Estátua de Karl Marx em construção em Berlin.

Ontem tive um pesadelo. Sonhei com uma Maria Clara um pouco mais velha, lá pelos 30 anos, mais segura. Eu carregava uma menina de cerca de 3 ou 4 anos nos braços, enquanto esperava por um menino no meu ventre, já com 3 ou 4 meses de gestação. Estávamos arrumadas, eu e minha filha, como se estivéssemos indo para uma festa de gala. Parecia uma premiação ou algo do tipo. Ela se apoiava no meu ombro, com as pernas entrelaçadas em mim, enquanto eu a segurava no braço direito. Esperávamos por um você, que eu sabia que era você, mas que não conseguia de alguma forma recordar a aparência. Tudo o que eu conseguia enxergar era seu terno, mas seu rosto estava nublado, embaçado, embora eu soubesse que era exatamente você.

Acordei assustada e com vontade de chorar. Derramei tudo o que podia de mim e me esgotei falando de você para meus amigos. Esse sonho, em algum outro momento do passado em que eu achava que você era o meu você, seria a definição do futuro que discutíamos com entusiasmo. Hoje, é um pesadelo assustador. Não que sua ausência me cause dor, mas a ausência do você projetado me consome. Não consegui identificar seu rosto no sonho e penso que não conseguiria mais te enxergar nos seus traços. Porque o você de quase 8 anos atrás não existe e possivelmente nunca existiu para além da minha mente.

O processo de enxergar-se só tendo companhia física é, para além de doloroso, a entrada de um buraco negro pessoal. — Arte por Fábio Laoviahn.

Embora eu seja feminista e critique o conceito de amor romântico, é muito difícil me livrar dele em certas relações. Eu penso desde pequena em ter filhos, pencas deles. Não necessariamente com um homem, não necessariamente com uma mulher. E, lá no fundo, a ideia do envelhecimento acompanhado com afeto pelo outro, o alvo do meu desejo, sempre me encantou de alguma forma. Como te conheci adolescente, com meus 15 anos, e ao longo das estradas fui nutrindo uma admiração um tanto quanto descabida (coisa que só vejo hoje) pelo você do colégio, pelo você de 18 anos, pelo você que me resgatava das aulas chatas e era meu melhor amigo, além de um ótimo “ficante” (quem nunca usou esse termo nos anos 00 ou 10?), de alguma forma te considerei uma utopia agradável, desejável e sedutora. Não que eu não tenha amado outros e outras no percurso, pelo contrário: me apaixonei de corpo, alma e células por pessoas não superadas até hoje — e tendo a achar que o você da minha mente vai entrar para esse hall triste e empoeirado do meu cérebro. Mas você, em toda minha maquiagem e ideia adolescente, era o que me parecia como o “cara mais legal” e meu refúgio em uma época em que eu era feliz, verdadeiramente feliz.

“- Qual parte te dói?” “- A realidade.”

Desde nosso reencontro, várias bandeiras vermelhas apareceram, mas de certa forma eu as ignorei. Enxerguei suas mentiras como medo de me magoar, não como uma forma de manipular a realidade e, principalmente, a mim. Você, afinal, era a realização de um sonho. Meu abraço cabia perfeitamente no seu e nossos corpos encaixavam de um jeito que só o jogo Tetris explica. Todas as fantasias do colégio e o grau de inocência da época foram aflorando em mim e eu me vi cada vez mais envolta da nuvem cor-de-rosa que se formou ao nosso redor. Aos olhos do mundo, viramos a referência de um casal saudável e apaixonado, como me disse por esses dias um amigo meu. Nosso fim, aliás, chocou quem não nos viu de perto (ou como éramos realmente). Nossas viagens de carro para outro estado e de avião para outro continente, nossas fotos, nossas declarações públicas escreviam uma história linda, mas feita de areia. Aos poucos, fui descobrindo que aquele rapaz havia sumido em algum lugar do tempo — ou talvez não tenha existido.

O espectro do afeto hoje não passa de algo enevoado e embaçado. — Arte por Fábio Laoviahn.

O platonismo que senti, e ainda sinto, por você já foi estudado de diversas formas, mas nunca o senti tão palpavelmente como agora. O você que se revelou me causou tanta repulsa que eu pouco sei o que fazer de agora em diante. De todas as situações que passei na vida, nunca imaginei amar alguém que é só um espectro de projeções afetivas. Disse ontem a um amigo que sinto como se carregasse um baú muito, muito pesado, que guarda o meu afeto por você, e eu simplesmente não faço ideia de onde depositá-lo. Veja, eu tenho medo do você real. Não medo de que cause mal ao meu corpo ao até minha morte, porque você, como bom manipulador, é passivo-agressivo. Meu medo se encontra nas suas palavras e métodos de mudar meu pensamento, alterar minhas memórias e fazer com que eu sinta que tudo o que ocorreu de mais terrível nesses meses, desde festas perigosas, drogas, mentiras até surtos perigosos e abandonos com perigo real a minha integridade, foram completamente culpa minha. Meu pânico de você se encontra em como você me deixou, semanas atrás. Na madrugada de domingo, enquanto eu estava em uma observação eterna num hospital, ironicamente pertíssimo da sua casa, senti que minha mente tinha dezenas de camadas e que, lá no fundo, eu ia enxergar o que ainda não tinha conseguido sobre mim e, sobretudo, você. Foi um processo desesperador. Quando finalmente recebi alta e fui para casa, me apoiei em um dos móveis do meu quarto e chorei com a mão apertando a barriga: tinha algo sendo arrancado de mim e eu não sabia se continuava a te procurar. Procurar pra quê, por quê? Há semanas eu te buscava por algo que eu não conseguia achar entre suas palavras e a conversa era sempre a mesma: eu esperando empatia e você, bom, não sei o que você busca. Pouco te conheço.

Hoje, me enxergo em uma dúvida incômoda, mas que consigo colocar em um canto na minha mente na maior parte do dia. Como se simula um pseudo-afeto? Como alguém alimenta o próprio emocional de ilusão? Qual a vantagem real de criar laços teoricamente afetivos quando sua pretensão verdadeira é uma incógnita?

O homem projetado de outrora fica suspenso no imaginário, por tempo indeterminado, enquanto se aguarda a superação.

Aceitei que te criei para saciar fantasias conscientes e inconscientes e, nesse processo, esqueci de focar na distância que você estava do meu objetivo afetivo. Compreendi que o medo da sua ausência é descabido, porque você não existe. Lembra dos meus pesadelos de te perder, quando eu sempre acordava chorando e te abraçando? Eu acreditava estar abraçando alguém que não estava ali, mas que morava nos meus sonhos bons e também nos ruins, como o do pai das crianças que a Maria Clara do futuro teve e também como os que eu te perdia das mais diversas formas. Você não preencheu lacunas em mim porque você simplesmente não existia no formato em que eu te imaginei. Meu mal foi ter escolhido para meu platonismo alguém que se utilizaria dele para benefício próprio, para sugar todo o amor possível com o único intuito de simplesmente ter alguém ali. Enxergo minha responsabilidade em ter permitido isso, desde o primeiro mês e a primeira mentira. Aceito e estou em processo de perdão, não para você, mas para mim mesma. Perdão por ter me submetido às dores na autoestima, às trocas, às companhias tóxicas. Quero me dar perdão por não ter fugido do você da realidade quando eu ainda era inteira e só tinha algumas rachaduras. Digo isso porque hoje não me vejo mais uma peça única, mas sim alguns destroços que, com o tempo e restauração, funcionarão novamente, mas com o fardo do platonismo pesando nas engrenagens. Infelizmente, dentro do amor romântico que acorrenta mulheres a sonhos utópicos, me vejo amarrada por tempo indeterminado no afeto que desenvolvi pelo você ilusório.

Além de ser um medo, você se transformou em um mistério que eu espero que, um dia, a ciência consiga desvendar.

(Escrevo a carta direcionada a você não porque acredito que lerá. Sei que isso não vai ser lido pelo alvo exato, mas escrever dessa maneira me ajuda a compartilhar o peso com uma página em branco. E, sendo franca, escrevo também porque minha psicanalista jurou que seria bom para mim. Obrigada, Dra. Lúcia.)

Para Felipe.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.