foi. Esfregou os olhos para ver se enxergava direito. A idade ainda era pouca, mas não estava livre dos problemas que a impossibilitavam de enxergar tudo com nitidez.

A imagem refletida ali era dela mesma, só que aos dez anos. Quatorze anos separavam o mundo fora e dentro do espelho. Algumas mudanças eram notáveis: o envelhecimento, mesmo que ainda pouco, através dos anos, olhos mais cansados e acompanhados de duas olheiras arroxeadas. Mas algumas “não-mudanças” também eram notáveis: apesar de várias transformações durante os anos, seu cabelo era o mesmo. Um pouco menos liso, é verdade, mas a coloração marrom e a franja curta eram as mesmas em qualquer espelho que ela olhasse. Ah, sem contar as covinhas. Elas nunca a abandonaram e sempre foram presentes em seus poucos sorrisos, até mesmo aos dez anos.

Ao ver aquela menininha ali, refletiu sobre a sua vida atual. Era exagero dizer que muitos anos haviam se passado. Ela só tinha vinte e poucos agora, não é mesmo? Isso não é nada perto de uma vida toda. Mas aqueles catorze anos que a separavam da menina de franja, com duas covinhas e coloração castanha em todas as partes do corpo as quais a cor cabia parecia tão distante. Elas sorriram uma para a outra como se dissessem que tudo vai ficar bem. Tudo ficaria bem aos dez ou aos vinte e quatro.

Sete horas e dez minutos. Ela iria se atrasar. Resolveu fazer aquela maquiagem simples de todo dia, mas reparou que seu reflexo continua sorrindo para ela, quase que se recusando a se “embelezar”. E antes que ela trocasse o reflexo para poder chegar a tempo no trabalho, olhou pela última vez para aquela menina de dez anos e percebeu que apesar da idade, da época, dos conflit noos internos, dos vincos na pele, das dores nas costas e pernas e da vontade diária de jogar tudo para o alto, uma coisa o tempo não era capaz de mudar em sua vida: o fato de que ela sempre seria ela mesma.


O texto faz parte do desafio criado pelo canal Literasutra para o Clube da Escrita, que tem a proposta de desenvolver a nossa escrita criativa.