sangre.
sangre.
Aug 23, 2017 · 2 min read

É que você foi embora e talvez nem saiba como é difícil cada recomeço que ensaio desde que eu te vi pela última vez.
Eu nem lembro ao certo quando foi, porque tudo o que fiz desde então foi tentar apagar cada memória dos dias e dias e 365 dias em que você esteve sobre mim.
Queria esquecer os gritos, os tapas, os socos. Queria esquecer os xingamentos, as desconfianças, o ódio disfarçado de amor.
É difícil cada recomeço. Cada recomeço em que acredito piamente estar mergulhando de cabeça sem te enxergar em meio às ondas que quebram.
Há dias em que eu quase não lembro seu rosto. Quase não lembro sua fúria, sua raiva, seu desespero em me jogar no chão, chorando agarrada aos meus próprios joelhos, faltando o ar do pulmão.
Mas mesmo nestes dias, eu quase não lembro. Ainda assim a sensação é vívida e me impede de mergulhar, por mais azul e transparente e calmo que seja o mar abaixo de mim.
É que eu tenho que lidar todos os dias com a quase memória. E as vezes ela dói tanto quanto doía a realidade.
É verdade, é um alívio indescritível saber que não te verei mais. E que suas mãos nunca mais me tocarão. E suas palavras nunca mais vão me ferir. Mas lembrança ecoa. As vezes ecoa mais do que minha própria mente.
E eu engulo seco, agradeço por você não existir mais.
Mas você quase existe, entende?
As marcas e cicatrizes estão aqui. E elas ainda pulsam. Ou quase pulsam.
O quase é, entende? Por mais quase que eu queira que seja.
E antes de você eu assistia "Brilho Eterno" achando um desperdício apagar da memória qualquer coisa que fosse. Antes de você eu pedia pra genética, pra maconha, pro universo permitir que eu lembrasse pra sempre de todos os detalhes da vida, até os mais sofridos.
Mas você é um desperdício maior. É uma dor maior do que qualquer outra que eu já senti. Desperdício é Brilho Eterno ser um filme. Desperdício é ninguém ter tentado criar aquele sistema que extrai da mente o que você escolher.
Não há nada que eu escolheria além de você. E eu quase choro quando penso nisso. Quase. Mas o quase é. Neste caso, seco. Passado. Abstrato.
Mas o abstrato é quase concreto.
E esses quases todos me dizem só uma coisa: eu quase me curei. Mas o quase é, entende?
O quase é o não disfarçado. O quase é o último passo antes de chegar no topo da montanha, mas é o exato momento em que os pés escorregam e, em uma fração de segundo você está de volta ao chão.

E tudo dói.

)
    sangre.

    Written by

    sangre.

    “Tudo o que você precisa fazer é se sentar em frente de sua máquina de escrever e sangrar.” - Ernest Hemingway

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade