Piu

Parece até nome de passarinho, mas é mulher. Sou grata a ela por tudo que ela viu em mim. Me enxergou primeiro que eu, me ensinou coisas importantes na vida como, por exemplo, usar sapatos fechados se você não fez as unhas dos pés e a almoçar enquanto segura um bebê e uma taça de vinho. Ninja.

Me chamou de Mafalda porque disse que minha alma era velha. Éramos, então, duas anciãs fantasiadas de meninas ouvindo sweet disposition e dando voltas no aeroporto.

Hoje, ela mora em São Paulo. A gente se vê algumas vezes por ano. Se chama de família, conta segredos, pede conselhos, desabafa com textões inbox no Facebook. Toma cerveja, tem ressaca, conta a verdade uma pra outra. Se olha e se entende, assim, como se o tempo nunca tivesse passado e ainda tivéssemos o contato diário.

Quando eu olho pra ela, eu vejo o mundo mais bonito. Vejo mais flores e heróis, enxergo mais poesia no meio da rua e contemplo sua beleza. Pego o filho dela no colo, tento fazer ele me chamar de tia. A gente troca versos de música, de prosa e de vida.

Sábado foi aniversário dela. Tentei ligar, mas ela não me atendeu. Poderia ter deixado uma mensagem instantânea no Facebook, mas minha amizade com Piu jamais teve pressa.

Hoje acordei ouvindo Bob Dylan e lembrei que nós duas compramos ingressos e passagens para vê-lo em São Paulo. Eu desisti e ela foi pra nunca mais voltar. E aí eu digo que the answer, my friend, is blowin’ in the wind. Mas Piu já sabia disso e voou há tempos. Eu não disse que o nome dela poderia ser de passarinho?

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.