Tenho escrito cada vez mais sobre vivências particulares e meus questionamentos/pensamentos sobre questões estruturais — que refletem na minha individualidade.

Ganho duas coisas principais com isso: o alívio, tanto o de colocar pra fora fardos as vezes mais pesados do que eu aguento sozinha, quanto o de perceber que me curei de algumas coisas. O outro ganho é dialogar com quem passou o mesmo que eu, ou sente o mesmo que eu, ou quer trocar sobre as relações que a gente vem estruturando enquanto sociedade.

Nesse caminho, uma das únicas coisas sobre as quais sempre evito escrever é a minha ansiedade e como ela me afeta profundamente em todos os âmbitos da vida.

Eu vejo que pouca gente que cruza minha vida entende de fato o que é ser neuroatípica com “transtorno” de ansiedade. Falando, soa como se eu fosse uma pessoa que fica muito eufórica quando algo legal vai rolar. Mas a ansiedade talvez seja o extremo oposto disso. É paralisante.

É sobre passar 16 horas rolando na cama, pensando em como eu sou um ser humano falho, insignificante, inútil. E, depois, me entristecer e me culpar muito por ter passado 16 horas de forma tão improdutiva.

É sobre achar que as pessoas estão loucas por gostar de você e que qualquer afeto é por pena. E esses pensamentos me fazem achar que não sou bem vinda de verdade nos afetos/lugares e que preciso trabalhar pra ser uma pessoa mais agradável. Só que essa sou eu. E isso, saber disso, me faz automaticamente afastar de todo mundo, porque eu fico achando que a rejeição vai vir hora ou outra, então mais fácil que eu finalize o laço.

É sobre, na véspera de algo importante, passar horas pensando em todas as formas possíveis de estragar o que vai rolar — porque obviamente eu vou estragar. Na esmagadora maioria das vezes, é pelo simples fato de eu achar que não sou competente pra nada, mesmo aquilo que eu sei, racionalmente, que posso fazer. Então eu desisto. Eu desisto de muito mais coisa do que eu faço de fato.

É sobre se sentir tão paralisada, que às vezes é difícil sair da cama. Sair do quarto é incrivelmente mais difícil. Sair de casa, as vezes, é impossível. Crise de choro, coração com taquicardia, medo do mundo.

É sobre pensar em tirar a própria vida porque é a única forma de silenciar uma mente tão inquieta, tão ensurdecedora.

Ansiedade é sobre ter uma mente auto sabotadora, que não se acalma nunca. Que te faz ter medo do mundo, das pessoas, dos afetos, de si mesme.

Te faz sentir pequene, sozinhe e perdide. E, se não bastasse, consegue fazer esse terremoto parecer o lugar mais seguro pra se estar.

Então, sim, não é fácil entender nada disso se você não conviver na pele ou muito perto de alguém assim. Mas empatia é um troço que funciona muito bem na prática. Se você tem algum conhecide, amigue, familiar, companheire, qualquer um perto de você que sofre de ansiedade:

Nunca ache que é um problema pequeno e facilmente resolvível.

Sim, as vezes você vai precisar jogar um pouco de confere na pessoa. Ela provavelmente passa grande parte da existência se auto denegrindo.

Sim, as vezes ela vai sumir e talvez seja muito funcional que você fale 'oi, sei que cê não tá bem, por isso sumiu, mas tô indo aí pra te ver”. Não é folga nossa, não queremos o centro das atenções. As vezes a gente não consegue levantar pra trabalhar, que dirá socializar.

Sim, a gente finge bem que tá tudo certo. Não vivemos em uma sociedade que aceita bem esses comportamentos atípicos. Dificilmente você pode falar abertamente pra alguém “então, tô tendo uma crise treta de ansiedade, podemos remarcar?” e a pessoa vai de fato te compreender, especialmente em compromissos mais sérios, tipo trabalho.

Então, o que eu queria dizer é uma mistura de desabafo com pedido: pessoas neuroatípicas funcionam diferente de quem não é. Os mundos, interno e externo, as vezes são hostis demais e a gente não sabe lidar da mesma forma com isso. Seria massa de todo mundo conseguisse entender ao menos o mecanismo — isso já ajudaria muito.