Dos amores que passam.
Cidade do Recife, 31 graus. Não estava uma manhã exatamente agradável, o ônibus balançava muito e o meu meio café da manhã embrulhou inteiro no estômago.
Seria mais um dia de trabalho, como outro qualquer. Até que você subiu no ônibus. Meu ônibus. Tudo bem, não é meu, mas é o ônibus que eu pego todo dia, nesse mesmo horário. Que enjoo o café da manhã, em que ouço Emicida no fone de ouvido. A cobradora quase me cumprimenta. Aqui é meu espaço, não é o seu. Mas você subiu no ônibus que era meu, sentou lá na frente, da forma mais egoísta que poderia: onde não conseguia me ver, mas eu via você.
Sua nuca loira estava exatamente igual. Quando olhei seu rosto, fiquei em dúvida, mas ao ver sua nuca te reconheci. Teus cachos caídos no rabo de cavalo, não mudou nada desde a sétima série. O jeito de passar a mão no pescoço e inclinar a cabeça para refletir. Quantas vezes não imaginei ser dono do teu pensamento e das tuas ideias de menina. Me peguei, no ônibus que balançava muito, querendo devorar teus pensamentos de mulher.
Desceu duas paradas depois. Olhou, mas não me viu. Me encarou e não me reconheceu. Sorri sozinho e lembrei dos bilhetes que colei no teu caderno, aqueles que você jamais adivinhou o autor. Você parecia sempre ocupada, agora no ônibus e também na sétima série da escola. Acho que nunca teve tempo de sobra para se apaixonar. Só os desocupados é que amam, minha tia me disse. Acho que ela tem razão.
Tive vontade de descer, te chamar pelo nome — Clarissa dos Santos, número 7 da chamada. Jamais esqueci. —, te contar dos bilhetes. Fiquei de pé, ainda, acho até que uma sílaba saiu da garganta.
Mas fazia calor, o meu meio café da manhã revirava o estômago e não era uma manhã, exatamente, agradável. Você passou. De novo.