Tudo bem sentir saudades
Luma e Eduarda Santos Pereira, a Duda, viveram uma história de amor de cinema. Cinema lésbico, no caso. Eram melhores amigas na adolescência. Se falavam 24 horas por dia, mesmo quando não falavam nada. É verdade: chegaram ao ponto de dormir com a webcam do MSN ligada diversas vezes. Quando isso não era possível, se telefonavam e conversavam até adormecer — com os fones de ouvido arrombando as orelhas. Alguém sempre dormia antes, o que deixava uma respiração profunda de brinde para a pessoa do outro lado da linha. Aquele som era quase tão tranquilizante quanto Rivotril.
A verdade é que desde a primeira conversa, não foi só amizade. É engraçado o quanto elas demoraram para assumir o que sempre souberam. Engraçado talvez não seja a palavra certa, afinal, se não houvesse tanta repressão e preconceito, essas meninas não teriam se machucado tanto. Vocês têm noção do que é amar alguém e sentir raiva de você mesma por isso?
Foram mais de cinco anos para o primeiro beijo acontecer. Eu deveria mentir só para manter o romance e dizer que foi tudo perfeito. Pelas barbas do profeta! O beijo foi tão ruim que naquele momento pareceu sensato ter esperado tantos anos. Inclusive deveríamos ter dobrado a meta de anos quando atingimos a meta.
O engraçado (e isso sim é engraçado) foi que tinha tudo para ser perfeito: Já com a intenção de se entregar, Luma tomou uns goles de coragem, vulgo cerveja, e seguiu dirigindo de madrugada até a casa da Duda. Provavelmente estava tocando Big Girls Don’t Cry da Fergie na rádio. Era o hit da época. Elas eram tão caras de pau e ao mesmo tempo tão covardes que cantavam a parte “Yes you can hold my hand if you want to
’cause I wanna hold yours too” se olhando e sorrindo. Meu cu, que cafona.
Bom, Luma chegou, ligou para a Duda e disse “desce”, com um tom decisivo. A Duda já sabia do que se tratava pois nem de roupa trocou. Desceu correndo, descabelada e vestindo pijamas. Eu adoro falar pijamas ao invés de pijama. Pijamas pijamas pijamas pijamas pijamas pijamas.
Luma dirigiu descontroladamente (como de costume + como de desespero) e estacionou em um ponto alto da cidade que elas chamavam de ‘mirante’. A vista era incrível (apesar de que passei por lá esses dias e vi que não tem nada demais apesar de ter), a noite estava estrelada e as cores todas faziam sentido. Luma tirou seu próprio cinto de segurança, em seguida tirou o de Duda e então experimentaram o tão esperado pesadelo: os dentes bateram tanto uns nos outros que acabaram comprometendo toda arcada dentária de ambas. Não fique triste, depois de uns três anos, o beijo finalmente encaixou.
Vocês não teriam paciência para ler tudo o que aconteceu nesses dez anos. então vou pular para meu objetivo pois não sou obrigada. Meu ponto é: tudo bem sentir saudade. Isso não significa que você quer voltar para a pessoa. Isso não significa que vocês devem se afastar ao ponto de se bloquearem de tudo — já que agora vocês namoram outras pessoas (?). É tão bom relembrar histórias antigas, dar risadas de um beijo merda ou de todas as loucuras feitas e de todas mentiras contadas para poder viver o primeiro amor.
Hoje, 2016, Luma e Duda namoram com outras pessoas, moram em cidades diferentes e são bloqueadas de tudo (aquela típica atitude de pessoas que se odeiam, apesar de não se odiarem). Para completar, a namorada atual da Duda bloqueou Luma. Por que odiar tanto a ex ou a atual de alguém? Alguém que você não conhece, alguém que você nunca nem viu e que nunca interferiu no seu namoro? Por que é tão difícil manter o carinho, a consideração e a amizade pelas pessoas que só te trouxeram amor?
Eu olho para essa história e só sinto tristeza. Porque vejo centenas de pessoas que odeiam ex ou a ex de alguém. Talvez seja o ciúmes que traga tanto ódio em (ex) relacionamentos amorosos. Se as pessoas soubessem que, por ciúmes, acabam propagando uma enorme quantidade de ódio por aí, se esforçariam um pouco mais para melhorarem. Se você ama tanto uma pessoa, qual a explicação de construir tantos muros ao redor dela?
E como se romper relações não fosse suficientemente absurdo, vejo namorados fuçando celulares , pedindo explicações como “por que você está online no whatsapp? Com quem você está falando?”, ou jogando fora lembranças do passado quem nem são suas. Controlar quem você ama não segura namoro nenhum. Tente controlar você mesma. Quem sabe assim você aprenda a viver com mais tranquilidade.