Imagina que legal seria ir embora
Nessa onda fictícia e romântica de viver sozinha eu me joguei com 16 anos. Os filmes sempre mostraram como é perfeitamente possível e saudável sair de casa cedo e, principalmente, como isso pode ser a chave para o sucesso da sua vida amorosa e financeira.
É evidente, só saindo de casa para receber o certificado subconsciente de pessoa independente com rotina de serviço e ocupada demais para problemas de adolescentes. Quando pus os pés para fora de casa com três malas peduradas no meu corpo e minha mãe de coração apertado, eu senti a brisa da revolução na cara. Quis colocar o presidente na guilhotina e levantar uma bandeira de dizeres inspiradores para os meus semelhantes. E foi nessa hora, nesse exato momento, em que me dei conta de que não sabia fazer arroz, nem lavar roupa, nem a ir no mercado escolher verduras de boa qualidade.
Nada me abalaria, absolutamente nada, afinal de contas quando você tem coragem de dizer para seus pais que vai embora, tem que ter coragem para nunca voltar atrás. E é com a água batendo na bunda que a gente aprende a nadar e a sobreviver sozinho. Nada fácil.
É agradável viver só, tomar conta do próprio umbigo, não dar mais satisfações a ninguém. Fiz porque estava afim! E farei de novo, se de novo estiver. Cogitei inclusive entrar para o Movimento Punk, ideia que durou aproximadamente trinta e cinco segundos.
Em contrapartida, essa decisão implica sentir um vazio tão grande às vezes, que nem você e nem ninguém sabe de onde vem. Implica sentir um cisco de inveja do seu amigo que foi almoçar na casa dos avós, mesmo achando isso um saco a adolescência inteira. Implica em assistir Ladybird - É hora de voar e terminar chorando durante horas ao se colocar no lugar de pai e mãe, ao invés do de filho. E ver o quanto seus pais deram duro para você estar ali.
Talvez um bichinho de pelúcia seja seu melhor amigo e companheiro de bebedeira, de coração partido e de felicidade. Ou um hobbie anteriormente esquecido, como desenhar e pintar, seja hoje uma atividade de luxo para você fazer em momentos raros.
Hoje as prioridades mudaram. A visão de mundo é outra, e, pasme, é oposta a visão de quando estávamos saindo da casa dos pais. Hoje, deixar uma panela de fritura brilhando depois de lavada é a coisa mais invejável em alguém. As mensagens do Facebook ou do Whatsapp não têm mesmo peso do bom e velho “boa noite, minha filha”, dito antes de dormir.
Você talvez não seja um adulto tão maduro assim quando estiver longe, mas algo vai mudar. As atitudes de antes serão aprendizado e as velhas histórias, singela lembrança.
No lugar do arroz e feijão, miojo. No lugar do rolê, faxina. No lugar do tédio, angústia. E no lugar da rebeldia, saudade.

