Aquilo que transforma a vida

Aquilo que transforma a vida

RESUMO: Rose Maria Leite se deparou com o preconceito desde pequena. Com lábios leporinos, ela passou por inúmeras cirurgias e teve complicações. Na escola também sofreu, pelos insultos e agressões por parte dos colegas e pela negligência por parte dos professores e direção, acabando por atrasar sua alfabetização. Aos 10 anos, teve que enfrentar uma violência maior dentro de casa. O abuso sexual cometido por seu cunhado deixou marcas em sua vida e na vida de toda a sua família. Ela se tornou uma jovem rebelde e inconformada. No entanto, pelo elo de amor com uma de suas irmãs, as duas enfrentaram juntas o sofrimento. Os acontecimentos de sua vida a motivaram na construção de uma carreira em prol das crianças e adolescentes. Hoje, ela é conselheira tutelar no município de Pinhais.

MARIA FERNANDA MILESKI DE CURITIBA

Eu nasci com lábios leporinos. Foi muito difícil me aceitar, pois eu não entendia porque nasci assim. Fui operada com um ano e meio, muito tarde para a medicina de hoje. Atualmente, já passei por 28 cirurgias, 8 plásticas e 7 enxertos ósseos, foi uma transformação. Digo que eu fui um casulo, tive que me transformar.

Minha família era paupérrima. Nós éramos seis filhas, eu sou a última. Por isso acredito que minha mãe foi guerreira, sempre estava lutando sozinha, pois meu pai viajava muito, passava seis meses a um ano fora. Morávamos em uma casa de duas peças. Minha mãe vendia botijão de gás para nos dar de comer. Cozinhava arroz e feijão fora da casa, no álcool. Para tomar banho, não tínhamos chuveiro e para fazer as necessidades, mal tínhamos uma patente.

Foi quando minha mãe conseguiu emprego na casa de dois professores, a Eunídes e o Bosco, que nossa vida melhorou. Comecei a ir para a escola. Isso foi para mim uma tortura, pois descobri que eu era diferente. Lá passei por humilhações que não dá para imaginar. As professoras fingiam que não me viam. E minha alfabetização foi se atrasando.

Nesse intervalo de tempo, aos 10 anos, passei por um ato muito difícil da minha vida. Eu ia para a escola de manhã e de tarde seguia para casa. Meu cunhado ia almoçar na casa dele, que era atrás da nossa. Eu nem o via. Um dia foi diferente, ele entrou na minha casa e eu nem percebi, pois estava assistindo Pica-Pau. Ele sentou ao meu lado e foi mexendo comigo. Eu achei estranho mas… Até que ele me violentou. Não sei dizer como foi, só lembro que saí da sala com as pernas trançando. Ele foi atrás de mim e falou: “Não fale nada para ninguém”.

Todo dia na hora do almoço ele fazia o mesmo ritual. Porém, eu comecei a não estar no horário que ele estaria. Me escondia embaixo da casa e ficava esperando ele sair. Aconteceram três vezes, quando ele me pegou de surpresa. Desesperada, tentei falar para minha mãe, mas ela não acreditou, pois eu estragaria o casamento da minha irmã.

Minha outra irmã, a Rosângela, de 17 anos, que também foi violentada, engravidou e teve que dar seu bebê. Me dói mais falar dela, pois seu sofrimento foi grande. Quis dar todo apoio. Mas também fiquei muito revoltada. Comecei a beber e fumar de um jeito, que não parava mais em pé. Não usei drogas pelos lábios leporinos, pois eu tinha a sensação que ia morrer. Isso com 15 anos.

Quando minha família descobriu que meu cunhado tinha me violentado também foi uma briga enorme. Queria morrer naquela hora. Pela primeira vez eu me senti envergonhada. Assim como eu tinha feito, a Rosângela me apoiou. Era uma cuidando da outra.

Minha trajetória profissional começou quando comecei a trabalhar em um berçário, justamente para sair da depressão na qual me encontrava. Foi aí que começou minha transformação. Descobri um amor mútuo pelas crianças. Pensei que queria aquilo para minha vida, por isso, comecei o magistério.

Quando a Rosângela se casou e depois engravidou, fiquei muito feliz. Só que no dia do parto, ela descobriu o câncer, que era grave. Pedi a conta no meu emprego para cuidar da minha irmã. Foram sete meses que ela viveu e eu vivi cuidando dela. Queria parar de estudar, mas ela não deixou, por isso fazia meus trabalhos nos pés da sua cama. Foi quando ela faleceu.

Com a morte dela, caí numa depressão profunda. Eu encontrei minha amiga Ivone na rua. A mãe dela também tinha falecido. Eu fui me desculpar por não ter conseguido ir ao velório. Vendo minha tristeza, ela me convidou para ir a uma conferência da criança e do adolescente. Eu fui, comecei a estudar o ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente], me interessar. Na eleição de 2013 me elegi.

Hoje percebo que eu tenho um olhar diferenciado para os casos. Claro que, os de abuso me envolvem de um jeito, que eu não consigo olhar para uma criança e condená-la. Vejo que pela minha história, eu me coloco na pessoa. Quando ela fala “eu passo fome”, eu sei o que é passar fome, quando fala “minha filha foi abusada”, eu sei o que é sofrer abuso. Sofri muito para que hoje eu consiga trabalhar. Sei que, embora eu tenha passado e ainda passe por preconceito, as pessoas não mexem comigo, pois sabem que eu conheço o caminho das pedras.

Vejo que minha vida é muito abençoada. Não sei como finalizar, pois essa história não vai ter fim. O fim é a eternidade.

    Maria Fernanda Mileski

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