Não foi amor.

Me desculpe, eu menti. Quando eu disse lá trás que te amava, não te amava não. Não ainda. Era preciso esperar um pouco mais de tempo. Ver você saindo mais umas cinco ou seis vezes do banho. Dormir abraçada, embriagada, no teu peito e acordar com teu cheiro no meu cangote. Escutar sobre você, sua família e seus amigos. Não ter vergonha de dizer que não sei. Ver o ponteiro rir da minha cara e as horas passarem três vezes mais devagar só porque você ia chegar.

Eu não te amava, não. Nem quando eu enfrentei meu medo de avião. Nem quando você cozinhou o melhor jantar da minha vida. Nem quando eu olhei pela janela e gritei que era a rainha do mundo, do bairro, da tua vida. Nem quando eu acordei e você tava ali, me desenhando. Nem quando você não perguntou nada, só abriu a porta de casa e eu entrei. E me calei. E me perdoou.

Não era amor. Nem quando o chá estava quente, nem quando eu tentei cozinhar uma sobremesa terrível. Na ladeira de Olinda também não foi amor. Nem naquela igreja lá longe que mandaram a gente fazer três pedidos. Como você é cético, eu pedi os seis. Bônus, mas não amor.

Não foi amor quando eu te chamei assim e só conseguia te chamar assim. Nem quando eu me despi da primeira vez e tive um déjà vu.

Teve um dia que foi quase amor. Foi quando você me disse que o tempo não era linear. Então, meu bem, quem sabe aquela dança na sala da minha casa ainda não vai acontecer? Minha mão na tua cintura, meu pé pisando no teu. Uma música horrível na vitrola e a gente dançando, dançando, dançando. Quem sabe, dessa vez, será. Será amor.