A classe social do artista

Maria Estrázulas
Aug 23, 2017 · 3 min read

O artista tem dinheiro de classe C e D, mas acesso a pequenos luxos que apenas as classes A e B podem pagar.

Muitas vezes esse acesso vem pelo fato de que a própria presença do artista é um dos aspectos de luxo dos acontecimentos. É um luxo como o champanhe e como dois objetos, interagem. Numas vezes o artista bebe o champanhe noutras o champanhe bebe o artista, é um risco que se corre.

Quando o artista tenta acessar qualquer luxo pelos meios usados pelas classes C e D (as classes do seu bolso), como o crediário e o cartão de crédito, se dá bem mal: não tem o contracheque pra garantir as prestações. Quando não compra à vista ou por escambo, a chance de entrar por SPC é grande.

É comum ver um artista pegar o seu cachê, comprar umas garrafas de bons vinhos, uns pedaços de queijos caros e uma carne de primeira. Ou, pegar o dinheiro e ir direto pro bar naquele dia generoso de pagar o chopp da galera que sempre paga pra ele. Depois vai pra casa comprar alguma coisa de equipamento ou material pra trabalhar mais e fica sem grana de novo. Ah! Putz… Não comprou papel higiênico. Conta os trocados e compra o papel que der.

A miséria do artista, não costuma ser como a da classe econômica a qual pertence. As classes C e D, na falta de dinheiro costumam ficar no feijão, arroz e couve, mas o artista não. O artista vai no sacolão e prepara o seu suflê, sua quiche, uma bela caponata… Com meia dúzia de vegetais de 1,99 o artista faz da sua cozinha com panelas velhas, ganhadas usadas, um verdadeiro bistrô. A cozinha do artista é classe A e B.

Muitas vezes o artista não tem carro, nem moto. Aquele bem de consumo que as classes C e D lavam, aspiram e enceram nos finais de semana. As vezes o artista não tem aparelho TV, menos ainda tem a TV a cabo que as classes C e D fazem o rateio entre os familiares para poder manter. O artista vê o mundo ao vivo, como as classes A e B. Viaja, conhece lugares e pessoas de outras culturas.

Os artistas de ofício são muitos e formam um grande grupo social onde poucos são ovacionados pelo público e pela crítica. A forma de entrar definitivamente para as classes A e B é ganhar o reconhecimento do público, que, de fato, é quem paga o cachê do artista. Mas esse não é um lugar seguro, o público pode parar de gostar do artista. Depois pode gostar de novo, mas pode não gostar nunca mais. O artista fica rico e fica pobre, fica rico e fica pobre, como João Grilo, do Suassuna.

Somos de todas as classes sociais e não somos de nenhuma. Somos marginais da pirâmide social, circulamos por uma via que corre por fora. Uma via totalmente sinuosa completamente desprovida de obviedades e que pode nos perpetuar do presente até a história, nos eliminar do presente e nos perpetuar na história ou ainda nos enterrar vivos.

O artista trabalha para o Faraó, negocia com os sacerdotes, come como os nobres, peregrina como os soldados e é amigo dos escribas, dos comerciantes e dos camponeses com quem faz alguns escambos. É habilidoso como os artesãos, mas não atende a necessidades essenciais da sociedade e muitas vezes tem o mesmo poder de consumo que os escravos, pensando numa analogia ilustrativa 100% empírica. (Imagem Pesquisador Urandir)

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Maria Estrázulas
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