Entranha II

Eu não queria, nem poderia. Evitar. “O tiroteio começou ontem e as pessoas agem como se já estivessem em guerra há muito tempo.” Eu não tive o cuidado de tirar a areia dos pés quando pisei o asfalto. Há muito tempo. A areia não era exatamente branca. Eu não tive o cuidado sequer de secar meus pés antes de sair. Antes do calor das pedras pretas subir mais do que o das pedras brancas, antes dessa ondulação térmica inevitável, desse desejo de agachar e sentir também contra as mãos, contra os panos que me cobrem, contra. O roçar de um jeans. Esse calor que incide de onde não se espera (ou não se deveria esperar, eles dizem.) Eles? Se é cinza, não. Hoje. Se é sem. Não diga o que falta, mas certamente você deveria olhar pro céu ao invés de se sentar como se nem soubesse discernir cor e calor. Você não conhece o aparato da câmara escura? Pois, veja bem. Aqui se situa um olho, lá uma imagem. Mas não é assim que se passa com a boca. As línguas não são assim (peixes). Se a calçada me convoca é porque hoje ela ondula mais. Por que você só fotografa em P&B se já estamos quase na década de vinte? E é como se eu nunca tivesse esperado por isso. Todas as imagens de praia são dos anos 1970, das dunas, dos cabelões. Pelas novas tecnologias da percepção, eu não esperei. As praias repletas de drones rondando as limonadas, o mate e sobretudo os híbridos. Meio a meio? Sim, sempre meio a meio, mas um pouco mais de limonada, por favor. Se tiver chorinho, sim (e isso só nos dias de semana nublados) é limão. Porque queima e quanto mais marcas melhor. Pra não esquecer. Perdoaria? Porque na década de setenta minha pele terá um gosto explícito de limão. Assim como a ausência implícita de qualquer sutiã branco de algodão. O cuidado sequer de fechar o biquíni molhado numa sacola plástica. Não tive. Evitar. Sair com um sutiã de algodão como se eu tivesse algum. Sair com um sutiã branco como se ninguém soubesse que nunca uso branco por baixo da blusa. A umidade da pele me forçou a carregar muito mais areia do que o previsto, do que qualquer outra sandália, qualquer outro tornozelo, qualquer que descesse da escada rolante pra esteira rolante até a pequena trava seguida de um empurrão contra a roleta. E mais um empurrão contra a roleta. As pessoas gritam “x” e levantam os chapéus. É inverno. Ou talvez lá seja sempre mais ou menos inverno. Eles não sabem de onde vieram os tiros. Já fazem 24 horas e o conflito continua. O jornalista repete o take quatro vezes até encontrar o tom adequado. Você me ensinou que a gradação é infinita entre os dois pólos. Mais ainda assim ando com um certo pavor de fixar imagens. Faço planos fixos até, mas só se for na hora do rush na Presidente Vargas. Até porque lá tem uma entranha. Eu não sei absolutamente nada sobre ela apesar dos cinco planos fixos, apesar das análises posteriores, apesar dos ajustes de brilho, contraste e até formato (que muda assim a natureza da coisa, tecnicamente muda, o software pode até nem reconhecer). E eu fico lembrando daquele dia ali mais adiante, quase de costas pra Candelária, que descemos aquelas escadarias suntuosas de prédio antigo. E até demos umas voltas no corredor oval. E até (porque?) esquecemos de olhar um céu que incidia através do vidro. E não nos demos conta de que a iluminação da cena era natural. O inverno se faz mesmo nas revoluções. Ou pelo menos parcialmente. Às três da tarde foi uma opção péssima e eu tenho certeza que olhar pra cima naquele momento teria mudado tudo. E depois que saímos ficou evidente que não deveríamos ter entrado. A não ser pela escada. Pela minha aptidão incrível pra descidas em espiral. Pelo piso gelado. O granito fresco é uma memória estranha ao centro do Rio. Mas você disse (com uma certa desconfiança, embora eu tenha tomado evidentemente como elogio) que eu sou estranha a mim mesma. E que talvez por isso fosse necessário uma fotografia a cada encontro. Já ampliei o seu rosto até desfazer os contornos, pra ver se você desconfia menos da ausência de contornos como da ausência de algodão. Até não crer mais nesse rosto, até não crer nos olhos puxados já sem voz porque no último encontro você não falou quase nada. Nunca imaginei. Embora é claro que o nada se amplia desde sempre.

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