Eu cresci com um bumbo no peito, uma sombrinha girando, um clarinete furando o ouvido. Minha vida era ver eles se despindo da vida real para se vestir de Carnaval. Um strip-tease ao contrário, um ensaio aberto, um bloco na sala da minha casa.

Ele pedia pra ela pintar ele e ela não sabia, não levava jeito. Ele se irritava. Ser pierrot era coisa séria. E eu, de calcinha, cabelo assanhado e pé doendo, só voltava pra casa depois que o sol já virou lua e Olinda só tinha resto — de mijo, de cerveja, de gente. “Vamo pra casa, pai”, eu pedia, quase chorando. E ele me abraçava e mostrava algum bloco, doce ou gente que me tirava a atenção dos pés doendo por cinco minutos. Ele tava nem aí.

Teve uma vez que a gente tava indo embora e encontrou uma ciranda gigante no meio do caminho e não teve outra opção. Entramos na ciranda para esperar ela girar e achar o outro lado da rua. Eu tava com uma unha encravada e ela caiu no meio da dança. Não doeu.

Em 2012, no último Carnaval que passamos juntos, eu estava com o coração sangrando por um amor filho da puta. “Não olhe, não”, disse ele pra mim na Rua da Moeda enquanto meu ex passava com um novo amor. E de braços abertos, me embalava cantarolando morena tropicana. Melão maduro, saputi, juá.

“Um dia você vai gostar disso tudo, filha”, ele dizia no meio do bloco enquanto minha cara de adolescente emburrada pedia casa. Eu não acreditava. Até a gente se encontrar nos Carnavais adultos, em que ele me apresentava pros amigos que por vezes achavam que eu era sua namorada. Mas era só uma filha enamorada pelo seu pai.

Meu Carnaval era ele. Era o tempo que o olho dele ficava mais azul, que os amigos vinham, que a dança era solta. E ele girava, girava, girava. Era meu Rei do Maracatu. Lindo.

Desde que ele se foi, o Carnaval se calou. O bloco não toca, a sombrinha não gira. Você sabe lá o que é isso, meu bem? Essa dor no peito, essa saudade que rasga, feito frevo rasgado na ladeira embriagada. Ai, meu bem, sem você não há Carnaval. Qualquer dia eu coloco meu bloco de novo na rua. Bebo um gole de uísque respiro fundo e canto rouca “Voltei, Recife”.