Mulherengo, galã, sedutor, irresistível, colecionador: por que celebramos abusadores em série?

Dia desses me deparei com uma expressão que não ouvia há muito tempo, embora frequentemente me depare com o que ela designa: “mulherengo”. Sou filha dos anos 80, mas qualquer adolescente de hoje que jamais tenha ouvido esse verbete cafona é capaz de captar facilmente a ideia. Mulherengo é o homem que é dado a se relacionar com um grande número de mulheres, ao mesmo tempo ou com grande rotatividade de parceiras, não importa. O que urge ser dito é que — ao contrário de toda a exaltação a seu redor, tal como nos foi ensinada — esse é o perfil de um colecionador de mulheres. E creio que já tenhamos material o suficiente em nosso processo de libertação para conversar sobre o quanto isso é desprezível.

O mulherengo é um estereótipo clássico de masculinidade. E, como tal, não é exercido sem promover estragos consideráveis. Estereótipos de masculinidade versam sempre sobre violência de gênero, porque existem para reafirmar a lógica patriarcal. Os tipos sedutores são especialmente perigosos, porque são celebrados de maneira que atravessam impunemente diversos estereótipos afirmadores da feminilidade, a exemplo da evocação permanente da maternidade plantada em nós. Observe: eles são sempre os “meninos” adoráveis e perdoáveis, que falam carinhosamente e extraem de nós qualquer coisa. São os queridinhos no ambiente de trabalho, em cujas cabeças sempre passamos a mão, mas que obviamente não nos indicariam para boas oportunidades. São os caras que desejamos talvez ainda mais por destruírem corações. São os personagens de novela que todo mundo deseja ter em casa, os atores que amamos mesmo se tiverem exposto suas companheiras em traições públicas, os namoradinhos do Brasil. É para isso, afinal, que os galãs servem, para dizer quem manda e como manda. Manda bem melhor quem cativa do que quem impõe. Os sedutores, galãs do cotidiano, viram uma piada carinhosa facilmente entre seus amigos, que desejariam ser como ele. Ora, ter um latifúndio de fêmeas é um ideal a ser perseguido pelos homens. E é muito fácil ser o galinha boa-praça para quem está cego para os abusos que você comete. Sabemos que mesmo os amigos que não concordam com suas atitudes raramente lhe repreendem, no máximo são omissos. Porque no fundo ninguém se importa com o que passam as mulheres.

O mulherengo é o sujeito bem-sucedido sexualmente dentro de uma sociedade que hierarquiza gênero e para a qual sexo é poder. Os que não são bem-sucedidos sexualmente ainda podem comprar corpos femininos de diversas formas, uma vez que eles não param de ser colocados à venda, sem que sejam confrontados (você já viu algum consumidor de prostituição ser questionado? Pois tenho certeza de que quase todo dia você vê mulheres expondo outras ou sendo expostas em função de suas posições sobre regulamentação da prostituição). Mas os que conquistam muitas mulheres têm um sabor especial, porque permitem a romantização de variadas formas de abuso e garantem a nossa síndrome de estocolmo em face desse sistema. Mas e nós? Não existe previsão de ser bem-sucedidA sexualmente quando se nasce com o segundo sexo, aquele que não tem nenhum tipo de reconhecimento por suas liberdades, apenas julgamentos desumanizantes.

Há no mulherengo a ideia implícita de que ele vale mais porque não força, conquista. Ocorre que isso não é mérito dele, não é natural, é fabricado socialmente. E é aí que reside a sua principal pedra em falso: somos bombardeadas com capas de revistas, novelas, letras de música, boy bands e tantos outros produtos culturais que incidem sobre nós desde a infância, moldando uma idolatria e submissão que está sempre pronta para ser reativada por tipos masculinos semelhantes que atravessem nossas vidas. Ou seja, é assim que cultivam em nós o desejo inquestionável e a idolatria por esses tipos. Mantemo-nos permanentemente conquistáveis para os conquistadores. Aprendemos a amar o dominador sorridente e a acreditar que ele seja mais agradável, na escala de tipos masculinos.

Repetindo: há no culto ao mulherengo a ideia implícita de que ele vale mais porque não força, conquista. Agora vamos a outro desdobramento disso: o colecionador adorável só nos soa adorável porque a violência parece incompatível com seu modus operandi. Ele é um querido, um sujeito de boas, não tem culpa se as mulheres correm atrás, é o que dirão. Farão com que você acredite que escolheu isso para si, uma vez que todo mundo sabe como ele funciona. E, assim, a culpa pelos constantes abusos emocionais que ele opera acaba sendo sua. Por que desejar um homem que é de todas e não é de ninguém? Mais uma vez é reafirmado que está à disposição das mulheres um sistema de escolhas que na verdade nunca existiu, sem que falemos abertamente sobre o elemento da responsabilidade afetiva dentro das relações. Quantas figuras públicas do sexo masculino você conhece que são celebradas porque são grandes companheiros e pais presentes?

A quantidade de mulheres que conheço devastadas por colecionadores é assustadora. O mulherengo nem sempre é o padrão de beleza, ele é apenas aquele que percebeu e assimilou suficientemente comportamentos que sensibilizam, cativam e iludem. Comumente, um mentiroso profissional, despreocupado com a transmissão de doenças, com o risco de gravidez, com a solidão das parceiras que já têm filhos, com o que significa para a mulher ou para as possíveis crianças em questão aquele envolvimento. Despreocupados de como eles se apresentam como referências paternas. Narcisistas, acreditam que as pessoas giram em torno da sua satisfação sexual. Eles não estão interessados em saber quem você de fato é, não querem construir nada, apenas acham que você está ali como um corpo e um colo para eles. Esse desejo de colo faz com que, não raro, perdoemos e nos coloquemos compassivamente diante dos seus erros, infantilizando-os como boas mães, cumprindo a função que esperam de nós desde o nascimento.

Muitos seguem seguros, porque acreditam que jamais nos comunicaremos umas com as outras. E também porque temos medo de perguntar certas coisas, porque não queremos ser invasivas, não queremos parecer as inseguras que cobram essa ou aquela atitude. A nossa segurança emocional e a nossa autoestima são sempre colocadas abaixo da liberdade masculina. Quando ousamos conhecer as outras mulheres que eles enganam, não é raro percebermos que as frases ditas são as mesmas, as condutas parecem ensaiadas, as desculpas são as de sempre. Dizem que para que fiquemos tranquilas, pois hoje em dia é assim, todo mundo tem seus contatinhos mesmo. Você é só uma peguete, coloque-se no seu lugar. Mas até que ponto estamos mesmo satisfeitas com essa dinâmica e aceitando que as coisas sejam assim? Não fomos nós que inventamos esse formato. Estou aqui para te dizer que o seu lugar é onde você realmente deseja estar e não aquele que é conveniente para a modernização da cultura de abusos masculinos.

As ditas relações livres das quais tomo conhecimento também são precárias nesse sentido, isto é, precarizam a responsabilidade afetiva. Porque as mulheres continuam sendo socializadas para a exclusividade e romper com isso não significa necessariamente ter revisitado toda a construção da sua afetividade. Significa apenas que estamos testando um formato diferente. Que, novamente, não inventamos. O qual, muitas vezes, não foi experimentado por iniciativa nossa. Como viver uma relação realmente livre não sendo um corpo livre em um sistema patriarcal? É bem comum, portanto, que nos deparemos com discursos de liberdade afetiva que só se efetivam porque as expectativas femininas são atropeladas a todo momento. Se você é mulher e o que você sente não importa para mim, que sou homem, nunca importou, eu consigo te convencer com certa tranquilidade de que você precisa superar essa louca possessiva que traz em si, para que eu possa vivenciar como sempre quis o meu ideal de comedor impune. E você ainda ficará muito grata a mim, porque entenderá que isso te traz benefícios e que qualquer discurso contrário será conservador. Mas se sou outra mulher apontando um risco nessa dinâmica, você dirá que estou cancelando a ideia de agência, que estou desconsiderando que mulheres possam escolher viver novos formatos relacionais. E eu vou te responder que não estou cancelando a ideia de agência, porque ela simplesmente não existe. Você continuará tocando suas relações sem mim, acreditando na sua experiência de liberdade sexual, mas o meu papel aqui é dizer como continuamos a ser o gênero subaltenizado, para que você se lembre quando precisar.

Na era dos aplicativos de encontros, tendo por pano de fundo a naturalização da liberdade sexual sem responsabilidade afetiva, fica muito mais fácil ser um mulherengo impunemente, achando-se no direito de fazer o que bem entender, porque não vai faltar público. O homem pode dizer e fazer o que quiser, ninguém está vendo. Aceitamos o jogo de que as pessoas estão ali para o consumo erótico, não fica tão feio animalizar ninguém. Mas continuo conhecendo uma quantidade absurda de mulheres que se veem devastadas emocionalmente por homens assim, agora com a ajuda luxuosa dos aplicativos. Por que aceitamos o jogo sujo da modernidade, topando já começar, com venda nos olhos, uma aproximação que tem tudo para ser abusiva, pelo uso de uma ferramenta que se propõe a ser um catálogo de gente, mas torcendo infantilmente por um desfecho de exclusividade? Se nos faz mal a ideia de estar ali por inteiro enquanto o outro se encontra pela metade, pois precisa administrar seu harém de possibilidades, por que nos colocamos nessa situação? Não somos um game. E se não há acordos, o que vale é o que está pré-acordado socialmente e sabemos que o que está pré-acordado é o pior possível para as mulheres.

Don Juan, Lancelot, Marlon Brando, Giacomo Casanova, Páris, Zeus, James Bond, incontáveis haréns de reis e o choro desesperado provocado pelos rockstars e jogadores de futebol em suas fãs são provas de que essa reverência sempre esteve latente, chegando a encontrar referências mitológicas que remetem à ideia de fertilidade. O que obviamente não legitima a celebração dos mulherengos, dando conta apenas de demonstrar quão antigo é o exercício da dominação masculina pela sexualidade. No caso do insaciável Zeus, cabe lembrar que ele não é o Deus supremo da mitologia grega, mas foi delineado assim para que o culto estabelecido na Grécia com a importação e secundarização de outros mitos mais antigos (você sabia que Eurínome, verdadeira criadora do mundo, foi apagada da batalha original dos deuses gregos? E que Afrodite, reduzida a Deusa do Amor pelos gregos, foi cultuada como Deusa Mãe na Ásia Menor ?) representasse o triunfo de uma religiosidade patriarcal sobre o culto ao feminino. Ou seja, para a viabilização desse estereótipo do poder “galudo”, foi preciso anular um senso de dignidade inviolável dado às mulheres pelo olhar matriarcal e isso inspirou toda a civilização ocidental. Dessacralizando o ventre, e ventre é metáfora para a terra/solo, ficou mais fácil estuprar, invadir, saquear o ventre de outros povos, legalizando toda barbárie.

Estamos há muitos séculos nos dizendo que são esses nossos deuses, os férteis e gostosões detentores da vida, quando originalmente os homens deviam respeito a nossos úteros. A figura dos guerreiros, romantizada pelo cinema como a de homens atléticos e leais ao seu reino, que conquistavam sucessivos territórios, na realidade assenta-se sobre incontáveis estupros que a telona não mostra. E esse culto atravessa os tempos, modernizando-se para eternamente reativar o imaginário masculino, desejoso de espelhar-se ali, e o feminino, desejoso de ser a escolha que aposentará o herói em sua jornada hipersexualizada. A nossa insistência, portanto, tem também o componente da rivalidade, manifestando o desejo de triunfo sobre as demais mulheres.

Não dá pra mudar do dia para a noite esse festejar histórico dos conquistadores, mas dá para se perguntar de que forma a gente reforça e valida, individual e coletivamente, o estereótipo de masculinidade mais eficaz na naturalização da violência de gênero. O que estamos buscando, afinal, quando elegemos inconscientemente esse padrão masculino como objeto de desejo? Meu palpite é de que fomos tão castradas e julgadas no exercício da nossa sexualidade, e ao mesmo tempo tão secundarizadas e invisivibilizadas como seres humanos, que aprendemos em algum nível a existir por meio do outro, compensando diversas frustrações. Como a frequente frustração sexual, por exemplo. Se o nosso corpo é privado de dançar a dança da vida, o que nos resta é projetar nossos anseios em outros corpos livres, fetichizando uma liberdade que não podemos vivenciar. E, assim, o que nos apaixona é o que não podemos ser.

Por outro lado, até que ponto desejaríamos, a partir de um lugar bem escondido de nós, manifestar toda essa carga erótica que eles manifestam impunemente? Será que desejamos mesmo? A hipersexualização também é uma demanda do patriarcado para as mulheres, embora seja uma demanda jovem. Fomos socializadas dentro do binarismo puta-mulher de família e, até a chamada “revolução sexual” da década de 70, esses papéis sociais estavam bem claros. A democratização de uma versão de feminilidade mais erotizada é relativamente recente, se considerarmos o tempo do império cristão, responsável pela manutenção do modelo binário para a mulher, e corresponde ao capitalismo tornando as relações afetivo-sexuais passíveis de consumo. Quando passa a ser natural que meninas vejam todos os dias representações femininas objetificadas sexualmente na grande mídia, quando a indústria pornográfica passa a operar em larga escala, quando o discurso de liberdade sexual finge triunfar sobre o modelo binário conservador como se fosse uma expressão irretocável de avanço e não uma forma paralela de opressão, passamos a ter a produção em série de formas femininas erotizadas para além da sua vontade, buscando suprir a todo custo a demanda por mulheres que transitem confusamente entre a ideia irreal de autonomia sobre o corpo e a aceitação masculina irrestrita. No entanto, trata-se de uma sociedade muito neurótica, já que a objetificação sexual feminina não desafia de fato a moral cristã, o que pode ser observado pela permanência da ausência de autonomia da mulher em relação ao seu corpo (decisão sobre a gravidez, métodos contraceptivos, pelos etc.) coexistindo com uma falsa noção de libertação sexual.

Se temos, como mulheres, uma intensa carga erótica artificialmente produzida e que não se traduz em autonomia sobre o corpo, fica mais fácil compreender que tentamos desesperadamente nos equilibrar diante da pressão de nunca podermos ser quem realmente somos. Sob pressão, vazamos dentro das relações, diante da nossa tentativa de criar personagens de nós mesmas para viver todas essas expectativas conflitantes, sem que nos questionemos o quanto é realmente interessante para a nossa evolução corresponder aos anseios sociais. Fomos desterradas em nossa própria natureza e agora lidamos com o desconforto de ser. Só nos resta ser por meio de alguém autorizado a viver o que quiser. Expressamos indiretamente a nossa humanidade pelo corpo masculino, senhor de sua própria sexualidade, acumulador de corpos femininos, ganhador da Mega-Sena no sistema afetivo-sexual e que exerce com ares de legitimidade a mesma violência que qualquer outra versão de masculinidade, porém com mais folga, porque tem a idolatria coletiva a seu favor.

Tudo isso nos leva a crer que um mulherengo não é, de fato, um conquistador. Porque não conquistou nada de fato, o que tem lhe foi condecorado pelas opressões estruturais. Ele é um privilegiado. E é esse privilégio que aplaudimos quando o posicionamos como um homem acima dos demais. Isso está tão enraizado em nós que não precisamos ter consciência de que um homem seja um “pegador” para nos sentirmos atraídas, basta internalizarmos a cultura dos galãs e a competição feminina, que o nosso inconsciente dá conta do resto. Afinal, o que não deve faltar nas nossas memórias e referências familiares é conteúdo de dominação masculina, que o tempo se encarrega de glamourizar na forma de acumuladores de mulheres. Mas é claro que todos eles emitem mensagens de que são assim e muitas vezes não podemos enxergar.

Se é um padrão dentro dos seus relacionamentos a presença de homens desse tipo, eu te convido a se reapropriar da sua energia sexual, não somente no sentido de recolhê-la e externá-la em contextos de maior confiança, mas também no sentido de compreender que energia sexual é energia criadora, pois pode gerar uma vida. E que para sair dessa condição de panela de pressão em que o sistema nos coloca, talvez seja importante explorar novos empregos dessa energia. Externamos energia sexual quando nos colocamos criativamente em nossos interesses, quando somos inventoras da nossa realidade, quando damos gás aos sonhos que nos fazem caminhar para uma experiência real de autonomia em todos os campos da vida. Eu te aconselho a fuçar, com a ajuda de ferramentas de autoconhecimento (sobretudo terapia e, por motivos óbvios, de preferência com uma profissional do sexo feminino), onde estão essas referências masculinas dominadoras na formação da sua afetividade, para que você compreenda os mecanismos dessa cultura na vivência dos seus sentimentos, e deixe de ser refém deles. Temos muita coisa por viver e talvez nos defendamos desse vasto horizonte de possibilidades querendo nos prender a alguém que, em vez de nos encaminhar para o nosso melhor lado, fortalecendo a nossa evolução, prefere nos vampirizar, extraindo de nossas individualidades a substância da sua autoafirmação. Não é possível construir algo com quem nos objetifica e despreza tanta coisa que temos a dividir.

Coletivamente, precisamos quebrar os mitos que sustentam essa subordinação: olhar com mais cuidado para os tais símbolos sexuais e conteúdos culturais ou de entretenimento que validam essa posição masculina privilegiada, com fôlego imperalista, territorialista, quando o objeto desse poder é dado pelas nossas vidas. Ainda nos sentiremos atraídas por figuras públicas, isso é compreensível, humano, normal. Bom, pelo menos não saberemos tão cedo o quanto isso é nosso ou produto do sistema. Mas quando um cantor ou um político, por exemplo, são cunhados como galãs, por que bater palmas para isso, se o que está ali implícito é também a multidão de rostos anônimos de mulheres pintadas como descontroladas diante da presença masculina? Por que afirmar esse estereótipo que na vida íntima nos faz reviver as dores que gerações e mais gerações de mulheres viveram antes de nós? Tem sido cada vez mais comum que “galãs” sejam desmitificados porque cometeram violência de gênero. Incontáveis artistas viajam pelo mundo explorando a prostituição de mulheres. Um homem famoso acusado de estupro ou pedofilia sempre contará com defesa de grande parte da sociedade. Quando vaza um nude feminino de celebridade, temos humilhação, quando vaza um nude masculino, temos exaltação. A quem serve essa produção de estereótipos mulherengos e a sua idolatria? Tudo soa apenas como uma grande autorização para o abuso.

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