Me conta

Dos dias cinzentos quando você era criança e gostava de brincar com revistas que continham cifras do Raimundo Fagner mas você gostava mesmo era daquela revista caída aos pedaços com a letra de “Morango do Nordeste”.

Me conta que você plantava moedas, porque genuinamente acreditava que tudo que se punha na terra se crescia, me conta do Umberto o feijãozinho que você plantou no algodão e chorou quando ele não sobreviveu.

Não exite em me contar que se enxerga na Jenna Rink chorando no armário ao som de Vienna do Billy Joel aos seus 30 anos, mesmo que você tenha 20 e poucos.

Eu realmente aprecio o que eu conheço, então:

Não pense que eu não vou gostar de saber que você detesta a pelezinha da gelatina , que gosta de pelúcia, que ama a cor do céu quando está pra anoitecer e foi um dia ensolarado, aquele azul cintilante imenso que te remete a uma lembrança que você nunca viveu mas tem carinho.

Deixa eu saber que teu chá favorito é de baunilha e você detesta o gosto do ultimo café que fica na xícara porque acha que tem todas bactérias juntas fazendo uma festa no açúcar.

Fala pra mim da tua infância na Argentina e solta entre uma história e outra, que alfajor é teu doce predileto.

Me conta das noites de insônia que você aprendeu francês, recita uma receita de nega maluca em alemão pra mim, me diz quem é que te ensinou a velejar, andar de bicicleta ou de bambolear, eu gosto.

Eu aprendi a amar o que eu conheço, então:

Me diz deitada no travesseiro, olhando no meu olho, na penumbra do meu quarto que tem medo de dormir com os pézinhos pra fora até hoje e por isso dorme de meia sempre.

Deixa sua mãe me contar as peripécias da pequena-você, me mostra essas peripécias fotográficas, deixa eu saber que seu primeiro cachorro se chamava Fuscão e você fez questão de enterrar ele no seu quintal, com cerimonia e tudo.

Me conta, não exite, eu realmente aprecio, não pense que não vou gostar de saber, fala pra mim!

Eu amo apreciar tudo o que eu conheço, então:

Deixa eu te conhecer.

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