Ficou um resíduo bem no céu da boca.
Acordei com a sensação de mastigar areia. Querer cuspir, mas seguir triturando os grãos com os dentes. Fazendo sinfonia com cada quebra.
Se eu cuspir agora, o que sobra? Se eu enxaguar a boca, se tudo sair por meus lábios pálidos, o que sobra? Vai sobrar saliva seca. Vai sobrar o vazio inquietantemente silencioso.


Ontem li sobre um experimento absurdo que fizeram na Rússia. Tão absurdo que nem me dei ao trabalho de saber se é verdade. Mas li, curiosa. 
Nele, soldados foram privados do sono com auxílio de um gás (e a promessa de liberdade caso aguentassem um mês sem dormir). Em determinado momento, a sala se põe em silêncio e os pesquisadores entram para checar. Os sobreviventes se mutilaram a fim de se manter acordados.


É por isso que eu continuo mastigando, apesar do incômodo — porque se eu parar, se eu escarrar, não me sobra nada. É como se eu dormisse em meio a um experimento em que meu objetivo é estar desperta. 
Me agarro a cada partícula de grão que preenche minha boca, porque cada partícula é um pouco do você que ficou em mim. 
Se eu cuspir, o que sobra? Se eu cuspir você não volta e eu fico sem você e sem a maldita areia que eu não aguento mais mastigar. 
É incômodo me ver tão agarrada às ruínas. Me sinto fraca sentada em frente aos destroços de construções que nunca nem passaram da fundação.

É que ficou um resíduo bem no céu da boca. E você já é sombra que caminha em outra direção.

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