Motivos para se afastar de um homem que já tenha um relacionamento

Pode entrar desarmada. Você não está pisando em terreno moralista. Mas em um círculo de cuidado, apoio e libertação emocional feito com palavras. Esse texto parecerá desnecessário a quem nunca se viu em situação de sofrimento por um envolvimento tido como proibido, mas eu tenho contigo, que continuará a me ler porque sabe o que vive, uma cumplicidade de útero. Sei o que você passa. Sei que, se vive isso e acha que ainda não passa, não vai demorar muito até se deparar com impedimentos dolorosos. Esse é o desfecho da maioria dos vínculos formados nessas condições. E estou aqui para te lembrar que você pode reescolher o seu caminho a qualquer tempo, preferindo, no lugar do que só te consome, aquilo que te leva para o melhor lado de si, pois talvez você tenha andado distraída e se esquecido. Tome-se nas mãos. Você não precisa apostar nesse cara até o final. Eu aposto em você.

Antes de qualquer outra coisa, precisamos nos lembrar de que vocês partem de condições muito diferentes, não por conta exclusivamente da relação que ele mantém, mas sobretudo pelas pessoas que foram formadas para ser. Desde muito nova, quando ele já era incentivado por toda a nossa cultura a ganhar o mundo, você era incentivada a deixar seu coração em casa. Um bom destino para a mulher, ainda que ela tivesse a oportunidade de estudar e viajar, necessariamente passava pela ideia de ser escolhida por um homem para que se casasse com ele e lhe desse filhos. Era esse o roteiro do maior troféu, que arquivamos para sempre em algum lugar de nossa mente.

A maioria de nós, no entanto, não viu a mãe cumprir harmoniosamente esse roteiro-destino. Alguma perturbação à sua condição de mulher aconteceu no meio. Talvez você se lembre vagamente de que a situação que hoje você experimenta tenha ocorrido de forma semelhante com alguma mulher da sua família. Não é difícil que um grupo afetivo seja incomodado pelo apelo sexual de outra mulher, certo? Errado. A competitividade que nos atribuem não é causa, é sintoma. Não é difícil que um grupo afetivo seja incomodado pelo direito assegurado ao homem de viver todas as emoções a que tem direito, à revelia das parcerias que assume e da lealdade que ele mesmo cobra delas. O personagem principal de todas as relações é sempre ele, isso é o que a sociedade a todo momento nos diz.

A nossa competitividade é também estimulada culturalmente para que estejamos sempre inseguras, fragilizadas, andando entre inimigas. O mundo precisa ser um lugar permanentemente perigoso para nós. Quanto mais mulheres estiverem umas contra as outras, pisando em ovos, melhor para eles. Sem cúmplices, apenas cobra comendo cobra. Se somos todas formadas emocionalmente para nos sentir inferiores aos homens em geral, sua presa, e se o nosso valor é depositado no quanto de aceitação temos entre eles, estamos todas em uma disputa.

Daí resulta que ele, esse cara por quem você está apaixonada, parte de uma condição milenarmente estabelecida de “aquele que tem o poder de escolha”. E, na maior parte do tempo, essa sentença cria predadores. É fácil abusar desse poder, é para isso que ele lhe é concedido, para ser afirmado por meio de abusos. Enquanto você parte de uma condição que de alguma forma servirá a esse homem: emocional, patrimonial, sexualmente… Daí também resulta² que essa outra mulher tem grandes chances de estar tão aprisionada a um vínculo afetivo precário (embora sob outros aspectos) quanto você — e sem consciência alguma disso. E, por fim, daí também resulta³ que, ao topar esse jogo, estamos alimentando esse ciclo de insegurança emocional para todas nós. Quem sabe, deixando marcado no inconsciente de crianças envolvidas, caso elas existam, um segredo que as levará a reproduzir esses padrões em seu tempo.

Ele não precisa estar mal intencionado — não é essa a pergunta determinante — para que as condições das quais vocês partem historicamente sejam assim, hierarquizadas. Elas existem independentemente da vontade de vocês dois. Talvez ele esteja bem intencionado, sim. Talvez seja uma boa pessoa que simplesmente se apaixonou fora da relação também. Mas então, veja que interessante, se ele estiver, isso deve garantir a ele que você escolha se sujeitar às limitações dessa história, vivendo como quem espera? Mesmo se ele for uma grande pessoa, essa situação não é sobre ele, é sobre você. Você é o centro da sua vida, certo? Eu tô aqui pra te lembrar de olhar pra si mesma. Não interessa o quão envolvido emocionalmente ele esteja, os sentimentos dele não são mais importantes para nós duas nessa conversa do que você.

A sua vida importa mais. A sua felicidade não vai ser negociada assim, tão facilmente, nem mesmo por um tempo. Você precisa de si mesma forte, sem se demorar tanto naquilo que não é do seu caminho. No entanto, por algum motivo você parou aí. Esqueça explicações do tipo “a gente tinha mesmo que se encontrar”, não é disso que eu tô falando. Preciso que tateie a si mesma dentro dessa história e entenda o que te fez parar um pouco nesse trecho. O que está tentando se dizer inconscientemente por meio dele, da dificuldade que a situação apresenta, da disputa que está ocorrendo por mais que você não admita, do desejo de ser a escolhida? Onde foi que você se viu refletida? Por que você precisa que um abandono aconteça para que você seja feliz? Ou quando foi que você internalizou que a sua realização afetiva precisa acontecer dessa forma? Ou será que ele te lembra alguém? Ou qualquer outra pergunta que te devolva para o seu centro, porque na periferia de si mesma nada se resolve. Afaste-se dele aproximando-se de você. Sabemos caminhar nas brumas, apenas não nos lembramos. Somos nossas mestras primordiais.

Se ainda estiver muito difícil, por todas as mulheres que te antecederam, por tudo o que você já sonhou pra si, por todas as situações difíceis que venceu sozinha antes que ele aparecesse, por se lembrar de quem você é, de onde veio e aonde deseja chegar, eu te convido a imaginar-se vivendo coisas extraordinárias que muito te realizarão emocionalmente SEM ELE. Eu te convido a se lembrar da sua criatividade, do poder criativo presente em todas as suas amigas e nas mulheres da sua linhagem materna ou paterna diante das adversidades, algumas conseguiram escapar ou ressignificar circunstâncias inacreditavelmente hostis para mulheres. Se elas tiveram essa firmeza sobre o desejo de prosseguir na vida, você também possui esse poder sobre si mesma. Não é nenhuma migalha emocional que vai te seduzir para fora do seu eixo e te fazer se demorar tempo demais em um trajeto infértil.

Tudo à nossa volta diz, sem dizer, que a totalidade das nossas vidas importa menos do que qualquer sentimento masculino. Esse mito de inferiorização que você está vivendo com ele precisa ser quebrado. Ele não é superior a você, não é seu senhor, por que teria o direito de ser nutrido com a sua espera ou com a sua disposição? Você nem mesmo sabe se ele está apenas criando uma historinha emocionante que o ajude a suportar o marasmo de uma relação que ele não tem coragem de terminar… Alguns encontros que ocorreram assim acabaram vingando? É claro que sim, mas a maioria deles reserva um desfecho trágico, em algum nível, para a mulher. Patriarcado, baby. Não conte com esse fim, conte consigo. Retire a sua energia, é para você mesma que ela está disponível.

Você tem muita coisa a viver. Queira saber do que pode dar certo, não tenha tempo a perder. Honre suas ancestrais, honre o espaço que hoje você ocupa no mundo, honre o seu amanhã. Exerça o seu direito de desejar situações melhores, mais fáceis, mais prazerosas para a sua alma. Imagine uma vida nova, para se curar e para materializar, apenas imagine, para se autorizar o sentimento renovado. Ouse encontrar uma trilha que te contemple, que fale sobre paz afetiva. Corrija o fluxo da sua energia, guie suas águas para que elas abasteçam os seus objetivos. Tenha interesse pelo que está mais ali na frente. Você é a grande atriz da sua história, não será coadjuvante no seu próprio corpo. Todo mundo quer amar e ser amado, mas isso pode ser revisto a qualquer momento para que venha por caminhos saudáveis, para nós e para a totalidade de pessoas. Temos ventre. Somos criadoras de realidade. Não se esconda atrás do cara, assuma seu poder na vida e se autorize internamente a desejar e manifestar um destino muito superior ao que foi levada a acreditar possível para uma mulher.