Conto 1 — Diálogo com a MORTE

Às horas não importam, terça-feira se não me engano, calendário nesta casa deixou de existir faz um tempo. Nunca mais vi meu rosto refletido no espelho, nem quero. Talvez o espelho roube minha alma, assim como o vício da bebida. Resolvi sentar à mesa, comecei uma conversa fora do normal, sentar é difícil quando você apenas não sabe dizer as palavras certas para si mesmo.

Uma mesa velha, cheia de mofo. Peguei a velha e única cadeira que restou na mesa, puxei-a, ruídos saiam dela, sentei desconfortavelmente, se eu respirasse mais um pouco, ela quebraria e partiria minha coluna ao meio. Olhei toda aquela cozinha, durante tanto tempo me escondi dentro desse vazio cheio de plurais, as panelas estavam chegando aos seus duzentos anos, um buraco crescia entre a janela e a parede, tantas incertezas entusiasmaram minha vida ao longo do tempo.

Perdi meus filhos, esposa, amigos e até os inimigos. Quem pode viver dessa forma? apenas um velho com noventa e um anos, que viveu tão intensamente e teve o azar de sobreviver ao tempo. Essa mesa, foi meu lar. Bebi todas as noites em cima dela, chorei. Faltou comida, abraços e carinho.

Porém, faltou-me a decência de pedir perdão a todos do meu passado. Deixe que a bebida entrasse pela porta, assim foi, destruindo minha família, meus amigos, meu trabalho, convívio. Até as ilusões me foram tomadas, o peito cheio que carreguei, foi esvaziado com cada gota do álcool que espalhei pela minha boca, alma e coração. Tornou-se a porta para o meu próprio fim.

obs: vou disponibilizar alguns “contos” que fiz faz uns tempo.

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