segredos gravados em azulejos

eram duas, três ou quatro da tarde na casa de vanda. minha amiga carioca, a quem sempre visito quando vou ao rio. e eu já ia embora, meu voo era às cinco, tinha que chegar em casa, tinha matéria para terminar, um livro para revisar. e já eram duas, três ou quatro. não sei. parei de contar quando você chegou.

olá há quanto tempo. vanda não disse que você vinha. não sabia. está bem? estou. você? também. voa logo? não, não, só mais tarde. menti. menti olhando para a cozinha.

com azulejos amarelos e balcão forte o suficiente para aguentar meu peso e o seu peso. e aguentar seu jeans na minha legging e também um pouco do seu hálito. eu cheguei em casa depois, depois da cozinha, cheirando a cigarro, vinho, cerveja. e a você.

você nem sabe quantas vezes eu já não havia imaginado a cozinha, até mesmo com os azulejos amarelos eu diria que sim, eu já tinha pensado em tudo. no relógio da parede que cai com o alvoroço do cômodo, com facas se jogando no chão junto do seu pé descalço e olha que esse nem era o maior perigo ali.

já tinha imaginado tua barba e ela roça mesmo no meu pescoço daquele jeito que eu achava e arrepia sim. e a textura da sua língua que é uma ótima língua, vou te contar, ela sabe se mexer. e a curva do meu pescoço até o ombro respirou aliviada como quem mata a saudade de lábios amigos.

eu te puxei para a cozinha e eu nem sei a desculpa que dei, mas você sabia, claro que sabia, você sempre soube porque você me olha e me vê e me toca, me abala, me fere, me leva, me deixa, me beija. vem na cozinha, fecha a porta devagarzinho, shhhhhhhh ninguém vai notar nossa falta, a casa está cheia, a casa está dançando, a casa nem mesmo é nossa, não vão ver.

é tudo brincadeira, é tudo coisa de amigo, é algazarra mesmo, descontração, carinho, qual diferença de beijar na bochecha e beijar na boca, não tem sentimento, não tem tesão, é mais brincadeira, você sabe como é.

contei ao taxista, ele me ouviu, perguntou se eu queria água, talvez fosse uber então, não sei, não lembro, mas quando cheguei no aeroporto e lembrei que tinha esquecido minha caneta favorita eu chorei tanto e até pensei será mesmo que é por conta da caneta mas na hora nem me permiti duvidar. moço, onde aqui tem papelaria, preciso de uma caneta de ponta fina, ponta firme.

o avião decolou e olhei para as pernas, os olhos baixos de quem fez algo e não quer lembrar, de quem se arrependeu talvez meu deus, não gosto de me arrepender. puxei assunto, mandei sms, você nem me respondeu. você nunca mais me respondeu. nunca.

um sonho, quase um delírio, quase uma imaginação. aconteceu? nem sei. mas essa culpa no meu peito. esse avião não vai aguentar o quanto meu peito pesa de culpa. minha esposa em casa. me esperando. minha esposa odeia. odeia você. ela vai me odiar também.

calei. não contei a ela, nem a ele, nem a deus. rezei pra esquecer, vai saber, dizem que rezar ajuda. nossa senhora da conceição, sempre rezo quando o calo aperta, quando o coração quebra ou o dinheiro zera. rezei e pedi para deus pra nunca mais ver azulejos amarelos em nenhuma cozinha. não aguentaria de saudades de você.