Panem et circenses

Still do TV Spot de “The Hunger Games: Mockingjay — Part 2”

Todo mundo que leu ou assistiu a Jogos Vorazes irá te dizer, empolgadamente, que é um “must read/see”, e que você não pode deixar passar. Mas o que torna a obra criada por Suzanne Collins uma obra fundamental na vida de alguém? O banho de sangue dos jogos ou a crítica social brilhantemente construída?

A interpretação distorcida da história criada pela autora na mente dos consumidores acontece há um bom tempo, mas devemos questionar até que ponto eles enxergaram e absorveram o que, de fato, ela almejava alcançar com seus pensamentos.

Quando falamos de marcas como Hunger Games, sabemos que o brand equity, ou seja, seu valor de uma marca ou grau de lembrança, assim como a fidelidade dos consumidores para com o produto oferecido é estratosférico. Por exemplo, o pin do tordo, símbolo das classes trabalhadoras e da rebelião contra o elitismo, é distribuído em cinemas por todo o mundo junto com o combo da sua pipoca, ou você pode simplesmente comprar por cerca de R$30 na internet. Dito isto, os valores atribuídos a esta marca são fenomenais: foram vendidos mais de 24.000.000 exemplares apenas nos Estados Unidos, e a bilheteria foi contabilizada em cerca US$100.000.000 na semana de estréia. Sem falar nas camisetas, fantasias e action figures que vendem como água ao redor do globo.

Obviamente não é errado almejar lucro através do produto oferecido, mas quando o consumidor começa a desvirtuar a verdadeira essência da obra criada por Suzanne, nos encontramos diante de um grande problema.

É válido citar que a história é ambientada de acordo com a política de pão e circo implantada pelos romanos, na época dos gloriosos gladiadores; nela o governante irá oferecer a sociedade governada, que está com sérios problemas (como inanição, saúde precária e falta de saneamento básico), alimentação e entretenimento para que os governados não se revoltem contra quem os desumaniza. Veja só, não é isso o que o presidente Snow faz em Panem?

A Capital criada pela autora não é nada mais que uma crítica social com um visual exagerado da nossa sociedade. Ela quis retratar nossos maiores defeitos, como o conformismo, o consumismo e a futilidade. São personagens que possuem pouquíssimo senso crítico e que ignoram o que está acontecendo a sua volta, como o início de revoltas populares, a desnutrição e as péssimas condições de vida de muitos distritos.

Enquanto terríveis embates acontecem diariamente ao redor do mundo, como as revoltas de Ferguson, revoltas na Austrália e o movimento iniciado pelas meninas da Pussy Riot na Rússia, o que a maioria das pessoas que você conhece fez ou falou? Sobre os movimentos ou sobre outros assuntos? Quantas pessoas você conhece que realmente se engajaram nos tópicos citados?

Será que aqueles que estão diretamente associados com a produção e com o desejo implantado no público que irá favorecer o culto ao que é oferecido, compreendem a essência do que eles possuem em suas mãos? Do valor arrecadado, quanto foi doado para causas endossadas durante a trilogia, como países com revoluções civis, desnutrição e péssimas condições de trabalho? Nada. A Lionsgate, na verdade, convida você para doar US$5 para a causa apoiada pela World Food Programme e Feeding America.

A obra é extremamente densa e bem elaborada, é uma distopia. O objetivo principal do gênero é alertar a sociedade para o que está acontecendo a sua volta, e se analisarmos com olhos críticos, a sociedade em que vivemos é a Capital governada por Snow. Nossa mente e a forma com que lidamos com as coisas ao nosso redor não é algo preto no branco, é colorido e abstrato. Somos fúteis, vaidosos e consumistas, mas não somos tão conformados assim, e muitas vezes tentamos fazer algo, mas somos resilientes o suficiente para aceitar viver no ambiente que sofre mudanças das quais desgostamos.

Se encararmos o mundo e todos os seus países, quantos dos bilhões de habitantes ainda vivos se rebelaram, de fato, contra seus governantes? Agora considere apenas os habitantes que cultuam Jogos Vorazes e que dizem que Katniss é quem eles são, a verdadeira inspiração deles, quantos são? Apenas alguns habitantes da Tailândia que levantam três dedos, assim como os habitantes de Panem ao apoiarem Katniss durante a revolução, contra seus governantes. Hoje em dia o símbolo é proibido dentro do país, que sofreu ameaças de protestos de estudantes contra o golpe militar.

Felizmente não somos obrigados a viver com o peso dos jogos vorazes (ou com o massacre quaternário) e com as conseqüências que ele traz para o dia a dia da sociedade. Ou será que somos e não temos consciência disso? Mas, vamos voltar a nos preocupar mais com quem é o mais bonito, se é o Peeta, Gale ou Finnick, e ignorar a crítica social de Jogos Vorazes.