Saudade é um pouco como fome ou dor de cabeça. Chega de repente e não tem hora pra passar. Quando ele partiu, eu queria ter dito coisas bonitas e abraçado seu corpo. Mas estava morrendo de sono e não abri os olhos para dar adeus. Senti o corpo dele pesando sobre o meu e depois um beijo na testa.

Depois houve um telefonema e o mundo ficou calado e sem cor. Eu já tinha visto a morte chegar a dezenas de famílias. Mas dessa vez o alívio de não ser comigo não estava lá. Sim, éramos nós. Sim, eu era viúva. Sim, iriam abraçar o meu corpo vazio junto ao caixão cheio de algo que não era mais ele. Olhei, vi sua pele fria e não senti nada. Chorei no banheiro do cemitério por não conseguir chorar pelo meu marido. Eu o amava.

E foi no quinto dia de luto que cheguei em casa morrendo de vontade de mijar. Também tinha sacolas de supermercado nas mãos e me perguntei algumas vezes se era normal uma viúva sentir fome. Me senti infinitamente culpada por sorrir ao ver a foto do cachorro de uma amiga no Instagram e, sem pensar, curtir a publicação. Mas que porra de viúva olha o Instagram?

Soltei as compras na mesa da sala e fui correndo para o banheiro do corredor. Sentei no vaso e, de repente, estava o tapete branco e macio próximo à pia com uma pegada gigante. Não era marca das minhas sandálias número 35, nem da nossa gata Gina. Eram os pés dele. Afundados no pelo macio cor de marfim. Ali, na minha frente, enquanto mijava, ele era só ausência. E então eu vi a marca dele pelo mundo. A prova de sua existência que confirmou, enfim para mim, sua ausência. Fui só dor e imensidão.

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