Eu disse obrigada ao Belchior.

Durante bastante tempo fui esperta para ganhar grana e burra para gastar (agora sou só a segunda coisa :-). Só isso explica que, mesmo tendo um trabalho legal e relativamente bem remunerado eu estivesse tão falida naquele fim de ano, há 8 ou 9 anos. Falida, porém com amigos. E foi uma amiga querida que me chamou para passar o ano-novo com ela e outra amiga em Brasília. Avisei que estava sem grana e ela: “não importa! Vem que a gente se diverte do mesmo jeito.”

O que é um pum para quem já está na lambança? Comprei a passagem no cartão e lá estávamos, eu e meu amigo Georges, a caminho do aeroporto, ele iria me deixar lá e ficar com meu carro no feriado. Georges com seu pé de chumbo. Meu carro sem IPVA pago há dois anos. E o guarda dando sinal para a gente encostar. O desfecho, embora hilário, não foi nada glorioso (nada mesmo), fomos liberados, mas cheguei atrasada. Tomei um chá de cadeira monstro até o próximo voo, mas quem estava no aeroporto? Belchior em carne, osso e bigode.

Esta é uma história que vai e vem no tempo, então, anos antes, bem no começo do século — é divertido falar assim — , eu havia comprado uma coletânea dele por uma merreca naquela loja de CDs que ficava (não sei se ainda existe) em frente ao cinema com nome de banco, na rua Augusta. Cheguei em casa, comecei a ouvir o CD e a me espantar. Espanto mesmo, só consigo pensar nessa palavra. Espanto de despertar pelos e arrepiar pensamentos.

Os diamantes de Belchior custavam merreca, prova de que a sociedade estava mais falida que eu. Considerando que a maioria das músicas que me despedaçavam (ou ampliavam), fazendo picadinho dos meus pensamentos tinham sido compostas já há muito tempo, concluí que Belchior nasceu muito velho e muito sábio. Minha música favorita, Coração Selvagem, já dava a letra das transgressões que ele cometeria depois, quando ficasse velho oficialmente: “andar no caminho errado pela simples alegria de ser”. Georges também ouviu o CD e chorou à beça: “puta merda, como a gente não conhecia nada disso?”

Bom, mas lá estávamos nós: matando tempo no aeroporto, sob o mesmo teto que o cara. Fiquei que nem aquele meme: “migo, me segura que eu vou falar com ele”. Na minha cabeça, só os versos mais fodas: “não quero o que a cabeça pensa, quero o que a alma deseja”, “pedirei para a vida, vida pisa devagar”, “eu era alegre como um rio, como um bicho, um bando de pardais, como um galo quando havia, quando havia galos, noites e quintais”. Ninguém me segurou e fui, para me arrepender instantaneamente quando me deparasse com o olhar sério, de “não me enche o saco”. A voz, a minha, no caso, que já é pequena, quase sumiu no diálogo mais minimalista possível: “só queria falar que adoro tanto o que você faz”. Ele: “legal”, sem um sorriso. Saí de mansinho, com uma palavra-lágrima entalada. Quando já estava a alguns passos, me enchi de coragem e… “Belchior, obrigada!” “Por quê?” “Por tudo!”

Agora sim, um ameaço de sorriso sob el bigodón. Agora sim, tinha dito o que precisava dizer.

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