Dizem que precisamos de um homem

“Tudo de que uma feminista precisa é de um homem.”

Eles dizem.

Ouço desde que me entendo por alguém a quem o mundo é negado no caminho das trompas.

Dizem e louvamos que estejam certos.

Eu, por exemplo, pensei por existências a fio que sinto muita falta. Muita falta.

De um homem.

Ainda não sei se desejo ardentemente um homem assado com uma maçã na boca ou se o quero pagando meu aluguel atrasado enquanto gotejo lubrificação vaginal sobre as coisas do mundo para hidratá-las.

Ainda não sei se quero um homem que lave a minha louça toda ou que me sirva de carpete, ou que me sirva um boquete, ou seja lá como for que chamem isso quando se trata de grelo. Não batizaram o meu prazer, segue indigentemente pagão, silente e invisível por trás da violação histórica.

Não sei o que escolher, já que por ser feminista tenho direito a um homem, esse direito que cavalga uma lacuna, esse pai ausente, esse macho que jamais houve, esse eco de piroca sólida ancestral apagando, apagando, apagando, até só restar pó, até não sabermos a origem da primeira e inócua saudade.

Mas também tenho direito a ter um homem por esse lixo de ideia de que se é feminista porque se precisa de um homem. Pois que a constituição se refaça, desrasgue-se em cada beco, ressuscitando seus mortos, e depois de alguma regeneração me garanta um homem.

Não sei se prefiro, eu dizia, um homem de pau grande e um caminho sacerdotal ou um homem de pau pequeno e um caminho guerreiro ou um homem de pau pequeno e um caminho imperador; um homem cujo pau não se conhece o tamanho e no fundo não importa; um homem que entenda de arquétipos e veja a dança do mundo de fora comigo.

Não sei nem mesmo se prefiro um homem. Não deu tempo de tatear minha verdade. Essa lei precisatória já depositou seus tentáculos em todos os meus orifícios ao mesmo tempo. Que tipo de homem eu prefiro?

Já que, por ser feminista, disseram que preciso de um homem, talvez estejam mesmo certos, porque antes disso algo em mim não demandava. Que retórica ereta ameaçadora terá me convencido?

Desconfio de que tenham sido vocês, os que agora me dizem que sou feminista porque preciso de um homem, que me convenceram desde quando eu era tão criança, mas tão criança, que eu ainda era a bisavó da minha bisavó, de que preciso de um homem.

Foram vocês que nos convenceram, a nós todas, que precisamos de um homem.

Um homem.

Um homem.

Uma unidade de homem?

Vai ver dizem que precisamos de um homem, um outro aí, não falam de si, obviamente.

Talvez queiram nos dizer que não nos servem.

Vocês não nos servem, deve ser isso, em um dia de inverno, tão certo quanto uma tristeza, uma frieza que não mais se esconde.

Em algum momento, antes de eu ser a bisavó da minha bisavó, quando eu era bem novinha, acreditava nisso que agora constato: que se disseram que eu precisava, inauguraram a vulva sem pelos, exposta compulsoriamente como caos, pecado e surpresa, mas antes disso voava pelos céus em vassouras uma verdade livre.

Se outorgaram, sinto em meus batimentos cardíacos, é porque não preciso naturalmente de um homem.

Era esse o segredo que elas, as iguais de seu tempo, as bisavós das bisavós de todas as pessoas que estão desdobrando minhas palavras para medir o tamanho do eco geracional, era esse o segredo que elas guardavam

Não precisamos dos homens. Os homens nós apenas desejamos.

Com eles nos deitamos, erguemos casas, parimos filhos — é bem verdade, demasiadamente sem eles — e plantamos árvores e por vezes até publicamos livros sem qualquer reconhecimento, enquanto os livros que escrevemos sozinhas serão ocultados pelos vendedores às costas de livros publicados por homens.

Era esse o segredo das bisavós de todas as bisavós. Elas sabiam que não precisamos dos homens, nós apenas os desejamos e com eles damos continuidade ao ciclo da vida.

“Mulheres precisam apenas de mulheres”, diziam as bisavós de todas as bisavós. Mulheres precisam e também desejam mulheres. Mulheres não precisam dos homens.

Dessa equação, diria Marie Curie, resulta que homem é supérfluo, mulher é essencial.

Um homem é um homem é um homem, diria Gertrude Stein, que amava mulheres e delas precisava como de si mesma.

Mas um só homem? Será que quando os homens estão dizendo que precisamos de um homem estão se referindo a um só homem? Todas nós?

Não me falem mais em Jesus Cristo como mandante imaginário de crimes, porque trago uma fileira de úteros de onde eu vim.

Meu palpite é que os homens que dizem que tudo de que as feministas precisam é de um homem talvez estejam querendo dizer que tudo de que todas nós juntas precisamos é de um homem que não seja nenhum desses, mas alguém que ainda virá. Seria o Primeiro Homem?

Ou então que precisamos de um UM HOMEM assim em caixa alta, embora as bisavós das nossas bisavós não conhecessem caixa alta e, consequentemente, os bisavôs dos nossos bisavôs também não conhecessem caixa alta e não pudessem dizer que tipo de fenômeno da natureza chamado “homem” bastaria para aplacar a fúria de Sekhmet em nossos ventres.

Se eles alegam, então comprovem que precisamos de um homem.

Mas creio que, tão certo quanto uma saúde de verão, não possuem provas.

E se alegam, também devem informar que tipo de homem, pois em caso contrário, se sou eu a precisada, direi qual tipo se faz necessário.

Os homens de que precisamos, na quantidade de que precisamos, ainda não existem de forma significativa no mundo.

Dormem desconhecidos no íntimo, no mistério, no não assumido, no cativeiro de cada alma de homem desnecessário, inacessíveis, aguardando a couraça externa de homem cessar fogo, dançar com os ventos, permitir que cada povo encante o seu solo, cochichar poemas às águas.

Os homens de que precisamos ainda erram porque é próprio da estrada, mas convocam o perdão antes que anoiteça demais para comprometer a prosperidade dos peixes. Amam ignorantes de estupro, plantam sem veneno, educam as crianças próximas dos pássaros, identificam a música da Terra em cada estação.

Os homens de que precisamos, na quantidade de que precisamos, estão em coma. Em seu leito apático, alguma notícia faz sangrar outros homens, abandonar outras mulheres, dizimar aldeias.

Enquanto não se impõem, tomando o corpo dos homens que os aprisionam e dos quais nunca precisamos, os projetos de homens de que necessitamos aguardam em sono profundo.

Velamos suas pálpebras sem beijá-los, certas de que isso seria um abuso. Mas diariamente secamos o suór dos seus carcereiros com nossos cabelos e ao meio-dia levamos nossa melhor comida, na esperança de que compreendam a sua gravidez e depositem na terra os bons homens que escondem em si.

Então, mães de nós mesmas, seguimos acreditando na possibilidade de sermos doulas de nossos algozes.

Os homens de que precisamos, na quantidade de que precisamos, ainda não acordaram ou nasceram. Mas diariamente faremos barulho para que despontem nos horizontes dos tempos.

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