Sem precisar uma única vez falar a palavra machismo e dizer muito sobre ele

Texto escrito por Maria Carmencita Job — idealizadora do projeto “As Vanessas” e ex aluna do Colégio Anchieta.

Só para deixar mais claro, abrir os olhos e mostrar o forte clarão de luz, que tem toda esta movimentação (sobre o shortinho) das meninas do Colégio Anchieta: o shortinho é um “signo” que anuncia todo este significado moralista, assimétrico e feudal de nossa sociedade. Ele simboliza esta quantidade de desvantagens que nós, mulheres, temos diariamente diante de TUDO! Por trás dele, há um campo de reincidências violentas que acontecem com as meninas no começo de sua sexualidade, identidade e corpo. É a violência emocional e diária que se inicia na educação, modelando seus hábitos e controlando a sua decência (status e medida adaptada pelo contexto cultural sobre o que é bom ou ruim dentro do meio em que se vive). No caso do Anchieta, junto de outras tantas escolas, preferiu adestrar meninas deste “certo, correto e bom” não evoluindo seu “status quo” exclusivamente masculino; já que hoje temos meninas, meninos, híbridos, gays, lésbicas e trans em seus corredores. Está é a real do mundo e é deste cenário que o "shortinho" provoca e evoca discussão. É neste plano que se discute sobre trocas saudáveis em uma educação mais igualitária, que estas meninas estão anunciando uma evolução! Porque a conversa sobre o shortinho é com a sociedade que privilegia os meninos e sobre como eles aprendem a sexualizar meninas no seu núcleo familiar, na escola e na rua. As bordas desta reivindicação são muito maiores que o tamanho do short, ou melhor, a medida dele fala mais diretamente da longa desvantagem feminina. Enquanto meninos saem da educação física sem camiseta, meninas são obrigadas a usar bermudas longas para não mostrarem seu corpo. E as que mostram, são chamadas de putas. Logo, puta é sinônimo de libertadade. O que me parece super pertinente a esta discussão também. É esta falta de flexibilização, que está por baixo deste engajamento feminino estudantil, havendo um grande entulho de pressupostos masculinos que perdem o poder ao ajustar a medida de um short, capiche? Já que o poder é normalizado masculino. Isso é fato! Mas estamos lutando para mudar tudo isso. E logo, poderemos adiantar mudanças significativas. Como mãe, mulher e ex Anchietana, apoio estas meninas com o meu corpo, discurso e coração. Pois todo corpo é mídia e suas regras são individuais. E abrir mão disso, é neutralizar identidades e empacotar discursos que precisam deste suporte (um short mais curto) para poder dizer a que veio. E este, foi o meio em que elas identificaram que poderiam ser percebidas — e merece todo respeito e atenção!

E mais: se você achou um absurdo a militância destas meninas estudantes, por causa de “apenas” o tamanho de um short, fique esperto amigX, você precisa olhar além do que se vê. Pois seu olhar está absolutamente cego de moralidades que não terão mais espaço. Vai ter revolução educacional sim, e esta foi iniciada por meninas! Aguenta firme ai, que vem mais chumbo feminino pela frente! Pois este "new conservadorismo" que se disfarça de “boa gente” não terá mais voz diante de shortinhos angajados! Vai nessa, meninas! Precisamos de mais mulheres como vocês, para mudar tudo isso de uma vez por todas!

Ao Colégio Anchieta, um aviso: vocês não são mais um colégio exclusivo de meninos, que incorporou meninas para desenvolver um modelo que ajuda a pensar. Vocês são e serão enquadrados pela história de meninas militantes no colégio, que no ano de 2016, tiveram a coragem de lutar de forma coletiva, sobre igualdade de gênero na escola. Quer vocês queiram ou não, está marcado na história do colégio de forma nacional. Agora, o que vocês vão fazer com esta marca provocada por suas alunas? É facil: igualdade de condutas e hábitos para todos! Pois o que havia antes desta movimentação não volta mais!