O feminismo e minhas descobertas

Quando fiz 14 anos, perguntei a minha mãe se ela era feminista.

Ela foi direta. Não, disse a mim, não sou, porque ser feminista é admitir que há algo errado.

E, por muito tempo, revirei essas palavras em minha cabeça, tentando entender o que, então, não havia de errado no que me cercava. Eu lia textos sobre relacionamentos abusivos, assédios sexuais de diversas formas e me perguntava como diabos nosso mundo não estava cheio de erros.

Eu via filmes em que mulheres eram expostas como objetos de decoração; sempre lindas, exibindo corpos que condiziam com os padrões de beleza da época, mas, pobrezinhas, sempre burríssimas. Não entendiam o mundo dos homens. Mulheres lacrimosas, todas cheias de hormônios, emocionais demais para realizar qualquer tarefa fora do mundo doméstico mas, é claro, cheias de maquiagem, saias, saltos altos, cabelos impecáveis. Ou talvez tagarelas demais, conversando sobre futilidades que deixavam os homens em cena cheios de deboche.

E então eu desligava a TV e via minha mãe voltar do trabalho, repousar a bolsa na mesa e me oferecer um sorriso exausto. Ela sabia o que queria e não aceitaria desaforos. Era culta e inteligente e cheia de energia.

Há algum problema em nosso mundo?, eu pensava enquanto assistia outras tantas mulheres saírem de casa para ganharem seu próprio dinheiro.

Em meus 14 anos, passei a andar sem companhia nas ruas. Antes disso, eu sempre estava com alguém, porque não era seguro. Eu era uma mocinha, diziam-me. E passei a ter medo. Eu analisava meu guarda roupa e me olhava no espelho diversas vezes antes de ter certeza de que eu não seria abordada com vestimentas como essa.

Eu era.

Ouvir pessoas gritando coisas sobre meu corpo, perguntando coisas sobre mim, encarando-me, assobiando, pedindo-me para sorrir mais, tudo era insuportável. Não me deixava lisonjeada. O único resultado do festival de baixarias que me acometia era fazer-me mudar de caminho. Eu tinha medo que descobrissem minha rotina e me perseguissem.

Medo.

E passei a ouvir minhas amigas, meus amigos, colegas, pessoas conversando sobre as roupas de uma garota ou outra. Comprimento da saia. Tamanho do decote. Número de ficantes. Tudo isso parecia importar. Aparentemente, garotas assim eram putas.

Putas?

Quanto você pesa? Cabelo ruim precisa de progressiva. Você não acha que essa roupa é muito masculina? Você fala palavrão? Você não é gorda, é linda! Eu só estou preocupada com a sua saúde. Você até que é bonita para uma negra.

E o diretor aparecia em minha porta, censurando as meninas que eram pegas em festas sem nenhuma relação com a escola fazendo sexo oral em garotos. Aparentemente, isso era muito errado.

Mas nada disso era ouvido sobre garotos. Os deboches para o lado masculino, porém, também analisavam suas roupas e atos, numa escala menor. Riam de garotos com voz mais fina, mais sensíveis, que usavam cor de rosa, que gostassem de moda, que reparassem em moda, que chorassem, que não jogassem certas coisas, que não ficassem com várias garotas — como assim? -, que não fossem fortes. Eram chamados de viado. Aparentemente, os atos de alguém determinavam sua sexualidade.

Por vezes, eram chamados de mulherzinha. Não aja como uma garotinha, não bata como uma garota, não corra como uma garota, não grite como uma garota. Aparentemente, se parecer como uma mulher era uma ofensa terrível.

E então haviam os relatos de estupro. Violência doméstica. Assédio. Sexual, moral. Lei Maria da Penha.

As garotas estavam furiosas.

Os garotos estavam furiosos.

E o feminismo me fez ser atraída até ele. Flutuei até ele. Equidade. Sororidade.

Eu não estava louca. Se em algum momento fui abordada ou tocada quando não consenti, não era culpa minha ou de minhas roupas. Eu não estava louca, não estava errada quando me recusava a trocar de roupa por ser curta demais ou decotada demais.

Nasci num ambiente que me dizia com quais brinquedos deveria brincar. Que roupas deveria vestir. Como me portar. Eu via as mocinhas serem salvas pelos heróis e casarem com homens inteligentes e ricos, sendo felizes para sempre.

Mas também vi a moça negra que trabalhava na minha casa me confessar, baixinho, numa época em que eu ao menos prestava atenção no que acontecia ao meu redor, que ela morria de medo de ser estuprada. Vi minha mãe chorar porque minha tia-avó tinha sido morta pelo marido. Vi meus amigos rirem da garota que teve um vídeo íntimo solto da Internet. Vi a mídia toda se desabrochar para conseguir provar a todo custo que a menina estuprada por 33 homens era, de algum modo, culpada pela violência sofrida.

Eu chorei, me enfureci.

E me tornei mais forte.

Eu posso ser minha própria heroína, salvar a mim mesma e amar a mim mesma. Eu posso decidir o que quero fazer com meu corpo sem precisar sentir que estou errada. Eu posso não querer filhos, e está tudo bem. Posso não centralizar todas as minhas energias num homem, porque sou muito mais que isso. Posso e devo ser o amor da minha vida.

Qualquer um pode.

Nós vamos nos salvar. Juntas, vamos encontrar nossas vozes, e não aceitaremos, jamais, que nos silenciem novamente.

O feminismo me levou para todos os lugares, e me mostrou que todos nós temos espaço para sermos quem quisermos, sermos maravilhosos.

Minha mãe estava certa, apesar de tudo. Ser feminista é admitir que há algo errado. E não podemos nos manter calados diante do constante massacre da liberdade de nossas irmãs e, por vezes, irmãos. Não podemos nos resignar ao presenciar e ser vítima do desrespeito constante à força e dignidade da mulher.

Esse sexismo maciço, essa misoginia tóxica não têm mais lugar no mundo em que vivemos.

É hora de todos admitirmos que há algo errado. E, desta vez, vamos acertar.