Dizem que não gostamos de pau

Gosto de pau.

Muito.

Mas gosto ainda mais daquela camada de confiança entre mim e ele.

E da fome mística sobre a qual conversamos sem conversar.

Gosto das anterioridades que se estendem entre mim e o pau no jantar da existência.

Fica assim combinada a condição peniana de sobremesa.

O tiramisù das eras.

Porque gosto mais do colo que sustenta o pau bem duro.

Do relógio de pau marcando um compasso que respeite o tempo do meu corpo e das minhas incertezas fêmeas.

Da fumaça de cumplicidade que o adorna em cores pacíficas.

Das afinidades que o consagram mais lustroso que a média.

Gosto da lubrificação dos sonhos.

Dentro das veias, o rio sanguíneo me honra e honra às minhas se os diálogos se aspectam.

Marte e Vênus não orbitam o pau de Marte.

Há a Terra entre eles.

Como entre nós pode haver um descuido planetário em cujos sulcos habitem micro-galáxias verdes e animais exóticos.

Gosto um bocado da imensidão de tudo pré-pau.

A vida na floresta, o bicho do mato de cada um, incensar com ervas e pôr séculos à mesa.

Pentear os cabelos molhados para restituir o desembaraço das verdades.

Gosto, antes de nascer o pau, de mim mesma e do feminino primordial, que um dia imaginou o pau.

E que teve coragem de, com a sua própria boca, soprar um pouco de fôlego para os milênios terríveis que se sucederiam.

Gosto daquela atmosfera de riso cúmplice e conversar até amanhecer, do esquecimento completo do pau que pode preceder o ronco ou o despertar da glande.

Quando eu me deito e penso no quanto gosto de pau, quase levo a mão a certas ânsias do meu corpo, quase levo a mão ao centro de toda miséria humana para sortear uma trégua,

Quem sabe uma estrela,

Quem sabe um beija-flor,

Um pescador retornando, sereno, com o cardume que a ele se entrega em oferenda pela inevitabilidade da natureza cíclica,

Quando me deito e penso no quanto gosto de falo, eu falo abundante de prévias, chocalho de serpente, continentes apaziguados, espírito que se desarma no auge da tocaia.

Gosto de pau próspero. De pau raro. De pau sábio. De pau arte.

Com a simplicidade dos que renunciam ao culto de sêmen-deuses.

Piroca-pedra-fundamental de uma religiosidade cotidiana acolhedora possível.

De toda a majestosidade do abraço silencioso que o endurece e que me molha.

Que promete ao meu útero canções de bálsamo.

Que deleta os arquivos dolorosos da minha ancestralidade,

Reseta o amor e toma no colo as paternidades esmaecidas.

Gosto tanto que não desperdiço o sagrado ejaculatório com vazios rasteiros e violências contra as minhas irmãs.

Gosto de pau. Muito. Mas gosto mais do seu preparo lúcido,

Da sua promessa de desenterrar os tesouros que outros paus esconderam.

Da gravidez discreta do encontro macho e fêma restaurando humanidades.

Gosto de pau que ameace fincar esperanças como quem atravessa a madrugada do mundo,

Gosto que uma bandeira branca liquefeita vá ao fogo e jorre por nós no fim.

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