Não tô nem aí pro tamanho da sua rola

Fui embora e deixei menos de 140 caracteres no espelho, escritos a batom. Como diz uma grande amiga, somos mulheres epistolares vivendo a era do Twitter. A pobreza verbal do meu tempo acompanha os latifúndios da imagem. Era só um aviso de que eu havia deixado uma carta na porta da geladeira, seguido de uma ameaça de vazar nudes da sua miserinha de piroca, caso ele não lesse. Não que eu tivesse me importado um só dia com o tamanho da sua rola, mas era preciso deflagrar um movimento de buscar mais das relações macho e fêmea.

H.,
A maioria de nós não tá nem aí pro tamanho do seu pau. Te dou certeza de que pouquíssimas ligam. Muitas precisarão demonstrar que ligam porque também internalizaram, assim como você, que o mundo dança em torno de pica dura. Ou porque, se vocês são tão declaradamente reféns de uma autoestima falocentrada, então é bom reafirmá-la para jogar com isso de vez em quando. Fica fácil derrubar qualquer um que não se encaixe — é isso que os padrões de beleza com que nos massacram afirmam a todo tempo, então talvez devam tomar uma golada de volta para conhecer o gosto. Enfim, é com o ícone da masculinidade que elas geralmente possuem fetiche. Mas te garanto que são minoria entre nós.
A nossa preocupação maior passa longe de ser o tamanho. Não dê a ele essa importância toda. O problema é justamente o fato de ele estar no centro do seu mundo. De ser usado como arma contra a nossa carne. É absurdo que por todos os dias da minha vida eu tenha medo de andar na rua à noite por causa do que você pode fazer com seu pau, do que os homens ameaçam fazer conosco desde que nos entendemos por gente e lemos em todos os rostos. Deveria ser uma vergonha para vocês saberem que uma parte do seu corpo foi consagrada culturalmente como um signo de violência, do qual nem crianças escapam. Nenhuma forma de reparo à mulheridade deveria bastar diante disso. Mas eu sei que você não apenas não sente vergonha como à noite, quando cai o pano, toca punheta se levando a sério como vilão. Aliás, há indústrias inteiras especializadas na sua punheta vilã desde a sua puberdade, mas conheço mulheres com mais de cinquenta que jamais se masturbaram. “Prendam suas cabras que meu bode tá solto”, quantas vezes vocês já ouviram os antigos dizerem isso? Sua noção de masculinidade se construiu assim: seu pau é seu maior instrumento de poder. Dessa preocupação que eu carrego decorrem todas as outras perturbações que vocês não enxergam que nos causam, porque estão preocupados exclusivamente em ser governados pela própria ereção.
Eu não tô nem aí pro tamanho do seu pau, mas para o fato de você estar imerso em uma rede de certezas apenas por ter nascido com um. Você tem a sensação nem sempre confessável, por exemplo, de que eu sou inferior a você de alguma maneira. Talvez ela não se manifeste como caricatura misógina, mas na maior parte do tempo sob uma roupagem mais discreta, daquelas que só mulheres muito atentas podem perceber. Você vai fazer média quando todos estiverem te olhando, te lendo, te ouvindo, mas ninguém aqui é criança, ok? Você não é tão aberto assim à convivência igualitária com mulheres e isso se evidencia em quase todos os seus gestos. Para vocês nós somos um troféu, uma sombra, uma muleta, um acessório, um colo. A paridade passa longe de nossas trocas. Mas olhe só para o quanto você lambe o pau imaginário dos seus amigos. Todo mundo enxerga esse corporativismo dentro do qual vocês todos exercitam a masculinidade dia e noite. Você ama outros homens como ama a si mesmo. Idolatra-os. Você chora feito criança quando teu time perde, no limite com o ridículo: um time de futebol é a única coisa ou a coisa mais frequentemente digna de que você assuma suas emoções. Sente que todas nós existimos para os homens, associa-nos à maternidade, à delicadeza, à compaixão, e que isso faz com que pense ser nossa função, em algum nível, nutri-los afetivamente sem fim. Por meio do sexo sempre à disposição. Da servilidade profissional. Da manutenção exaustiva do lar. Nosso choro não foi censurado, foi até mesmo estimulado para banharmos seus pés e enxugarmos com nossos cabelos sempre que precisarem de um pouco de peito a qualquer tempo em suas vidas, em qualquer campo. Somos seios em tempo integral. Você pode até ter construído uma vida digna a dois, mas lembra do que você já fez a outras mulheres, talvez à sua própria mãe, sem jamais ter se desculpado? Eu não vi e saberia te descrever perfeitamente como elas se sentiram um lixo enquanto você colocava o pau triunfante na mesa. A dominação psicológica acrescenta centímetros e vigor a qualquer rola. Diante de tudo isso, meu amigo, eu quero mais que o tamanho do seu pau se foda.
Você não deixa meu corpo ser exatamente o que ele é. Ele precisa ser pra você, nunca pra mim, como se eu não me pertencesse. Você anda na rua classificando todas as mulheres para as quais olha. A televisão, mil revistas, a indústria pornô, a prostituição, tudo te dá o direito de se colocar dessa forma, na maior parte do tempo sem disfarce. Essa eu como, aquela eu não como, aquela outra só serve pra boquete. Essa, coitada, nem de costas. Seleciona as piores palavras para nos descrever quando não estamos por perto. Ainda que não fale, julga-nos desde a cor dos grandes lábios até a primeira palavra matinal. Qualquer coisa que considere criticável fulmina minhas chances de ser conhecida em tudo o que tenho a trocar. Quando é que o ser humano que eu sou passa pela sua mente? Quando presta atenção no que tenho a dizer? Talvez quando eu cometa algum ato de rebeldia contra essa secundarização incessante e você diga a meu respeito: ‘louca!’. Então pega. Todos te escutam e começam a me ver como desequilibrada. Alguns de vocês já disseram publicamente que uma mulher feia deveria considerar um estupro elogioso e outros de vocês riram e uns outros disseram a todas nós “não se pode mais fazer piadas como antigamente”. Antigamente, seu avô violentava a minha avó tantas vezes por noite, desde a primeira vez, que ela nunca mais teve sentidos para farejar nele algo diferente disso. E agora nós estamos aqui, primos em face de um tempo onde eu tento te dizer que o seu pau não é o centro do planeta, diferentemente do que você herdou. E do que manifesta todos os dias. Depois que transamos, você precisa imediatamente ativar o desprezo, para que eu não pense que existe intimidade entre nós. Você enfia a cara no meio das minhas pernas, se é que enfia, e evita intimidade em seguida. Se surge uma oportunidade de trabalho, não é a mim que você indica. Nem será outra moça. Nem outra. Seu interesse dura o quanto puder nos manter como um alvo sexual. Se um amigo seu me agredir, você não tem nada com isso, nem vê como pode ajudar. Mas passam-se uns dias e paga uma cerveja pra ele. Você o indica. Você o chama pra gig. Você o publica, divulga, monta sua própria fraternidade fálica. Você entrega seu país nas mãos dele. Você lhe dá um Oscar, para que ostente um segundo pau.
Não ligo pro tamanho do seu pau, mas pro fato de você saber ou não usar. Saber usar, às vezes, é simplesmente não usar. Talvez você precise se esquecer um pouco dele para que seja brilhante com ou sem ele. Talvez precise se lembrar de que é comigo que você se relaciona, não com seu pau através de mim. Eu sou um ser humano, porra. Estou aqui, ao teu lado. De igual para igual, quero dizer. Não como a mocinha que espera pelo herói que voltou feliz depois de um holocausto, não como a rainha decorativa do seu reinado, não como o mero útero a perpetuar a espécie, tampouco como a amiga que é a foda certa. Embora exista essa estrutura permanentemente montada para que todos os homens sonhem ser os reis sexuais do mundo e passem a vida tentando realizar isso na medida do possível, minha vagina não é seu feudo. Eu tô aqui, caralho, como um ser humano. Tão estupidamente humana que falo sobre falocentrismo e constato que não consigo enfatizar com palavrões vaginais. Tão estupidamente humana que não existe uma palavra vinculada ao meu sexo biológico para designar a totalidade de seres humanos. Você me quer menor do que você em todas as esferas da vida — desde a desigualdade no trabalho, passando pelo massacre psicológico do assédio diário e pela juventude perdida das meninas que fazem filmes nuas com velhos ricos, até o manequim no qual eu preciso caber se quiser me casar contigo — porque não consegue ser maior do que você mesmo. Não consegue ser maior do que seu pau, na cama ou fora dela.
Não se garantir com o resto do seu corpo já é utilizá-lo mal, não importa o tamanho. Você empobrece e diminui toda a nossa troca para que ela caiba nas suas calças ou você se agiganta para que a gente junto transborde? Qual é o seu tamanho de fato? Até que número você consegue ir? O quanto você suporta o meu tamanho como mulher? Preciso caber na palma da tua mão para que o seu pau seja maior do que eu: é o que quase todas as coisas à disposição das meninas no mundo me ensinaram. Isso pode ser transposto para as situações extra-cama também. Quando você me diminui de qualquer maneira, tenta compensar sua auto-imagem redimensionando fantasiosamente o seu pau. Pensou que jamais decifraríamos, mas está bem óbvio que, se o seu pau é tão central para a sua existência, o que quer que você diminua por despeito terá a imensidão reafirmada. Sou maior, bem maior do que o seu pau. Eu me fiz maior do que você por sobrevivência. Mas acredito que você também poderia conhecer a sua longitude, se finalmente ousasse ser quem é. Não como aquele moleque que acha natural desaparecer para não dar satisfações, mas como a singular reinvenção da multidão que carrega o seu nome na raiz: humanidade. Sentado ao meu lado na cama, você me parecia um igual, diferente porque busco esse encaixe, mas um igual. Seu temor da horizontalidade, de ficar inteiramente nu ao meu lado, é também o de não ser tão grandioso, majestoso ou assustador o bastante, como o masculino devastador é orientado a ser para ter todas as coisas do mundo no raio da sua legitimidade sangrenta. Estamos exaustas de tanto morrer. A masculinidade assina todos os genocídios da história, não há motivos para consagrá-la. Ela precisa ser implodida e manifestar o novo homem, aquele que se lembre ter vindo de dentro de nós.
Com amor,
M.

“M”, no entanto, eram quarenta mil quatrocentas e doze desconhecidas apenas na capital naquela data, até o momento em que contabilizei. Com algumas variações no texto, em mensagem e dimensão, é bem verdade. Fizeram com que esse registro chegasse a maridos, ex-namorados, professores assediadores, chefes, ministros, padres, militares, donos de emissoras de televisão. Houve também aquelas que preferiram não entregar sua carta de modo convencional. E é precisamente aí que reside o sucesso da campanha. Centenas de vídeos no youtube, TT, hashtags no Facebook, hashtags no Instagram, camisetas à venda em todas as plataformas demonstravam a adesão em massa à política de impotência para fins de reflexão masculina por dias a fio.

#bomdiamatriarcado

Maria Gabriela Saldanha é escritora feminista que vem se dedicando, nos últimos anos, ao tema da libertação emocional de mulheres. É também estudiosa de mitologias, simbologias e linguagens oraculares, escrevendo sobre Tarô, Sagrado Feminino e outros universos simbólicos por meio da página Matriarcaria — Laboratório de Arcanos e Arquétipos, no Facebook.
Instagram: @mariagabisaldanha ou @matriarcaria

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