Nem tão complicado quanto parece, mas nem de longe tão simples quanto faço parecer

Notar a presença, de longe, tentar ignorar. Até que aquilo se torne gritante e tudo que você não pode fazer, é ignorar. Dar uma chance, com pé atrás, ainda receoso de tudo que aquilo que você conhecia como amor te fez passar. Quando o coração tá assim, quase calejando de novo, pronto pra ficar sozinho por mais um ou sabe-se lá quantos anos. Mas impossível seria ficar tanto tempo sem dar uma chance ao que bate na sua porta. E uma vez que ele bate, é tão inconveniente e insistente quando bate todas as outras. Mas abrir é tudo que você pode fazer. E uma vez que ele entra, é um caos excitante que te pega de surpresa e oscila entre altos e baixos, movimentando seus dias como só ele mesmo poderia. Amar é a insegurança do começo, em pensar que você pode reviver todo aquele sentimento ruim de novo e enfim, ter que dar uma chance, porque afinal, que falta faz esse frio na barriga que agora tá aqui. Amar também é se superar ao descobrir quanta coisa se pode relevar por alguém, às vezes, mais do que o coração digere de uma vez só, precisando de um tempo para refletir. Se superar cada vez mais ao descobrir mais um perdão que se pode dar. E nesse tempo, onde tudo que você queria era refletir, só consegue pensar nisso e se sentir como se precisasse resolver agora, porque não há outro jeito. Amar também pode ser acordar no meio da noite, só precisando ouvir algo que te acalme, olhar pro lado e sentir a paz invadir o corpo todo ao conseguir ver o outro pegar no sono. Muitas vezes, amar também é acordar cheio de dúvidas e terminar o dia apenas com certezas. O amor também está presente naquela fase meia boca, onde nada é novidade, tudo parece sem sal e você quer se desprender, e quando finalmente toma coragem, você olha pra pessoa como se fosse a última vez e percebe o que seria de tudo aquilo sem ela: nada. O amor tem um jeito estranho de dizer que está ali; como quando perdemos a paciência, nos descabelamos e não somos capazes de dizer por que gostamos de pessoas que nos levam à loucura — no mau sentido. E no final de tudo, perceber que até gosta de ter alguém pra cuidar e puxar a orelha de vez em quando. O amor vem naqueles dias em que levamos tantos empurrões dos outros que nos desorientamos, chegamos em casa e podemos ouvir um: ‘’vai ficar tudo bem’’ que tem o poder mágico de fazer tudo ficar. O amor é não ter que fazer escolhas entre as pessoas que te fazem bem, porque quem te ama, entende que não é só ela que tem a capacidade de amar, mas sabe que se ela entender isso, vai ser mais merecedora ainda de fazê-lo. Amar é saber acompanhar, caminhar ao lado, às vezes dar o braço a torcer e perceber que a nossa vontade pode ficar de lado, pelo menos por um dia, para ver o outro feliz. Mas amar — se amar, principalmente — é saber que não é necessário os braços sempre a torcer, a ideia sempre vencida, de ser sempre o que o outro quer. O amor não é apenas presentes, mensagens bonitas e surpresas de mês em mês, na data certa ou sem data alguma, mas pode ser um bom jeito de lembrar a pessoa de que o frio na barriga do começo pode estar lá depois de dois ou até seis meses. Amar é querer constantemente melhorar, impressionar e saber que é amado e conseguir isso naturalmente. É não se importar em dividir o espaço da cama, a comida de um lugar legal ou de ter que pagar de vez em quando. É deixar o outro escolher o filme, mas também não deixar ele perceber que você deu uma pescada ou outra no meio dele. É aquela sensação de quando te acontece algo bom, ter alguém pra ir correndo contar, ou o contrário, e ter alguém pra pedir abrigo. Ele está sempre nas pequenas coisas, só quem presta atenção vê. E eu, tão desligada, o vejo hoje em todos os detalhes. E mais importante ainda, procuro aprender um pouco mais a cada dia. Superando as antigas tragédias já nomeadas com esse nome, e lembrando com carinho de algumas melhor aproveitadas. Entendendo que as vezes parece impossível, mas na maioria das vezes, mostrando apenas que todo o resto, sem ele, seria.

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