Marta e Bento

Marta acordou cedo naquela manhã. Algum barulho lá fora de alguém que acordou ainda mais cedo que ela ou, quem sabe, ainda nem dormiu. Era domingo ou sábado? Não importava, o certo era que não trabalhava. Bento dormia solene do outro lado da cama. Uma distância de dois palmos que pareciam dois quilômetros inteiros. Estavam mal.

Foi à geladeira e percebeu a desarrumação da casa. A mãe de Marta sempre disse que a organização de um lar pode ser medida pela geladeira. Geleia de damasco, queijo ricota, iogurte com fibras. E só.

Bento acordou, ela ouviu a descarga. Como dormiram ontem? Tinham bebido demais. Estava com uma sensação esquisita de que tinham brigado, mas não lembrava o que acontecera. Uma imagem medonha de Bento jogando suas coisas da janela sempre vinha à cabeça quando pensava em brigar com ele. Neuroses de quem comprou um apartamento no décimo quarto andar com medo de altura. O medo de que as coisas voassem sem chão.

Ele chegou na cozinha e parou, olhando pra ela. Um beijo no cangote, um giro que fez Marta flutuar. “Obrigado por ontem, meu amor”, falou sincero. Marta estranhou, mas não falou nada.

As noites esquecidas às vezes são espertas.