Cuidado, Brasil, 2016 quer te calar

Junho de 2016 chegou. Estamos no mês 6 — exatamente na metade do ano — e tenho a impressão de que passamos esse tempo todo amarrados da boca aos pés.

O trôpego processo de Impeachment pelo qual estamos passando deflagra algo de muito bisonho no Brasil. Caímos numa bad vibe sem precedentes. Perdemos emprego, perdemos saúde, perdemos dinheiro e até amigos (ah, a política…). Mas há um processo ainda mais cruel em curso: estamos perdendo a liberdade de criar. É como se estivéssemos proibidos de fazer e falar sobre qualquer outra coisa além de petralhas, coxinhas, Temer, Dilma, Lava Jato, cartão de crédito do Eduardo Cunha.

Entendo. É um processo importante e necessário de regurgitação pelo qual jamais passamos e pelo qual iremos (temos que) sobreviver.

Minha preocupação é que não estamos dando espaço para música boa, novos artistas, atletas que superam recordes mundiais, ou mesmo para cultivar nossas plantas e dividir isso com o outro. Não estamos dando espaço sequer para a fala do outro sem antes colocar a nossa própria na frente. Estamos matando nosso poder de criação, essencial para nossa sanidade e inspiração vital.

Houve um corte feio e fundo não só na democracia brasileira, mas também no que tínhamos de mais forte, a criatividade. Enquanto isso, do outro lado do mundo, os jovens de olhos puxados e bem abertos do Japão ampliam o movimento stylish-democrático, usando a estética como porta de entrada para serem ouvidos, o SEALDs (Students Emergency Action for Liberal Democracy).

Algumas sementes começam a brotar do lado de cá com os jovens do movimento de ocupação das escolas públicas brasileiras. Talvez o único movimento autêntico que tenhamos presenciado algum fortalecimento nesse ano de 2016 no País. Há quem diga que eles não têm total consciência do porquê paralisar suas aulas, e de que tudo não passa de uma brincadeira de adolescente. Discordo, porque sou uma otimista que lê mais do que fala. Discordo, porque preciso acreditar e gritar pelo NOVO nesse nosso mar de gente amarrada.

Cuidado, Brasil, porque quem não cria criado é.

Termino aqui com um sopro do Brasil de arte, que cria e inspira, na recente passagem da Tocha Olímpica por Caruaru (PE) ao som do eterno Luiz Gonzaga: