#SetembroAmarelo: E se a dor não passar? — por Maya Falks

Em setembro de 2011 eu morava sozinha em outra cidade e via meu mundo desabar cada manhã, quando eu chegava no trabalho e minha pauta estava cheia de Jobs desconexos e sem informações. Eu sabia que meus colegas tinham se reunido no dia anterior em um happy hour em que eu nunca era convidada porque eles se convenceram que eu era afim de um deles, e ele não queria correr o risco de ser pressionado a ficar comigo porque imagina o horror, ficar com a gorda. Por isso fui devidamente isolada da “panelinha”, que por acaso, era toda a equipe de criação da agência.

Bom, eu não queria ficar com ele.

O problema é que todo mundo lá, naquela empresa, era suficientemente apaixonado pelo trabalho para falar nele em um dos bares da região bebendo caipirinha, e era o que acontecia com frequência. Eu não me importava; era a única da equipe que morava sozinha e tinha minha casa pra cuidar, só que como eles falavam de trabalho, seguidamente eles chegavam à agência na manhã seguinte com as campanhas prontas, sem que eu tivesse qualquer chance de contribuir. Além da minha não participação em nenhuma criação — o que, além de ser perturbador pra mim como criativa, ainda chegava aos ouvidos da chefia como ineficiência minha mesmo — ainda a informação sempre vinha incompleta e eu não conseguia produzir os textos corretamente.

Nessa altura, um dos sócios da empresa ignorava que trabalhávamos com capital criativo e contabilizava tudo em números, então, cada vez que eu precisava refazer um texto, isso era contabilizado como prejuízo da empresa — como se eu tivesse produzindo um produto ruim que precisava ser descartado gerando perda de matéria prima. Então, cada vez que eu abria minha pauta, eu estava ciente que eu perderia mais pontos com a diretoria e isso estava me levando diretamente para o abismo depois de um ano dando meu sangue pela empresa, depois de ter passado meses atuando em duas atividades que me tiraram as férias, os finais de semana e as noites.

Naquela sexta-feira de setembro, eu estava emocionalmente destruída pelo meu isolamento e pela noção de que meus números eram ruins e isso estava me levando à ruína. Foi quando resolvi pedir pra conversar com os dois sócios. Pouco tempo antes ambos eram amigos pessoais, de sairmos juntos na noite da cidade, passearmos nos fins de semana, sairmos para jantar. Àquela altura nada disso mais acontecia e eu nunca soube o que houve para eu subitamente me ver completamente sozinha na empresa.

A reunião foi a pior escolha que fiz na vida. Ambos sócios me olhavam com expressão de raiva que eu jamais esperava encontrar no rosto de amigos pessoais pelos quais me doei tanto — muito além de minhas obrigações laborais. Nenhum dos dois deu qualquer esclarecimento sobre isso, e eu estava suficientemente vulnerável para não perguntar. Tentei dialogar, falei que estava com problemas emocionais e o que tive de retorno foi desprezo e ameaça.

Sim. Ameaça. Justamente o sócio que era mais próximo de mim até um mês antes me deu um ultimato. Eu teria aquele final de semana para criar uma campanha inteira sozinha para um cliente que estava sendo prospectado e uma ideia para o site da agência; se meu trabalho não fosse satisfatório e fosse inferior a outra profissional que eles haviam contatado por fora, eu estaria na rua.

Imagine a situação: você se reúne com seus chefes, informa que está sendo boicotada pela equipe e que está enfrentando problemas emocionais e eles te devolvem com um desafio com ameaça de demissão. Sucumbi. Óbvio.

Durante a tarde de sábado, tomada de um desespero indizível, me vi totalmente sem condições de criar a campanha que poderia salvar minha pele ou me jogar nos braços do desemprego. Então tomei rivotril. Mas eu não tomei um rivotril, eu tomei uma caixa inteira.

Não, eu não queria morrer. Pensamentos suicidas são comuns na minha rotina e tanto o suicídio quanto a morte por outros meios são temas corriqueiros na minha literatura, mas eu não queria morrer, eu não tomei uma overdose planejamento me matar. Quando o rivotril começou a me relaxar e eu me senti mais calma, percebi que tinha feito bobagem. Morando sozinha em outra cidade, me vi perdida sem saber o que fazer, então liguei para um amigo, que atravessou a cidade em minutos para me buscar.

Quando ele chegou, eu estava sentada na calçada sonolenta. Meu amigo que me levou pro hospital conhecia meu histórico de depressão e acreditou se tratar de uma tentativa de suicídio. Como eu estava sob efeito de rivotril, minha língua enrolava e ninguém entendia o que eu tentava falar, então o que ficou foi: ele foi na minha casa me pegar pra ir ao hospital depois de tomar uma caixa de rivotril. Tentativa de suicídio óbvia.

Não condeno que achassem que tentei me matar embora não seja verdade, o problema é que descobri na pele como funciona o tratamento que se dá a suicidas em um hospital. Enquanto eu sentia o desconforto da sonda enfiada pelo nariz até o estômago fazendo lavagem estomacal, eu percebia os olhares de nojo e desprezo por parte dos profissionais do hospital, o que é estranho por se tratar — até onde eles sabiam — de um ser humano em intenso sofrimento psíquico a ponto de optar por interromper sua vida.

Ai final da lavagem, fui deslocada para um setor isolado da enfermaria e sedada para não dar problemas, e eu sequer podia contar minha versão porque a sonda me impedia de falar; ali eu era só a mimada mal agradecida ocupando um leito em uma enfermaria cheia de gente que não estava ali por escolha própria (como se eu estivesse). No começo da tarde seguinte eu tive alta e, com dor na garganta, no corpo e na alma, fui pra casa criar uma campanha. Segunda-feira, fui à agência tentando disfarçar minha alma despedaçada e apresentei minha proposta. Aos risos, um dos sócios me confessou que não havia a outra candidata prestes a roubar meu emprego e que nada do que eu fiz seria útil porque ele me passou as informações erradas.

Saí da sala de reunião em pedaços. Chorando, confidenciei a uma colega (que eu levei anos pra entender que ela não valia nada) minha pequena aventura hospitalar, mostrando a ficha do hospital que dizia que eu tinha tentado me matar. Eu só fui descobrir uma semana depois, mas a história se espalhou na agência. A partir do dia seguinte, a hostilidade dos meus colegas beirou o insuportável de as pessoas ignorarem deliberadamente minha existência, passamos por uma reunião criativa onde sempre que eu falava era interrompida como se não estivesse lá e nem a apresentação do meu trabalho conseguia fazer porque ninguém dialogava comigo.

Lembro que cheguei a ficar paranoica a ponto de ligar pra minha mãe e perguntar se ela de fato me ouvia, porque a impressão que eu tinha é que eu tinha de fato me matado e as pessoas simplesmente não estavam me vendo porque eu era um fantasma.

Na quarta-feira, um dos sócios me chamou e pediu que eu tirasse o resto da semana de folga, porque a situação na agência como um todo estava insustentável e era óbvio que eu entraria em colapso a qualquer momento. No mesmo dia voltei à cidade da minha família e fiz um intensivo com meu terapeuta. No domingo voltei pra casa fortalecida e disposta, planejava inclusive convocar uma reunião com meus colegas para termos a possibilidade de conversar abertamente e esclarecer tudo, para que pudéssemos pelo menos manter um relacionamento profissional.

Segunda-feira eu era outra pessoa. Com meu melhor sorriso, escolhi uma roupa bonita, me maquiei e fui ao meu trabalho determinada a dizer que o pior passou e eu estava pronta para um belo e triunfal recomeço. O que eu não sabia é que eu teria que encontrar um recomeço de verdade, porque ao entrar na agência, me deparei com outra pessoa sentada em minha mesa.

Sim, exatamente isso. Fui demitida naquela manhã. Um dos sócios, visivelmente constrangido pela noção do tamanho da canalhice que estavam fazendo comigo, comentou que a história da minha suposta tentativa de suicídio assustou o pessoal, por isso eles optaram pelo meu desligamento. Na hora eu não consegui reagir a isso porque eu só chorava e não conseguia falar, mas até hoje, 5 anos depois, fica martelando na minha cabeça que eles me jogaram no olho da rua porque o pessoal ficou com medo da suicida. Se eu tivesse de fato tentado me matar na semana anterior, eles, por medo de testemunhar minha morte, estavam me dando um forte motivo para provoca-la.

Como no dia da overdose, fiz muita bobagem motivada pelo desespero, mas sem nenhuma intenção de morrer. Misturei rivotril e vodka durante praticamente toda aquela semana, ficando mais fora do ar do que sã — e isso me causou 4 pontos na mão tentando cortar uma cebola completamente chapada (sim, rivotril com vodka dá uma merda desgraçada, não tentem isso em casa).

Mas eu sobrevivi. E não sobrevivi apenas à overdose acidental e ao rivotril com vodka. Como diz o ditado, eu sobrevivi a 100% dos meus piores dias, e posso garantir a vocês que essa semana que descrevi nesse texto gigante não foi nem de longe minha pior semana. Enquanto eu tentava sobreviver à perda do emprego que eu amava, eu perdi meu melhor amigo (recuperei depois) e minha avó que era uma segunda mãe pra mim (essa não tinha volta mesmo). Eu sobrevivi a violências que prefiro não mencionar, eu sobrevivi às humilhações de uma sociedade que não suporta pessoas como eu, eu sobrevivi a várias depressões incluindo uma profunda em 2009 que me transformou em um zumbi ambulante.

Eu sobrevivi ao assédio moral em um emprego onde fui diariamente torturada psicologicamente, eu sobrevivi às crises e automutilações, sobrevivi à solidão, isolamento, desencaixe. Sobrevivi ao desemprego, eu desespero, à falsidade, às facas nas costas. Sobrevivi ao ódio gratuito, ao nojo e desprezo, sobrevivi à indiferença. Sobrevivi à dor física e moral, às visitas ao inferno, aos curativos, aos pontos, às amnésias, ao rivotril, a toda química que deixei invadir meu corpo, sobrevivi aos gritos ensurdecedores da minha própria cabeça atentando contra a minha vida.

Sobrevivi. Sobrevivi pra contar porque foi pra isso que eu nasci: pra contar histórias. Eu não poderia deixar esse mundo sem te dizer que sua dor não é só sua, que você não está sozinha, que por mais que pareça que ninguém te entende, nesse exato momento milhares de pessoas estão passando por exatamente o mesmo vazio que você.

Sobrevivi pra te dizer que você não é louca, você está doente e, com o cuidado certo, o sol vai voltar a brilhar. Eu sei que vai. Eu afirmo que vai, porque eu sei exatamente como você está sentindo e eu sei exatamente como essa história termina. Eu não tenho um final feliz de conto de fadas pra te presentear, mas eu posso te garantir que essa dor vai passar sim, e vai valer a pena ter sobrevivido.